Onde está o nosso pai?


Via Trabalho Sujo.

Eu não gosto de falar sobre assuntos polêmicos. Tenho minhas opiniões formadas, acho importantíssima a discussão entre ambas as partes, mas o debate sempre termina em uma guerra de egos; as pessoas acreditam estar 100% corretas em sua posição, ninguém dá o braço a torcer e todos permanecem sentados em suas latrinas da Verdade Absoluta. Não adianta, perdemos a prática da argumentação. Estamos mais preocupados em demonstrar nosso nível intelectual do que defender qualquer que seja a causa. Por isso, prefiro manter certa distância da intolerância alheia, que só fomenta o politicamente correto (com valores equivocados, na maioria das vezes). Mas após assistir ao vídeo acima, senti uma leve vontade de partilhar com os leitores circenses de plantão a minha visão sobre o aborto; e ainda a respeito do próprio protesto.

Elisa é vocalista de uma banda feminista (nossa, que rima!) chamada Dominatrix. Na quarta-feira, dia 21, havia um protesto contra o aborto comandado por um bispo na Praça da Sé, aqui em Sampa. Não achei muitas informações sobre a notícia, senão essas que citei, mas talvez seja o bastante. O que importa de verdade é O Protesto Solitário de Elisa; nome que o vídeo recebeu em diversos blogs que comentaram o assunto. Com um cartaz escrito "Em memória as mulheres vítimas do aborto ilegal", a moça caminhou (de modo confiante, devo frisar!) dentre os participantes da manifestação do bispo e foi a única que levantou a opinião contrária, de quem apoia o aborto legalizado. Esse ato isolado me conquistou a atenção mais do que o objetivo em si. Indiferente do ponto de vista de cada um, qualquer corajoso o suficiente para tal atitude merece ser ouvido por quem tem o poder, ou a aproximação necessária, para solucionar o problema em questão. Eu penso assim. Nossa cidade, você há de convir, anda carente de heróis urbanos. Não estou falando sobre andar por aí usando uma capa ou fantasia de Batman, mas sobre enfrentar o absurdo.
É preciso ter pra ser ou não ser? Eis a questão. Ter direito ao corpo e ao proceder, sem inquisição. A impostura cega, absurda e imunda, a quem convém? Esta hetero-intolerância branca te faz refém.
Esse Mundo não Vale o Mundo, O Teatro Mágico.
Sejamos francos, o Brasil está crescendo economicamente, mas há muito tempo estagnou na cultura e educação. Sim, acredito que o aborto seja uma questão educacional, posto que a falta de conhecimento no assunto seja espantosa! Quase caí na bobagem de citar países que o legalizaram, porém preferi manter as ideias em terras tupiniquins; se acabo de dizer que estamos estacionados intelectualmente, é evidente que não há comparações com o Velho Mundo. De qualquer forma, o aborto não é considerado um crime se efetuado por um médico, quando a gravidez causa riscos a vida da mulher ou em decorrência de um estupro. Caso contrário, a mulher pode ser presa por até quatro anos (a pena chega a dez anos em alguns casos). Eu até poderia escrever algum clichê do tipo: "O Estado prefere que as mães abandonem seus bebês em um saco de lixo por não ter condições de criá-los", mas isto é uma desculpa tão cabível ao governo!

É imensamente mais fácil remediar um abandono do que prevenir o controle de natalidade. Basta cadastrar a criança e, se não houver um responsável para acolher, o incapaz é encaminhado ao conselho tutelar; um abrigo (porque somos tão primitivos que sequer chamamos de orfanato). Convenhamos, meus queridos bonjour circenses. Não digo que sou contra nem a favor do aborto, simplesmente porque isto diz respeito a cada um. É tão íntimo, que deve ser discutido apenas entre os interessados, ou somente entre a mulher e si mesma. Portanto, a proibição pode ser considerada inconstitucional. Impedir a mulher de comandar o próprio corpo e administrar sua vida contraria o direito de autonomia. Vocês sabem, vivemos na sociedade do cada um por si e Deus por todos. Não preciso exemplificar nossas dificuldades diárias e a luta por dignidade. Temos um salário mínimo de R$500, o sistema judiciário é falho, favelas ganham espaço e a única conduta do Estado é renomiar as "comunidades" e tampá-las com prédios miseráveis e sujos (os famosos Cingapuras). É isto que decência significa para o Poder. A indecência fica por nossa conta, que somos obrigados a passar por poucas e boas antes de comermos o pão de cada dia.

Infelizmente, o espelho da hipocrisia brasileira provocou grande reflexo nas escadas da Sé. Os intransigentes que tentaram abortar a manifestação isolada de Elisa são dignos de pena. Sim, pena perpétua de ignorância. Foi inútil a falsidade do bispo em dizer que "tudo bem, calma, estamos em uma democracia", posto que se deu ao trabalho de juntar um considerável número de estúpidos em uma tarde (que deveria ser de trabalho) na cidade de São Paulo. A proibição do aborto envolve centenas de dificuldades na saúde, educação, mercado de trabalho, moradia, saneamente básico... ou você acha que as mulheres obrigadas a levarem adiante uma gravidez tem todos os recursos necessários para parir uma criança? Não, elas tem somente a opção de criar meninos de rua, abandonados ou criminosos. Um país sem estrutura jamais será um pai de família. Os cristãos anestesiados pela doutrina do gado de corte (vivemos em um eterno abate) irão sofrer de demasiada preguiça em lutar cinco vezes mais para prolongar o direito de viver. Sequer nós, adultos, temos tal direito. O que diremos dos fetos indesejados!

É preciso rever o conceito de Vida no Brasil. O que é isso? Como se brinca? É coisa católica? O corpo feminino é um assunto urgentíssimo a ser discutido por terceiros, menos a quem convém. Enquanto uma mulher desesperada chora sem saber como agir diante de um momento tão delicado, manifestantes de olhos tampados se preocupam em cobrir o cartaz da causa de seu próximo. Irmãos? Não em um país sem pai. Como eu disse anteriormente, não cabe afirmar aqui se sou ou não a favor do aborto. Para mim, é uma questão a ser respondida quando acontecer comigo. Mas eu quero e exijo ter minha opção respeitada, até mesmo porque ninguém irá cuidar do meu filho senão eu. No caminho que o Brasil continua seguindo, nem o Estado se responsabiliza pelo cidadão, quanto mais pessoas egoístas que insistem em seguir um ideal utópico.

O pior aborto, caros assassinos (da democracia), é o da liberdade de escolha.

Aos circenses

As torres empresariais são os bicos bicolores das tendas, que se esticam e abanam suas bandeiras.  As ruas e avenidas são o picadeiro; repleto de arte e seus respectivos artistas. As árvores e pássaros e estátuas são nossa plateia - muda, triste, morta, diante de um espetáculo deprimido. Os automóveis, ônibus, trens, motos... nossos cavalos; quão arredios! Galopamos. Demonstramo-nos uns aos outros e nos fazemos rir. A vida, o público pagante. O suicídio, o escape por debaixo da tenda; nada gentil. As mulheres, o espetáculo secundário. Os homens, bobos com as calças nos joelhos. É assim, vivemos em um teatro de espelhos que deformam nossos corpos, confundem nossos olhos e nauseiam nossa mente. O que parece ser, na verdade, não é.

Os malabaristas manipulam a visão. Piruetas, mãos ardentes e agilidade. No farol, nas favelas, debaixo do viaduto, em becos, empresas - vale tudo  em troca de pão. Há aqueles que desprendem a atenção e num piscar de olhos nos roubam o ganho. Um fato: a arte, muitas vezes, vai pela contramão.

Os palhaços estão à margem; dos rios, da ponte, na linha do trem e da sociedade. O mendigo de mão esticada por uma esmola esconde um homem indefeso de nariz vermelho, que chora. Ele quer nos fazer rir, mas não queremos o escutar. O desesperado, que costura sua morte com a tênue linha da vida, não teve suas piadas compreendidas. Aquele que se afoga, não consegue viver sem a alegria. Os outros, que com esforço conseguem suprir a expectativa do público, consideram-se ótimos na profissão. Heróis, que com um sorriso crasso fazem de conta que não são bobos, não! No fim, nós queremos apenas um pouco de espaço; e para isto, nos vestimos e nos comportamos feito palhaços.

O equilibrista, este sim, engloba a grande parte do mundo. Com boa vista e pernas fortes, é aquele homem que arrisca, pois tem a certeza de que irá triunfar. O otimista, boa gente. Normalmente, nos irrita - sempre há uma rede para apoiá-lo. De qualquer forma, em uníssono levanta os rostos para lhe observar, e o show nunca desaponta. Está firme, o pé em ponta, desafiando aquilo que nos é frágil demais para brincar. Entretanto, a vertigem e a existência assim, tão submissas sob o poder de um homem, são tudo o que queremos experimentar.

Há barulho, aplausos, emoções e olhos que lagrimejam. Encobertos por cores e cheiros doces, sobrevivemos assim ao incerto. Cercados por números e surpresas, que nos arrancam com toda a força o fôlego, saboreamos os momentos que nos são presenteados. Estamos sim, anestesiados, portanto não nos preocupamos com os bastidores. Porém, tamanha é a mágica desta incerteza, que não nos damos conta do sofrimento que enfrentam tais trabalhadores. Não paramos para pensar, diante do rufar dos tambores, quão difícil é sustentar tantos pormenores e dores. O circo causa dor. A cidade, grande rancor. A sociedade, um espetáculo decerto incolor, mas ainda assim belo o suficiente para nos manter espectadores.

Os artistas choram. Os cidadãos imploram - Olhai por nós, grande Mestre de Cerimônias! Anunciai todos os dias vosso espetáculo celestial.  Que os leões desdentados, os elefantes mau humorados, os macacos esfomeados e as moças fugidas da casa de família não nos façam mal. Estamos sob vosso olhar assim, lutando por caipiras que paguem à vista e sempre voltem uma vez mais. Que as ciganas e seus cristais anunciem boa sorte. Que façamos, não somente mais um número, mas sim outro e outro e outro... Até que não haja mais aplausos. Pois estes cessam, emudecem, e então é nossa hora de amarrar a lona e torcer para que o vento bata e nos leve - bem leves! - para vosso anoitecer.

A cidade não pára, não paramos. Estamos todos, soberanos, sob o feitiço circense. Bradai, imensas e cintilantes estrelas! Vocês são a beleza que prende todos os olhares. Vocês são o motivo, a razão pela qual novos artistas nascem. Estes chegam chorando, mas logo aprendem a arte de sorrir. E aprendemos, caros circenses, a infinita arte de nos apresentar em troca de reconhecimento. Queremos, apenas, sonhar. Queremos, à penas, um gole de encanto. Queremos, enfim, que o circo nunca mais nos deixe a sós.
 
Feliz Dia do Circo, Bonjour Circenses!

Teoria Facebookiana do Caos

Meu pai chegou sábado a noite em casa com uma coxinha maior que minha mão; ela quase merecia ganhar um vestido e ir para a faculdade (mas já que meu pai prefere um carro, então não daria mesmo #tumtsi). Prefiro as coxinhas caseiras, feitas pela minha mãe, mas no fim das contas qualquer salgado com alto potencial em matar minha pessoa é muito bem quisto por mim. Seja de padaria ou não, coxinhas me fazem filosofar. Acho que fico tão feliz, que começo a delirar e achar que sou uma pensadora do século. Numa dessas, acabei twittando demais e escrevi que tenho uma teoria sobre a "curtição" no Facebook e toda a funcionalidade da rede social. Como eu tenho vergonha na cara (apesar de não demonstrar), escrevi em seguida que ninguém estava interessado nisso. Para meu espanto, a Camila (@cahdepaula) curtiu essa ideia, e a @mrejane também.

Eu adoro dar ouvidos aos visitantes do Bonjour Circus, e por isso vou atender ao pedido delas. Porém, vou deixar avisado que não trabalhamos com ressarcimento e a preservação do seu tempo perdido não consta nos direitos do consumidor circense.

Sou da época em que era necessário um convite para entrar no Orkut, e todo mundo queria desesperadamente um. Era a sensação do momento; as comunidades representavam nosso estilo de vida e passaram por diversas fases. Trocávamos scraps, e depois recados. De repente, aquilo perdeu a graça. Descobrimos que, no fundo, nunca houvera finalidade naquele azul-calcinha. Fomos para um azul-marinho, o Facebook (como manda a boa lógica humana), porque funcionamos assim. É desse jeito, pronto, acabou. Existem poucas diferentes entre o Orkut e ele; além do design e das cores, há opções mais atuais de compartilhamento de informações entre conhecidos. Resumindo é a mesma bosta, mas super legal por estar na moda. É daí que vem minha teoria.

Somos influenciáveis. Nem venha com o papinho de "Sou contra o Sistema" porque zzzZZzzzZzZzZzz... Hoje ninguém mais consegue viver sem conferir o email ou twitter ao menos uma vez por dia. Alguns ainda podem se salvar, da minha safra para trás, porque vivemos um mundo sem o vício da internet. O meu medo é descobrir, tarde demais, que os jovens de agora serão adultos incapazes de resolverem problemas reais, irão morrer por se consultarem no Dr. Google, quiçá entrem em extinção por desaprenderem o convívio social - acham que só existe um tipo de sexo, o virtual. Uma vez presos e dependentes do contato online, nossos homens engordam, se esquecem de sair da casa dos pais para começarem a própria vida e criam diversas ilusões amorosas de tanto acessarem o Tumblr. Minha intenção não é ser grossa tão pouco injusta, mas estamos criando baitolas em grande escala. Agora tudo é bullying; na minha época não tinha esse troço, ou você aprendia a se defender ou aprendia! Tudo é crime, multa, processo, briga e motivo para chorar. As pessoas se descabelam por problemas online e simplesmente ignoram a vida real.

Veja bem, não estou criticando o uso da internet. Eu mesma vivo conectada, estou cadastrada em várias redes sociais e essa é a única forma - muitas vezes - de conversar com as pessoas do meu círculo social. Só estou dizendo que o vício chegou ao nível máximo. As pessoas dependem só da internet, fazem compras, pagam contas, namoram, viajam, baixam livros, filmes, músicas, assistem shows e tem o mundo inteiro na palma da mão. Está tão mesclado ao nosso cotidiano, que não nos damos conta de que estamos vivendo sentados. Quando vamos para a academia ou fazemos qualquer exercício por conta própria, realmente acreditamos ser algo digno de uma medalha, sendo que não passa de uma obrigação; algo normal. Os internautas dão prioridade para a timeline do Facebook e se importam mais com a mudança de layout do que com o filho berrando de fome no berço. A problemática do ibope virtual é digna de pautas em todo lugar. Mulheres se comparam cada vez mais umas com as outras, crendo que a foto do perfil alheio é original e não photoshopada. Aliás, o que é beleza natural? Nunca mais vi a pobre coitada. Vivo a máxima do "de perto, ninguém é normal". As pessoas estão neuróticas.

Não existe olho no olho, aperto de mão, abraços, beijos estalados na bochecha. Se pararmos para pensar: estamos adormecidos. Definitivamente anestesiados. Homens não honram porra nenhuma, mulheres acham que tudo é fácil demais. Somos mantidos em frente ao computador e ninguém protesta. Não, não somos acomodados. Estamos adestrados. Acomodados são os outros, que pretendem não sei o que para conquistarem não sei quantos, nem quando nem onde. Estamos facilitando as coisas, não acha? Nossa vida se dissolveu na diversão que a internet oferece, e nos tornamos um gado online. A juventude de hoje realmente me preocupa muito; estão bobos, indefesos, fracos, com a cabeça vazia (ou cheia de merda) e se importam com coisas tão triviais. Não sabem mais pensar, não sabem o que querem, para onde vão e de onde vieram. Não estou generalizando, mas se a carapuça serviu: bom proveito. Não estamos preparados para nada! Não sabemos a real profundidade e a quantas andam o planeta. Absorvemos o que a internet publica, aquilo que a televisão transmite e pronto: estamos em dia com nosso dever. Gente, não é assim.

Enquanto você se diverte de forma sexualmente ilícita - católicamente falando - mísseis nucleares são preparados para aniquilarem seu Playstion. Iremos perder a Terceira Grande Guerra para os russos (sempre eles) literalmente com as calças na mão. Durma com este barulho!

Violeta

Era uma vez, uma menina pálida como a mais nova rosa branca de primavera. Desabrochada sobre o parapeito da janela, sua ocupação era sonhar. Com a ponta dos dedos, arrastava as nuvens no céu e formava castelos, cavalos, coelhos e lindos campos de flores, todos ensolarados pelo maior sol do mundo! Seus lábios, da cor de sua pele, tremulavam vez e outra uma canção muda e isolada. Não podia, a pequena menina, cantar a plenos pulmões, pois temia acordar do sono o Grande Monstro.

Imaginemos, caro leitor:

Havia em um vasto campo seco uma única torre coberta por ervas venenosas. Ao redor desta torre, habitava uma árvore magrinha, tão doentinha, que já não brotava mais vida. Muito bem. No topo ficava nossa protagonista, descrita como a flor enraizada à beira da janela. No pé da fortaleza vivia um monstro! Olhos vermelhos em fogo, uma boca repleta de dentes sanguinolentos, corpo de dragão e cabeça de touro. Chamado de O Grande Monstro pela menina, ele permanecia todo o tempo adormecido na saída da torre. Nada entrava, nada saía. Às vezes era possível ouvir seu ronco de longe, muito longe, em terras que nossa personagem jamais imaginou visitar. As pessoas, aterrorizadas, rezavam fervorosamente a cada ronco ouvido e temiam o fim dos tempos. As senhoras faziam o sinal da cruz, as crianças escondiam-se debaixo das saias, os homens afiavam suas espadas e bravos cuspiam no chão. Ninguém imaginava que sob o poder de terrível criatura sobrevivia uma bela flor.

Violeta!

A menina chamava-se Violeta. Desde o dia em que viu passar aos pés de sua morada uma trupe de circo, ela rodopiava e rodopiava e rodopiava ao redor de seu quarto, fingindo ser uma bailarina ou estar sobre a cabeça de um elefante. Ah, como o tempo parou após a passagem de toda a alegria que a companhia circense lhe proporcionou! Os ponteiros do relógio pareciam velhos e encurvados, tentando com toda a força ir para frente, enquanto a vontade era deitar-se e afundar. Não preciso contar-lhes que esta também era a vontade de Violeta, que definhava a cada dia presa naquela torre. Porém, a fantasia da impossibilidade na arte do circo a mantinha viva! Ela queria e almejava fugir para assistir ao espetáculo, qualquer dia desses. Se Deus quisesse, Grande Monstro dormiria além da conta e ela correria e seria empurrada pela rachada de suas ventas diretamente pela porta; para o outro lado onde o mundo estava aberto e vivo.

Embora tivesse medo dos espinhos que ladeavam a torre, nossa pequena menina desejava voar a plenas asas de encontro ao topo da tenda, que erguia-se diante do horizonte fazendo vista para os olhos serenos da pombinha. Certos dias ouvia-se a música, outros ouvia-se o tilintar da sobrevivência da trupe, e ainda em alguns momentos abalados via-se ao longe um palhaço dançar. Ele dançava ao cortar batatas. Dançava ao dar banho no cavalo, e enquanto limpava os sapatos, maquiava-se dançando e também ao colher maçãs exageradamente vermelhas das árvores próximas. Violeta, sentindo-se infeliz, curtiu o gosto da fruta pela imaginação. Dava-lhe água na boca; o palhaço e a maçã, pois ambos gritavam saúde e alegria, sem a menor pretensão. Visivelmente, nada havia sob os domínios do homem de rosto pintado senão uma tenda furada de cores desbotadas e um cavalo velho. Entretanto, a menina pensou amargamente, ele possuia muito mais do que ela própria.

Um dia, o sol escondeu-se todo envergonhado da chuva. Estes dois foliões há muito se enamoravam! Chovia, o sol sumia. Ensolarava, a chuva minguava. O que é o amor senão um chove e não molha? Neste dia, Violeta acordou com um estrondoso ronco do Grande Monstro; tão alto, que seus ossinhos encolheram-se na insignificância. "Oh, Deus! Mas que diabos!" Levantou-se dentre blasfêmias embirradas e desceu as escadas de mármore enregelado. Pé ante pé. Pé ante pé. Pé ante pé. O coração e a ponta dos dedos fizeram música. Pé ante Pé. Tumtum tumtum. O monstro dormia o sono dos justos! Angelical como o próprio Lucifer, após cair na Terra. Era de dar gosto! "Corra!", e a menina correu. Os pés não tocavam o chão, que diluiu na velocidade. Os cabelos, os braços, a respiração - tudo perdeu controle; a porta abriu-se. O campo sorriu. Violeta aproximou-se da tenda. Aproximou-se do palhaço. Aproximou-se de si mesma. E caiu sem forças na grama molhada.

Ao abrir os olhinhos aflitos, o palhaço assoviou. "É em pé que se vive, moça!", ele brincou ao ajudá-la a se levantar. Violeta olhou para traz e vislumbrou a torre desmoronar pedra sobre pedra; a menina perdeu-se no mundo e não tinha mais onde ficar. Por um segundo, ouviu o rugido feroz do Grande Monstro, que sentia sua falta; e nunca mais olhou para trás. "Não sei de onde veio, mas isto não é lá problema meu. Só sei que parece uma flor que o vento tirou para dançar!" As bochechas de menina que jamais sorriu doeram com o firme e abrangente sorriso. "Posso ficar?" O palhaço olhou de contramão. "De onde veio?", perguntou. Violeta, de prontidão foi sincera - "Do inferno!" Reparou, então, que no rosto do palhaço haviam alguns pontos de lágrimas secas. "É um bom lugar.", ele retrucou, "Faz calor e somos isentos da responsabilidade de nossos maus atos. Eu gosto! Tudo justifica-se no inferno, bonita flor."

Violeta riu com a normalidade e simpleza do homem pintado com todas as cores. Era elegante, a sua maneira, desprendido do material e rico de espírito. Tinha as mãos calejadas, não pelo trabalho, "mas pela arte de viver! Cada calo tem uma história e alguns até gostam de contar, eles próprios, as aventuras. Aumentam um bocadinho aqui e outro ali, é verdade, mas história sem lupa nunca é boa." Nossa amável flor despetalou-se. Refez-se, porém, em seguida e aromatizou toda a companhia com sua fragrância. "Heis que é mesmo viva!", o palhaço comemorou. "E respondo vossa pergunta", ele gracejou com tiradas de chapéu e pulos, "que és bem vinda aqui nesta família", aproximou-se e sussurrou - "sem pudor!", e continuou "Chamo-me Aço, o palhaço cujo destino é navegar e ao mesmo tempo derivar mar afora. Sequestro uma roupa de varal aqui e acolá, chamo meu cavalo de Valo por pura preguiça de pensar, mas acredite, eu jamais serei outra coisa senão palhaço. Ladrão, não. Perdido, nunca. Preguiçoso, também não. Só palhaço!" Violeta, sentindo dever a ele uma apresentação, murmurou - "Sou só uma menina." Aço, o palhaço, enlaçou o magro braço pálido e piscou. "Não, mademoiselle. Agora tu és primavera!"

A trupe levantou poeira e da cidade fugiu. Contam os camponeses, que foram em busca de entretenimento gratuito e sonhos de padaria. A menina, montada no lombo de Valo, cantou a plenos pulmões as músicas que conhecia e aquelas, que inventou. Apresentou-se sobre a cabeça do elefante, rodopiou e rodopiou. Há muitos segredos nesta história, caro leitor, posto que a maioria dos acontecimentos foram relatados pela brisa da memória de quem os viu passar. Dizem todos, porém, que o sorriso da moça era como o raiar do sol após a tempestade: lindo, vívido e bruto como uma pedra preciosa. Às vezes ela ria tão alto, que o povo de aldeias distantes reunia-se nas igrejas, colocavam-se de joelhos e agradeciam vosso Senhor pela graça alcançada. Portanto, na falta de um fim mais verdadeiro imaginemos, leitor, uma florzinha delicada de mãos dadas com um palhaço, ambos estão rindo, e suas sombras são acolhidas pelos braços do amor.

Dizem que Violeta nunca mais voltou, e foi feliz para sempre.

Texto participante de um meme mafioso (porque faço parte de uma "máfia" blogueira, um grupo de meninas supimpas), baseado na minha vida e em homenagem ao Fernando Anitelli. Caso você queira saber como foi o show de ontem da trupe, no Carioca Interlagos, postei uma nota na página do blog!

E tenho raiva de quem sabe

Texto escrito na terça-feira e postado só agora porque... sim.

Assim que abri os olhos, ainda deitada na cama, os fechei imediatamente logo depois. Não conseguia mantê-los abertos por causa de uma tontura; tudo girava e eu não conseguia me equilibrar. Chamei minha mãe, que insistiu em ser um sintoma de gripe, e continuei deitada até depois do almoço. Levantei, liguei o notebook e comecei a escrever. Em seguida, não sei que caralhada houve, o Tony avançou no Benjamin, que estava atrás de mim, me arrancando de uma das mais profundas concentrações. Meu coração disparou e meu tórax aqueceu. Esqueci de mencionar que meu humor não anda nos seus melhores dias, e ando irritada (TPM ou qualquer bosta que o valha). Deitei, com dor de cabeça e ainda zonza por causa da forte tontura. Nada de produtividade, nenhum sinal de vida inteligente. Desci e sentei na sala querendo relaxar um pouco. Assim que fechei os olhos e comecei a cair numa soneca, o Benjamin soltou um latido altíssimo, me fazendo pular do sofá a beira de um semi-ataque-cardíaco. Olha, eu detesto brigar com ele, mas esse cachorro foi digno de ouvir um "Filho da puta!"

Subi, entrei no meu quarto, e comecei a escrever novamente para sentir ao menos o sangue correndo nas veias. Visitei o Bonjour Circus, o senti vazio como nunca antes e quase deletei os poucos textos prontos. Minha mãe começou a se remexer pela casa, inquieta, cutucando aqui e acolá até que parou no meu quarto. Ocupou-se com qualquer coisa enquanto eu me ocupei com uma pesquisa qualquer no Google. De repente, ela grita. Eu, de sobressalto, quase caio da cadeira e sofro o segundo mini-infarto do dia.

— O que foi? - eu perguntei, crente de que ela havia perdido um braço devido ao grito.
— Nada, só derrubei água no chão!
— Vocês querem me matar... - eu comentei assim como quem não quer nada (porque nunca consegue porra nenhuma mesmo).

Agora, cá estou escrevendo este texto, com uma leve dor estomacal e a cabeça ainda mergulhada em um aquário (é a impressão que dá). Devo enfatizar que meu ciclo está atrasado há um mês, mas não é caso de preocupação; a única possibilidade paterna seria o Espírito Santo. Também preciso contar (apesar de ter um texto sobre isso jogado por aí), que semana passada passei muito nervoso em uma UBS onde me consulto com uma psiquiatra. E por fim, preciso avisar que comecei este texto pelo fim porque, afinal de contas, hoje é só um resultado do que venho passando a vida inteira mimimi nessa última semana.

Ontem foi a gota d'água. Comentei em outro texto que começaria a estudar novamente. Pois bem, o curso pré-vestibular era gratuito e tinha a duração de um ano. Mas, noite passada, recebi um email avisando que a escola está passando por reformas e os organizadores foram obrigados a reduzir a turma e, de forma legal (oui!), fizeram um sorteio. Preciso dizer que eu não estava na lista dos sorteados? Preciso contar que não vou mais fazer curso? Preciso explicar que o email estava banhado em sarcasmo cósmico e fedia a desculpa esfarrapada? Não, eu sei que não. Vocês já estão familiarizados com meu estilo de sobrevivência. Um simples email e a desorganização da organização (perceba) me colocaram, pela milionésima vez, de fora da competição.

Veja bem, eu vou completar 25 anos. Você até pode pensar diferente de mim, mas cursinho pré-vestibular e curso (tapa buraco) técnico não condizem mais com minha pressa de ser gente grande. Eu preciso de especialização para ontem. Aliás, tudo nesta idade deve estar pronto e mastigado para o dia anterior, qualquer exceção a regra é motivo para se desesperar. Mas eu havia me dado mais esta chance, na esperança de me animar ao longo do ano e confiar mais no meu potencial. Tomei esta decisão, apoiada por todo mundo, na tentativa de retomar o caminho que escolhi a ser trilhado. "Você não pode ser tão pessimista", eu disse para mim mesma. "Todo mundo merece mais uma chance", eu repito todas as vezes enquanto volto da terapia para casa. "Vai lá, é gratuito! Bem longe da sua casa, mas o que não é longe daquele buraco?", eu me encorajava. Eu estava pronta! Vivia a última semana que antecipava o início das aulas com ansiedade e altas expectativas. Dentro de mim, eu sempre soube, esta seria a última tentativa de entrar no mundo dos humanos.

Mas que tragédia, não entrei. Pela incapacidade alheia, mais uma vez. Eu gostaria de pedir ao cosmo para bater os pratos da bateria e reforçar a piada. Muito obrigada!

Enfim, meu estômago está me atacando como forma de protesto ao nervosismo o qual não posso sentir. Infelizmente, meu emocional não aguenta mais demanda alguma. Mesmo assim, eu ainda me enfio nessa roubada de fazer de conta que sou gente, e posso valer alguma coisa no futuro. Mesmo assim, coloco em risco minha fraqueza e aposto errado. E as pessoas ao meu redor continuam vivendo suas vidas e comprando seus carros. Enquanto estou de luto e todas as manhãs, ao acordar, faço um minuto de silêncio pelo meu próprio luto, o mundo insiste em girar. Cada vez mais me convenço de que nasci para ser palhaça, e que minha vida é de fato um circo. E é por aqui que eu fico. Sem querer escrever, sem ânimo para elaborar livros, sem vontade de alimentar o Bonjour Circus e querendo saber de merda nenhuma. O meu telefone está desligado, o quarto trancado, e eu cansei de brincar. Não sei nem quero saber onde estou ou em qual bueiro me enfiei; e tenho raiva de quem sabe!

A minha vida e a vida de Helena

Já comentei sobre isso no meme sobre as 6 coisas que quero fazer. Não gosto de falar sobre "projetos" ou o que pretendo fazer. Na verdade, até a palavra "projeto" causa desconforto. Esse livro não é o tipo de coisa que se encaixa em categorias. Não é uma estratégia ou algo que tenha que sair como o planejado. Helena não é nada disso. Esse livro é a representação do que sou, nada mais. É só um amontoado de folhas escritas por quem quer brincar de inventar histórias. Não tenho diploma de curso superior. Não sei usar corretamente a gramática e ortografia da nossa língua. Também não sou criativa a ponto de escrever A Melhor História de Todos os Tempos. Mas sou perfeccionista. Sou persistente. Curiosa. Essa é a palavra! Eu sou uma garota curiosa.

A ideia do livro surgiu da vontade de escrever sobre o cotidiano de uma garota comum, com uma vida livre, mas ao mesmo tempo cheia de amarras que serão desamarradas ao longo da história. Em 2008 abri um documento em branco do Word, escrevi em letras garrafais um nome, um título qualquer para um capítulo e montei a primeira descrição que veio à cabeça. Quando dei por mim, Helena nascia diante dos meus olhos e diretamente da ponta dos meus dedos. Batizada com o nome da minha futura filha e com muito de mim emprestado, a personagem ganhou não só uma, mas sim mais de 50 páginas. Estruturei uma família, escolhi amigos a dedo e construí uma nova vida dentro daquele documento.

Helena é uma moça de 25 anos que mora sozinha com seu gato, o Rusky. É formada em jornalismo, trabalha em uma agência e nutre um amor platônico por seu colega de trabalho, o Eduardo. Sua vida fica de ponta-cabeça após um incêndio no prédio onde mora, que a obriga a se mudar por um tempo para a casa de sua "melhor amiga" juntamente com seu vizinho, e também amigo, Eikki.
É um centímetro mais alto do que eu, parece meu irmão mais novo quando uso salto alto e fico ao seu lado. Isso me obriga a comentar sobre sua cara de criança. Apesar de ser dois anos mais velho, Eikki parece infinitamente mais novo; até mais do que as crianças que brincam no parquinho do condomínio. Mas não é cara de bebê, é cara de criança mesmo, assim como suas atitudes.
A partir daí, o final de ano se transforma em um grande divã onde Helena aprende a se tornar uma jovem adulta. Viciada em listas e sempre registrando seus pensamentos sobre seus pais e a sociedade, ela tenta sobreviver ao caos que sua vida se tornou após a interdição do Condomínio Íris. A história se desenrola devagar. É com muito carinho que escrevo cada diálogo e penso sobre os próximos passos a serem dados por ela. Não é fácil, e eu gostaria muito de poder voltar no tempo para ter uma séria conversa comigo sobre "escrever livros".

A vida de Helena parece acontecer juntamente com a minha. Já estou comemorando o quarto ano desde que comecei a escrever o livro, e sinto que estou longe de terminá-lo (Helena ainda vive o que deve ser escrito). Infelizmente, isso causa muita ansiedade de minha parte porque, claro, quero lançar meu livro o mais rápido possível. De forma independente porque sou raruxa já que um contrato com alguma editora demoraria, sei lá, talvez minha vida inteira para acontecer. Repito que não sou profissional, tão pouco sei ao certo o que estou fazendo. Helena, para mim, é apenas uma aventura. Mas, apesar de sua vida se resumir apenas as páginas que eu lhe permitir, é uma garota que conquistou um canto do meu coração e algumas horas do meu dia.

Às vezes tenho a impressão de que nem todo o tempo do mundo seria o suficiente para conhecê-la por completo. Ela tomou proporções tão grandes, que chego a acreditar que minha ideia conquistou autonomia. Nem toda minha vida seria o suficiente para preencher todos os vácuos que, inevitavelmente, todo personagem tem. O que é uma pena, Helena vale cada segundo.

PS: Sim, há homenagens à Finlândia e ao O Teatro Mágico também. Mas não conto nada sobre isso
PPS: Amo esse emoticon!

Como vai o Tony?

Ele vai bem, obrigada! Para quem chegou agora no Bonjour Circus e não sabe do que se trata, acesse a página O circo ou o marcador "cadê meu dono?", assim você fica por dentro da história.

O que posso dizer? Tony está em casa, o adotamos em definitivo e o Benjamin adora sua companhia. Quando o levamos para o banho e tosa, meu filhote sente saudades do braquelinho. Aliás, é uma festa quando minha mãe vai buscá-lo no pet shop; só falta ele subir nas nossas cabeças de tão contente em nos reencontrar. Talvez ele pense que será abandonado de novo ou que perdeu mais uma vez a (nova) família. Vai saber!

A única coisa que ainda me incomoda é a procedência dele; fico pensando na família que o perdeu, no que eles fazem ou fizeram para encontrá-lo, se sentem falta e essas coisas. Sei que fiz o possível para divulgar que eu havia o encontrado, mas sei lá... convivo com a sensação de que poderia ter feito algo mais, mesmo não fazendo ideia do que há para se fazer ainda. Fico tranquila, por outro lado, em saber que aqui em casa Tony é muito bem tratado. Já o consideramos da família e ele se sente a vontade no meio dos outros cachorros.

Tivemos alguns problemas de socialização entre ele e o Tobias (meu outro cachorro); os dois andaram brigando. Depois de sustos, broncas e castigos os dois estão forçando uma amizade pelo bem da coisa. Esperemos. Houve também uma briga entre ele e o Benjamin (por causa de um osso), mas como a culpa não foi inteiramente deles - teve dedo do meu pai - deixei o castigo passar batido. No geral, ambos se dão super bem, vivem brincando de tudo que é jeito e bagunçando a casa juntos. Tentei gravar alguns vídeos para postar aqui, mas Tony não pára quieto; fotos também dão um belo trabalho para sairem bonitas.

Quando irritado, ele pula tão alto que quase atinge meu rosto (tenho 1,70 de altura); quando está com fome também, adicionando mordidas e rosnados. Costumamos o chamar de "cachorro de circo", ele tem jeito para isso! Tony é uma figura, arranca gargalhadas de todo mundo em casa e volta e meia tenta dar uma escapada para a rua. (para matar as saudades?)

Minha mãe costurou uma roupinha para ele porque segundo ela "ele está espirrando demais". Não sei qual seria minha reação se os verdadeiros donos aparecessem. Ficaria aliviada, pararia de pensar e me preocupar com esse assunto, mas sentiria uma saudade imensa desse pequeno grande aparecido!

Mulheres em extinção


O maior erro da mulher é querer se comparar ao homem. Muitas sofrem do complexo de inferioridade que as convencem de que para ser alguém é necessário que seja como qualquer outro. Uma doença, realmente, cujo tratamento poucas procuram no divã. Desde o nascimento a mulher é condicionada ao caminho da mímica. Para ser feliz, ela deve atingir uma felicidade maior do que as mulheres ao seu redor experimentam, e é obrigada a se auto-afirmar durante toda a vida. "Eu sou mulher!", elas dizem, quase comprovando a verdade com um exame ginecológico em mãos. Infelizmente, tenho uma péssima notícia: nem tudo que possui vagina é mulher.

Nem tudo o que reluz é ouro.

Reclamei em meu twitter por várias vezes que "as mulheres pararam de pensar!", e explico: Naveguei muitas páginas no Google em busca de blogs femininos; o que encontrei foi nada mais do que notícias sobre maquiagem, beleza e moda. Se muito encontrei um blog recheado de vergonha alheia falando sobre futebol. Mulher realmente acredita ser especial quando entende de esporte. Sabe por quê? Complexo de inferioridade, novamente. Uma eterna luta entre sexos bem vinda pelos machos, com toda a certeza. Quem faz barulho muitas vezes só quer atenção, e consegue a custo do ridículo. As mulheres querem muito, o tempo inteiro, e de todo mundo. Estão sempre a procura do melhor, inatingível, impossível e inexistente. Isto não é um elogio. É a prova de que algumas de nós se perderam no caminho da submissão.

Submissas sim, e perdidas nos livros de fábulas, revistas juvenis e programas de televisão para donas de casa. Achando-se dóceis e femininas por assumirem um status de "meninas mulheres". Não, isso não é bonito. Seria melhor afirmar logo de uma vez que é uma infanto-juvenil frívola presa em um corpo desenvolvido de mulher. Assim como dezenas de inseguras que tentam se encontrar em livros de autoajuda barata, Crepúsculo, romances na Sessão da Tarde e Manifestos Feministas de quinta categoria. Veja você, ótimo gostar de ler e assistir determinados tipos de ficção e novelas, tudo em prol de esvaziar a mente para se desfazer de um dia árduo de trabalho, mas não me venha dizer que se tornou um ser humano mais inteligente após debater corajosamente sobre Uma Linda Mulher, ou qualquer coisa que o valha. Eu mesma assisto muitos filmes água com açúcar para acalmar meus ânimos e conseguir respirar com mais leveza no dia. A diferença é que não faço disso uma filosofia de vida.

Não quero um príncipe encantado, o emprego perfeito, namorar com caras que tenham carro, um guarda-roupa cor de rosa com estampas de onça nem dirigir um ônibus. Veja só, há muito que acredito ser capaz de tudo aquilo que quero fazer. Ninguém precisou me dizer que "Nós, mulheres, somos capazes de ocupar o lugar dos homens!" porque, gente, isso é óbvio. Temos dois braços, duas pernas, cérebro, coração, músculos e força de vontade assim como qualquer Homo Sapiens. Porra! O sonífero medieval afetou tanto assim? Olha o tamanho do estrago! Chegamos ao ponto de precisarmos ouvir de terceiros do que somos ou não capazes. E ficam orgulhosas, claro, quando ocupam um lugar "de macho". Se como estivessem fazendo um favor a humanidade. Poupe-me! A fábrica está liberando cada vez mais homens frouxos, é nossa obrigação fazer com que as coisas continuem funcionando. Trabalhar não é mérito, mas sim necessidade; é digno.

Enquanto algumas de nós, mulheres, nos preocupamos com o espaço oferecido, outras se incomodam com a problemática da minissaia. Acreditam que mostrar as pernas (e quase a bunda) é coisa séria e os homens, que possuem duas cabeças, devem respeitá-las. Pois é, elas ainda esperam algo dos homens. E sempre irão esperar. Por que? Olha ele aí de novo: complexo de inferioridade. Elas carecem da opinião masculina e sua aprovação. Confundem liberdade com libertinagem, e pensam estar abafando! Cultuam o corpo como seu bem mais precioso, o vende por 5 minutos de fama, se exibem para alimentar um ego doente e depois reclamam por Direitos da Mulher. Não acha correto eu estar aqui insultando? Todas fazem o que querem com seu corpo? Pois saiba que isso me afeta quando sou, involuntariamente, representada por este tipo; porque, ultimamente, a única coisa que se ouve falar são de mulheres nuas protestando por qualquer coisa ou discutindo sobre estupro em rede nacional em um programa que cultua o sexo vazio e a banalidade, reduzindo os participantes a lixo!

Neste círculo vicioso, as mulheres de verdade se perdem e não são ouvidas. Por troca de presentinhos e flores murchas, elas continuam apanhando de seus companheiros. Por um punhado de chocolate derretido e mensagens bregas no Power Point, elas continuam caladas. Ganham homenagens no Dia Internacional da Mulher, os homens abrem a porta do carro para elas, dão perfumes e não transam na primeira noite. Tudo ficará bem se continuarem assim: reclamando seus direitos, mas mantendo a preguiça. Então, mudam de assunto, cancelam a passeata, reescrevem um discurso porque, caso contrário, a luta pode funcionar. E muitas mulheres não querem resultado, mas sim mimos. Comparam-se aos homems para ver se alguém sente pena da pobre coitada que só quer viver em paz. Entendam que enquanto sentirem pena de si mesmas, nada irá mudar!

Vocês podem trabalhar em qualquer coisa, caralho. Desata o bico, desce do salto e deixe de se achar boa demais para quebrar a unha. Larga a mão de frescura, sua estúpida, e pare de choramingar pelos cantos pensando ser indefesa. Você consegue se defender sozinha! Não reclame dos homens, quem foi que disse que você é perfeita? Está com cólica? Tome um remédio e não se sinta especial por isso. É um fato biológico, desencana! Quer usar roupa curta, mostrar tudo e um pouco mais? Realmente, tem gente tão miserável que só possui o lado externo mesmo. Valorize-se, para ser valorizada. Esconda-se, para ser encontrada. Respeite-se, para ser mulher. Cresça, abra os olhos e aprenda: seu propósito não é provar para os outros que é capaz de algo, tão pouco ocupar o lugar de um homem. Seu dever é, e sempre será, ser mulher. Deixe de ser burra! As tantas mulheres soltas por aí como penas ao vento só entendem o recado quando dado na ignorância mesmo. Só pegam no tranco.

Chamo-me Del, me considero uma mulher desde os 20 anos de idade e sei o que quero para a minha vida. Sou grossa e faço outras mulheres chorarem. Apresento este texto como forma de protesto ao Dia Internacional da Mulher, que mais parece uma feira e uma desculpa para os homens fazerem cachota de nós. Seja lá qual for o intuito do dia, as mulheres conseguiram fazer com que tudo se perdesse ao longo do tempo em troca, novamente, de asneiras (como os índios). Não sou florzinha, e nem preciso de porra de dia nenhum! Sou boca suja, mas preservo minha intimidade entre quatro paredes, uma vez que não dependo do meu corpo nem de minha vaidade para chamar a atenção. Tenho amigos homens, em maioria, porque não suporto papo de mulher, suas variações de humor e seu complexo de santidade (além daquele outro citado várias vezes ao longo do texto). Tenho plena consciência de que o homem é um ser limitado, e não entro em pânico quando sou obrigada a tomar decisões. Não gosto que facilitem as coisas para mim. Muito obrigada, mas eu mesma carrego minhas sacolas. Sei me virar. Não tenho medo da solidão. Consigo abrir vidro de conservas. Aprendi baliza em cinco minutos. Homem é burro demais para ter criado o Machismo, acredite se quiser, isso foi obra das mulheres. E finalmente, de mulher basta eu!

Não estou cobrando nada de ninguém. Cada mulher é um tipo diferente e tem suas limitações, assim como eu tenho as minhas. Mas não me venha me encher o saco porque eu não cresci em meio a fragilidades, portanto, não tenho muita paciência para tal. Sei que fui uma filha da puta neste texto, mas pouco me importa. Não quero criticar ninguém nem oferecer a carapuça, só qusi expor meu modo de pensar. Tenho amigas mulheres (em minoria), gosto delas e de sua companhia. Como dito: há aquelas que se safam do grupinho acéfalo e, graças a Deus, conheço um número considerável! Também tive sorte de receber aqui no blog as blogueiras que pensam, discutem e são Mulheres de Verdade. Não sei como as encontrei ou elas me encontrarem, só sei que foi pura sorte. E gostaria de dizer a cada uma que me sinto honrada em dividir meus textos com vocês, que fazem tudo valer a pena!

Para finalizar, eu gostaria de deixar aqui algumas inspirações femininas!

A arte de ser inconveniente

Foi depois da indignação da AnaLu que comecei a prestar mais atenção nisso: e não é verdade que certos blogueiros perdem a noção de etiqueta?! Ninguém é obrigado a nascer sabendo, mas para mim todo mundo deveria ser obrigado a ter o que fazer! Esse é só um de tantos outros recados que os anônimos de plantão precisam ouvir; ou qualquer outra pessoa que visita o blog alheio e deixa comentários desagradáveis. Veja você, isso não tem a menor necessidade. É óbvio, mas acredite, muitos acham fazer alguma diferença com esse tipo de atitude. Em um país onde a população necessita de campanha para compreender que lugar de fazer xixi é no banheiro, não é novidade descobrir que muitas coisas claras e objetivas se tornam verdadeiros mistérios para alguns.

Aqui, no Bonjour Circus, nunca recebi comentários inúteis. Mas, por outro lado, vez e outra aparecem recados. Sim, porque nem tudo pode ser chamado de comentário. "Blog lindo! Passa no meu?" ou "Estou sorteando o livro Tal do autor Fulano, participe!"; esse último é o que mais pipoca, ainda mais com a onda literária. Cada vez mais pessoas abrem blogs "especializados" no assunto. Eu, sinceramente, questiono a qualidade de tal conteúdo mastigado e replicado por toda a internet. Ninguém mais fala em clássicos, somente divulgam os lançamentos (que saem aos montes) parecidíssimos uns com os outros e nada mais. A literatura, pouco a pouco, torna-se uma massa desforme. Mas não é esse o meu ponto.


Isso não é imensamente condenável, porém, assaz cansativo. Existem duas formas de fazer uma divulgação, cada um escolhe a que melhor convir, e é agora que você deve prestar atenção na minha dica!

Primeira forma: Montar um texto curto e focado unicamente na intenção de manipular a atenção das pessoas para sua promoção ou o que quer o valha. Dessa forma você pode copiar seu anúncio e visitar dezenas de blogs num pequeno espaço de tempo alcançando assim, muitos blogueiros. É um trabalho sórdido, mas pode trazer um bom resultado. Entretanto, você deveria pensar nos contras antes de fazer isso, já que muitos blogueiros irão se incomodar com sua falta de educação.

Eu, com toda paciência e bom senso, preferi a política da boa vizinhança.

Segunda forma: A boa e velha prática do rodapé ou o simpático post scriptum (mais conhecido como PS). Não custa nada você ler o texto e fazer um pequeno comentário sobre ele. Já ouviu falar de leitura dinâmica? Resume seu tempo parado em um blog só e ao mesmo tempo não compromete sua presença na blogosfera. Eu, por exemplo, me sentiria muito mais atraída a participar de uma promoção ou visitar um blog se o comentarista se prestasse a dar atenção ao Bonjour Circus. Todo mundo quer mimos, seguidores e visitas, mas ninguém quer visitar e conquistar leitores. O mundo pode parecer fácil assim, mas não é. Não, não se engane! Não é fácil. Alguém pode te adorar por sortear livros gratuitamente. Outros podem desprezar você por se achar ocupado demais para ler o texto, mas ter tempo o suficiente para cuidar de seus interesses.

Por fim, eu gostaria de avisar que a partir de agora comentários desse tipo serão apagados e seus respectivos blogueiros ignorados. O recado está dado, as opções estão disponíveis. É sua vez de decidir se quer uma reputação relâmpago ou o carinho de várias pessoas pelo o que pensa e escreve. Esse tipo de valor não posso ensinar. Como a maioria das coisas na vida, depende de você querer ou não aprender!

Quanto custa?

— Você percebeu que está correndo mais atrás do que quer para sua vida? - foi a pergunta que minha psicóloga fez.

Eu disse a ela que sempre sonhei em estudar, mais precisamente, desde a época em que entrei no ensino médio. Meu pai me matriculou em uma das piores escolas do bairro, onde não havia professores e os que sobreviveram davam aulas só para cumprir o protocolo. Os alunos eram aprovados ou reprovados por faltas e não notas; e em sua maioria eram do tipo que se tornam pais aos 16 anos, soltam bombas caseiras dentro da escola pela diversão da coisa, pulam o muro e outros comportamentos do tipo. Eu, completamente perdida, fiz o que pude. Infelizmente, não foi o suficiente para nenhuma universidade ou emprego decente. Quando me formei, estava sem rumo nem objetivos. A única opção que sobrou foi trabalhar atrás de um balcão. Não desmereço nenhuma profissão, feio é não trabalhar, mas o tombo da expectativa foi dolorido. Acho que uma botina militar na bunda seria melhor.

Eu sempre quis escrever, fazer dezenas de cursos e aprender milhares de coisas. Foi a única coisa que eu almejei, deixando de lado o dinheiro e uma carreira profissional brilhante. Sucesso para mim é algo solúvel e depende muito do ponto de vista das pessoas. Já o conhecimento e a satisfação oferecem uma paz de espiríto mais autêntica. Aos 18 anos de idade tive que abandonar os estudos e me encontrei sem ter nada a oferecer para os outros. Eu sabia pouco, não podia correr atrás do atraso e comecei a sofrer com os primeiros sintomas depressivos; o que só cavou meu buraco com mais rapidez (ou seria avidez?). Comecei a procurar qualquer coisa e nisso de está bom assim fui vivendo e sentindo que eu realmente era qualquer uma.

Daí meu pai comprou um carro novo. Depois sofremos um acidente, que deu PT. Então, com o dinheiro do seguro, eu pensei: Agora vai! Temos dinheiro para minha universidade. E não é que eu tomei outro tombo?! Ele comprou outro carro. Fui covarde o suficiente para não dar nomes aos bois e assim tudo ficou. Um carro na garagem e eu trabalhando para sobreviver. Estudo? Eu mal consigo me sustentar, quanto mais estudar. Mas temos um carro na garagem! Por isso, quando vejo propagandas de automóveis ou pessoas economizando (e deixando de comer) para comprar um carro, meu sangue ferve e queima minhas têmporas. Ou é muita burrice, ou o Capitalismo atingiu seu limite. Algo me diz que nunca saberemos. É uma corrida desenfreada pelo status que, acredita-se, nos levará para algum lugar melhor. Reza a lenda que um carro do ano na garagem, ou mesmo um popular 0km, é tiro e queda para o fim da impotência do caráter e o câncer da alma.

Pois bem, voltemos a psicóloga. Ela reparou que finalmente estou em busca daquilo que me dá prazer. Aos trancos e barrancos, mas enfim atrás de alguma coisa que me tire do atoleiro. Sigo um caminho longo, cheio de buracos, pedrinhas que entram no sapato e cercado por um matagal de dar medo. Não é o que escolhi, mas é o Plano B. Isso mesmo, Plano Bosta! Todo dia, quando chego em casa, me deparo com o carro estacionado na garagem. Ele não sai de lá. Meu pai, após o acidente, só usa a Máquina do Status para fazer compras (e de muito mau humor). Minha mãe e eu não queremos mais entrar com ele dentro do automóvel porque percebemos que seus reflexos não são mais os mesmos. Prezamos por nossas vidas, apesar de demonstrarmos o contrário. Na terceira idade, ele não se tocou que não consegue mais dirigir, e se prendeu a um bem material para justificar a ausência de conteúdo e sabedoria.

É uma coisa que machuca, esta displicência paternal. Estou acostumada a me virar sozinha desde cedo, já que nunca tive uma figura paterna ativa, mas uma ajudinha não cairia mal! Afinal, o ser humano está aí para isso: descomplicar. Não é? Deveria ser, caro leitor circense. Este ano começo um curso pré-vestibular. É, pela terceira ou quarta vez; parei de contar. Aos 25 anos, terei que me sentar entre os adolescentes para futuramente conseguir uma bolsa integral ou uma universidade pública. Caso contrário, não irei estudar mais uma vez. E mais uma vez as quatro rodas irão ligar os faróis altos e rir desgraçadamente da minha cara. O carro tem a sonoridade do escárnio do meu pai. Ambos curtem com minha cara, mas é no rabo deles que enfiarei o canudo do meu diploma. Valerá o desperdício!

— Percebi, doutora! - respondi. - Vai ser difícil, mas vou conseguir fazer meu valor como pessoa atingir a importância de um carro!

A problemática do casamento

Faz um bom tempo que ninguém me convida para um casório. Todos os primos se casaram e estão na fase dos filhos pequenos. Irmãos, sejam lá quantos forem (meu pai teve tanto filho que nem ele sabe quantos), estão na crise dos 50 anos de idade. Acredite se quiser. Há 1 milhão de anos-luz entre meu pai e minha mãe; os primeiros filhos dele tem a mesma idade que ela. Ou seja, eu sou o brotinho de feijão da família. Sou "a toda errada" porque cheguei tarde demais, cujo pai não queria mais filhos. Depois reclamam quando digo que nasci de chocadeira, mas o povo pouco se importa em saber da verdade.

Enfim.

Não tenho muitos amigos, e os gatos pingados não estão senis o suficiente para cometerem tal erro fatal. Estamos, todos, nos achando muito jovens e serelepes para pendurarmos nossas cabeças degoladas em plena praça pública. Esperemos. Inevitavelmente, as festas se esgotam no mais profundo mar de tédio. Mas nem por isso (ou justo por isso) vou deixar de comentar sobre essa comemoração religiosa ou civil. Terminei agora de fomentar minha decrépita coleção matrimonial; veja você, não tenho uma aliança em meu dedo nem mesmo uma argola de chaveiro que seja, mas mantenho guardadas fotos de vestidos, decorações e o escambal. Não é deprimente? Eu acho. É mais forte do que eu. Mais forte do que qualquer mulher, na verdade, porque esta é a única bosta de sonho que conseguimos alimentar sem pagar impostos ou dar para algum filho da puta.

Resumindo: fiquei com dor de cotovelo, dor de tia velha, e vou meter o pau.

De repente, você se depara com um convite em cima da mesa na sala. "Oh, céus! Fulana vai se casar, benhê!" Aquele convite enorme, não se sabe por qual motivo, com letras douradas provindas do curso de caligrafia do Steve Jobs. Nome do pai, da mãe, da parteira, do cara que entrega leite e o nome dos noivos: grandes e pomposos berrando nos seus olhos. Talvez para que ninguém tenha dúvida de quem está casando, no caso de famílias enormes, ou para todos ficarem consternados em uníssono ao verem um cara no altar que não seja o noivo, mas sim um morador de rua; arroz de festa nas horas oportunas. Deu para perceber que meu desagrado já começa no convite, né? E termina naquele pedaço de papel preso por um clips minúsculo, que leva sua imaginação dali para muito longe em uma morte terrível por engasgo - a lista de presentes. Tal lista facilita muita coisa, muita procura. Sei disso porque já ganhei dois presentes iguais e olha, é o mesmo que ganhar meias. Mesmo assim, eu teria muita vergonha de mandar isso para meus convidados; é possível que por conta disso eu coma no chão e cozinhe na fogueira por muitos meses, mas sem a lista ao menos todo mundo daria panos de prato, e eu teria com o que me vestir.

Então, começa a Corrida Maluca: as mulheres, ensandecidas, correm para a loja de aluguel mais próxima e pegam o primeiro tomara-que-caia-verde-musgo. Sabe aquele tecido assim, como posso explicar?, parece que alguém passou ferro quente e a roupa ficou com aquele brilho opaco horroroso. Esse tecido, por razões misteriosas, é o mais procurado e o mais visto. Mas de qualquer forma, #todoscorre atrás de vestimentas e acessórios parecendo que vão para uma tribo e não uma igreja. Só falta pintar duas listras em cada bochecha. Os homens, obviamente, ficam prontos antes das mulheres, que estão ocupadas escolhendo o sapato que mais aperta e a meia-calça rasgada. O cara liga e desliga o carro, faz um lanchinho na cozinha, confere os emails, dá um tapa no cabelo, mas não adianta querer matar o tempo: a mulher só irá aparecer quando ele sentar no sofá, ligar a TV e começar a assistir a final do Brasileirão. Fato.

Eu sempre fiquei mei'assim quando íamos para um casamento. Era pompa demais para uma criança, e mesmo depois de crescidinha isso teve um peso diferente. É aquela coisa, todo mundo se veste com roupa de missa ou para pegar o exame de fezes. A gente vai ao dentista fazer limpeza de tártaro, compra perfume novo, tira as bolsas de mão e as gravatas dos sacos plásticos e coloca no sol, dá aquela bronca básica no Santo Antônio (que vai direto para o freezer) e marca hora no salão de beleza. Trabalhamos a etiqueta que não temos, vivemos o comportamento social adequado do qual não entendemos lhufas, começamos a amar novamente os parentes que não se lembram da gente. O maridão lava o carro com os produtos certos ao invés de Omo. Até as pernas depilamos não é, meninas?! Coisa fina. Vamos animados para o enlace matrimonial esperando encontrar isto:


Não adianta, é a primeira coisa que vem à cabeça porque assim nos criou o senhor Walt Disney. Portanto, é normal a decepção no âmago da alma. Eu sei que dói encontrar as mesmas pessoas de sempre, muitas vezes com roupas do dia a dia (como o tio bêbado de camisa aberta, que toda família tem). A igreja está repleta de rosas murchas e colunas de mármore falso (que alguma criança irá derrubar), o tapete poído no chão, o padre coçando um olho, as tias se abanando com leques cheios de strass, e todo mundo reclamando que não tem onde estacionar! Sua expectativa de uma singela obra de arte vai para uma apresentação de Power Point. Uma lástima, certamente.

Eu até gostaria de descrever as festas, mas acho que tudo acaba se resumindo na noiva, que parece um borrão de chantilly. Você sabe que terá bem-casados, e que alguém colocará uns 30 na bolsa. Daí a nova moda é comprar brinquedinhos que brilham e que, em um piscar de desatenção, achamos que são objetos do Sex Shop. Os noivos ensaiam uma dança "diferente", que com certeza acometeu na primeira grande briga deles, já que o noivo não quer parecer gay. "Você é mesmo um insensível!", a noiva vocifera. "Mas o insensível te ama!"

Ah, os pombinhos...
Tão previsíveis.

Veja os macacos que somos!

Pensem o que quiserem pensar, mas comecei a ler Lobo da Estepe, de Hermann Hesse, por causa d'O Teatro Mágico. Isso mesmo, sou uma irrevogável raruxa. Influenciada por meu palhaço, adicionei este e também o Sonho de Uma Flauta na minha lista de livros. Não somente por Fernando Anitelli ter citado, mas principalmente por querer conhecer cada vez mais autores. Tudo se torna oportunidade para acrescentar minha lista e, consequentemente, minha bagagem literária; seja por influências ou por curiosidade.

Infelizmente não comprei o livro, mas o baixei. Passei a acreditar que alguns ebooks tem qualidade inferior se comparados com os livros físicos, por isso tenho frequentado bem mais os sebos da cidade. Além do mais, a internet (ainda?) não nos oferece o cheiro dos livros! Mas tudo bem, me conformei com o é o que tem para hoje e li o ebook mesmo.

Este será um texto difícil de ser escrito. Não faço a menor ideia de como irei fazer para não colar uma citação após a outra, pois o livro inteiro me encantou como um reflexo no espelho. Sim, eu me identifiquei com tantas passagens, que não sei o que escrever aqui senão o que Hesse escreveu no livro. Talvez eu apenas imite aqui o que Harry Haller foi. Provavelmente, portanto, este texto será uma maçada! (como diria o Jacinto)
Mas intimamente, na alma, esse homem nos perturbou e prejudicou, tanto à minha tia quanto a mim, e, a bem dizer, até hoje ainda não consegui me libertar dele. Às vezes, ainda sonho com ele, e sinto-me profundamente perturbado e inquieto por sua causa e pela simples existência de um ser assim (...)
Ler o Lobo da Estepe e participar de uma oficina de texto ao mesmo tempo foi a melhor coisa que fiz. O livro levou minhas narrativas como folha em água de chuva! Eu nunca tinha sentido tamanha facilidade para me expressar e romancear meus contos. Harry Haller não só fez com que eu me identificasse com ele como também me ajudou absurdamente nos textos, que agora tem muito mais corpo e variedades. É, sem dúvidas, um personagem que ficará marcado para o resto da vida; casto e inteligente, porém, na medida errada. Harry leva as coisas muito a sério e sofre por isso, pois não consegue experimentar e aproveitar os simples prazeres. Tão pouco consegue se encaixar dentre as pessoas, já que todas vivem entorpecidas ao estilo da burguesia; o qual o protagonista foge como o diabo da cruz.

Não pude deixar de sentir certo incômodo durante a discussão sobre a estátua de Goethe, que decorava a casa de um amigo. Harry sentiu-se extremamente puto com a falsa apresentação do poeta, que nada tinha de simpático e subalterno, demonstrando a pura característica de um lobo da estepe: a dura e crua realidade dos fatos desprotegida do dom de ser um devotado burguês. Portanto, ele luta ferozmente contra o lobo que o habita e se sente um traidor ao gozar dos mesmos prazeres triviais que mantém os outros adormecidos. Essa culpa, a fuga de si mesmo e a caça pela perfeição humana couberam como luva em mim, que desde muito cedo me imponho cobranças inexistentes. Assim como Hesse descreve no livro, o lobo arreganha seus dentes pontiagudos e ri ironicamente do homem tentando se sobressair ao selvagem, tentando se manter nas rédeas do pensamento claro e objetivo, e se esquivar da brutalidade do lobo; um animal feroz e corajoso, que não teme as consequências de seus atos, tão pouco se importa com o certo e errado impostos pela sociedade.

Um livro fantástico! Não tenho outra coisa a dizer. Perfeito do início ao fim, o Lobo da Estepe descreve minimamente o conflito espiritual de um homem velho, aquém da vida comum e às margens da insensível existência. O maior medo de Harry era se transformar em um homem mundano (creio eu, medo de gostar da coisa, se me permitem). Este livro é o meu divisor de águas na literatura, sem a menor dúvida! Jamais imaginei encontrar tantos pensamentos íntimos meus descritos em detalhes numa leitura fácil e gostosa. Até mesmo Mozart, meu amado, volte e meia é citado como o preferido do personagem. Acompanhei um intelectual cheio de si e mimado ter suas convicções arrebatadas pela simpleza da vida. Isso não tem valor!
E assim para tudo o mais, Harry Haller se atribuíra um prodigioso papel de idealista e desprezador do mundo, de melancólico solitário e de profeta tonitruante, mas no íntimo era um burguês, capaz de censurar uma vida (...)
Talvez seja impressão minha, mas o escritor perdeu um pouco do tom ao incluir Hermínia na história. Apesar de achá-la interessante e de ser, no fim das contas, uma ótima base para a mudança de Harry, sua presença e o final que teve foram desgostosos. Digamos que Hesse tenha deixado algo em aberto mais acentuado do que o pretendido. Mesmo assim, Hermínia serviu de contra ponto para Harry, e equilibrou os dois mundos. Além do mais, foi através dela que o protagonista conheceu, por fim, o que mais lhe importava!

Então, descobri do que realmente se trata o teatro mágico; não a trupe de Fernando Anitelli, mas as raízes de sua inspiração! Um lugar de fato mágico, com todas as possibilidades e até mesmo aquelas inventadas, que não se sobrepõe no nosso mundo inóspito de realidade. É um teatro físico, porém ilusório, que - como o autor mesmo afirma - trata-se de redenção e crença, ao invés de morte e desesperança. Muitas pessoas podem interpretar o livro de diversas maneiras, mas creio que ao final dele todos concordamos em uma única coisa: no humor!

Você também quer conhecer o verdadeiro Teatro Mágico?
A entrada é só para raros, só para os loucos!

O meme das onze perguntas

A linda da Pri Bragança me indicou para fazer este meme que corre o mundo blogueiro. O único problema será minha indicação e perguntas porque a) não sei quem indicar e b) sou péssima para fazer perguntas! Mas assim, péssima mesmo. Vou tentar, claro. Vocês vão fingir que ficou legal, né. Tudo termina bem. Como diria Lauri Ylönen, o magnífico: No fear, destination darkness! (e eu avisei que ficaria insuportável quando The Rasmus voltasse com o novo álbum)

Regras
1. Escrever 11 fatos aleatórios sobre você;
2. Responder as 11 perguntas que a pessoa que te indicou fez;
3. Criar 11 novas perguntas para as pessoas que você indicar;
4. Escolher as 11 pessoas que você indicará e colocá-las no seu post;
5. Avisar as 11 pessoas escolhidas;
6. Não as indicar de volta;
7. Colocar as regras no post.


11 fatos aleatórios sobre mim:
1. Ainda terei um Clydesdale e um Arabo-Friesian!
2. Uma andorinha só não faz? Verão!
3. Tenho acrofobia, mas quero aprender (e dar aulas de) Tecido Acrobático.
4. The Rasmus, porra!
6. Metade do meu nome é um verbo.
7. Eu mesma corto meu cabelo, e acredito que toda mulher consegue viver sem um salão de beleza.
9. Clara Casanova.
10. Não gosto de bem-casados.
11. Existem mais coisas sobre mim do que imagina a vã internet.

Pri Bragança pergunta:

1. Se pudesse ter um super-poder, qual seria?
O poder da cura. (ou ser atingida por raios gama e super-desenvolver meu alter ego)

2. Quem é a sua referência? Uma pessoa que te serve de exemplo na maneira como age diante da vida.
Silvia Nobre Wajãpi. (e algumas outras pessoas)

3. Se pudesse voltar atrás, quanto voltaria e o que mudaria? Se não mudaria nada, o que viveria de novo?
Uma resposta difícil porque minha vida não foi exatamente o que esperam os direitos humanos. Então, acho que voltaria o máximo possível e mudaria todo o necessário. Com certeza manteria alguns momentos com pessoas especiais, que acabaram por sair muito cedo do meu convívio social, e viveria novamente sensações as quais (infelizmente) já esqueci. Mas acredito que a vida leva-se para frente! O que passou, passou. O importante é aprender continuamente, pedir desculpas quando necessário, perdoar e torcer pelo melhor daqui em diante; sempre fazendo por merecer.

4. Qual é o seu personagem – de filme ou livro – favorito? Por quê?
Ai, são tantos! (estou me sentindo no programa do Jô Soares ao responder este meme) Uma personagem que marcou minha "estrada literária" foi a Morte do livro A Menina que Roubava Livros, escrito por Markus Zusak. Ele é o melhor escritor da nova geração, na minha opinião! Tenho um estilo onde personifico sentimentos, sensações e outros substantivos, por isso me identifiquei muito com essa personagem.

5. Qual é o seu maior sonho? O que precisa fazer para realizá-lo?
Não alimento sonhos. Tenho alguns, mas não fomento nenhum. Sou levada de um nível ao outro por outras razões que não o sonho. Pode parecer impossível, até mesmo confuso, mas é assim que aprendi a viver. Porém, é claro que eu adoraria ser lida por centenas de pessoas! Não me tornar famosa ou rica, mas sim compartilhar meus livros com o maior número possível de pessoas, para que estas sintam as emoções que eu sinto. Quero escrever para que chorem, sorriem e fiquem indignados; para que descubram outros pontos de vista e as diversas faces do mundo. Sempre fui uma garota muito sozinha, mas desde cedo amei contar histórias! Outro "sonho", digamos fantasia, é me apresentar em um espetáculo circense.

6. Qual a viagem/passeio que fez que ficará guardado na memória para sempre?
O ano em que morei na Suíça. Um ano denso, de inúmeras superações e novas experiências. Fui com uma mão na frente e outra atrás, sem conhecer ninguém e sem falar o idioma (no caso, o alemão). A partir de lá, conheci alguns países que fazem fronteiras e isso pode parecer óbvio, mas o ser humano não faz ideia do quanto o mundo é grande!

7. Qual é o seu pior defeito?
Tenho o terrível vício de me subestimar. Por consequência, sou perfeccionista e ainda mais: teimosa, cabeça-dura. Inevitavelmente orgulhosa também.

8. E a sua maior qualidade?
Que pessoa com estes defeitos consegue enxergar qualidades em si mesma? É um tanto complicado, mas vejamos. Sou companheira, quando amo a pessoa. Muitos dizem que sou engraçada. No perfil aqui ao lado afirmo que sou autoirônica, e isto é verdade! Caso contrário, não sobreviveria a tantas piadas que o cosmo prega.

9. Você é feliz com o que faz? (estudo ou trabalho)
Sim! Escrever é o que justifica toda a minha vida. Acredito que cada um de nós nasce com uma missão; a minha é dar esperança para as pessoas, um pouco mais de cor e outros ares. É a única coisa que sei fazer e a qual quero continuar fazendo. Mesmo se eu entrasse sob uma tenda e nunca mais quisesse sair, mesmo que fugisse no ônibus de turnê do The Rasmus, mesmo que roubassem de mim tudo o que sou e tenho: ainda assim, eu escreveria com um pedaço de galho e o meu sangue.

10. Você tem medo de mudar/arriscar?
Não. Olha, eu tenho medo de muitas coisas, mas jamais deixaria de mudar ou me arriscar se isso implicasse em algo maior e melhor para mim. Afinal de contas, após a resposta do item número 6, vocês podem esperar qualquer coisa de mim.

11. Se você tivesse que escolher um objeto dentre os que possui, qual seria?
Pode ser dois? Não tem como deixar um deles de lado; pensei nesta hipótese, mas falhei miseravelmente. Meus dois objetos escolhidos são meu notebook, onde consta minha vida, e o Maior Livro na Face da Terra, que demorei muito tempo para (re)encontrar e não largo mais!

Tentei (e fui) o mais sincera possível nas respostas. Espero que vocês tenham gostado (esta frase é mais do que um clichê na blogosfera, mas é real). Queria agradecer a Pri mais uma vez, pois adoro memes criativos! Agora vem a parte mais difícil. Pois é, achei que seria trabalhoso responder as perguntas, mas difícil mesmo será fazê-las e indicá-las para outras pessoas. ARGH!

Del Lang, a The Rasmusística, pergunta:

1. O que faz você se emocionar?
2. O que você faz quando não há ninguém olhando?
3. O que significa a fé para você?
4. Se coubesse apenas uma pessoa em seu coração, quem seria?
5. Quais seriam seus três desejos para o Gênio da Lâmpada?
6. O que faria você quebrar paradigmas?
7. Na ilha deserta: o que ler e ouvir?
8. Se eu dissesse que você é capaz de voar, basta querer: acreditaria em mim?
9. No fim do arco-íris há um pote de ouro ou somente o fim da beleza de cores?
10. Um homem cego está atravessando a avenida movimentada ao mesmo tempo em que o amor de sua vida passa pela calçada: e agora?
11. Qual é a melhor (ou mais bonita) arte do Manifesto?

Quis viajar um pouco e acho que exagerei, mas cá estão minhas 11 perguntas aos indicados. Por favor, ao respondê-las mande o link para mim! Quero muito muito muito ler todas as respostas.

As pobre coitadas indicadas:
1. Janaína, do Leitmotiv
2. Daniela, do Sem Formol Não Alisa
3. Ana Luísa, do Minha Vida Como Ela É
4. Leila, do In My Place
5. Amanda, do Maçãs Verdes
6. Franciellen, do Meu Palanque
7. Andreia, do Heart Plush
8. Gabriela, do Psiquê Cotidiana
9. Tary, do Doces Rodopios
10. Deyse, do Verdade Mal Contada
11. Gabriela, do 187 Tons de Frio