Os #5 filmes da minha vida

Encontrei em vários blogs, mas foi após ler o meme da Barbara que fiquei com vontade de participar! Sou profundamente influenciável por pessoas fodas, tipo ela. Então, cá estamos reunidos para uma coisa a qual ninguém quer saber, mas estou afim de falar sobre. É difícil escolher cinco filmes de todos que assisti e gostei até hoje, mas o que seria do Bonjour Circus sem desafios? O que seria de mim? O que seríamos, afinal?

Porra nenhuma! - vocês respondem em uníssono.

Muito bem. Nem todos os listados são os meus favoritos, mas sim aqueles que marcaram época ou algum momento/situação importante na minha vida. Assim fica mais fácil de lembrar e também de ser justa com a sétima arte.

#1 Titanic

Um clássico. Recordista de bilheteria. Não adianta você ser chato e dizer que não gosta. Ninguém vai acreditar. Titanic levou milhares de pessoas as lágrimas, e levará mais algumas nesse segundo lançamento em comemoração ao centenário do naufrágio. O fato por si já é uma grande história, mas ainda incluiram um romance dócil para piorar a situação. Eu era pequena quando fui ao cinema com meus pais, e lembro até hoje dos mínimos detalhes do filme, as músicas, diálogos e cenas que um e outro fez questão de esquecer (como a piadinha da porta, que além de passada, está errada). Leonardo DiCaprio novinho causou frisson, minha gente! Até eu, que era nova demais para compreender esse negócio de pegável, entrei na onda e colecionei revistas com reportagens dele. Veja você. Foi uma das melhores épocas do cinema; a única que vivi até então. Titanic merece ser lembrado para todo o sempre!

#2 Amadeus

Sempre gostei dele, mesmo antes de saber quem era o cara tocando músicas "sem letra, mas muito bonitas". Quando descobri de uma vez por todas o senhor Mozart, nunca mais larguei e ele me acompanha todos os dias nos momentos de inspiração. Somente muito tempo depois encontrei, por acaso, o filme "sobre ele". Assim, entre aspas, porque na verdade o filme é inspirado em uma peça de Shaffer. O que é uma pena, eu adoraria ter certeza de que realmente houve uma luta de egos entre ele e Salieri! Dividido em dois dvds, é uma peça de ouro para se guardar dentro do colchão. É raríssimo eu gostar de cada segundo de um filme, mas Amadeus conquistou cada um deles não me deixando nem respirar entre uma cena e outra. Sou completamente apaixonada e não nego! Pode ser um roteiro teatral, ficcional e qualquer coisa que vocês quiserem afirmar, mas eu continuo achando a obra que mais se aproximou da real personalidade do músico mais foda de todas as gerações - Wolfgang Amadeus Mozart!

#3 O Pianista

Antes de assistir este, eu acreditava que A Lista de Schindler era o melhor filme sobre a Segunda Guerra Mundial. Olha, não tiro o mérito dele, é realmente ótimo, mas O Pianista bateu qualquer ranking. Não sei se fui influenciada pelo fato da família de minha avó também ser polonesa, ou pela fotografia perfeita, pelo ator maravilhoso, o cenário impecável ou tudo isso junto. Sou suspeita para falar de filmes sobre guerra porque adoro todos, assisto todos, quero todos e sou viciada em cada um deles! Deve ser o sangue alemão gritando rudemente na minha memória de DNA. Eu era só uma adolescente quando assisti e chorei como uma própria sobrevivente da guerra revendo um passado cruel. Mas assim, eu soluçava de tanto chorar! Cheguei num momento que, ou eu segurava as lágrimas, ou não conseguiria ver mais nada por culpa dos olhos inundados. Nos créditos finais, a única coisa que eu conseguia fazer era afagar o coração com a mão lotada de lencinhos e dizer: "Que lindo, que lindo, que lindo..." Quando me lembro da cena, acho cômico e exagerado, mas assim que coloco alguma parte do filme para rodar começo a tremer o lábio inferior e sinto o coração diminuir.

#4 Die Unendliche Geschichte

Acho que em português o título é "A História sem Fim", mas sei lá, não lembro. É o filme da minha infância, simples assim. Acho que foi o primeiro a ser gravado na minha memória, pois não me lembro de nenhum antes dele. Eu ficava deitada na cama, de bruços e balançando os pés, enquanto assistia o "cachorro grandão" voar; eu tinha medo e ao mesmo tempo fascinação por ele. Bastian, o personagem principal, foi quem deu o primeiro (de todos os outros primeiros) nome do meu filho. "Quando eu crescer e tiver um filho, o nome vai ser Bastian", eu dizia para todo mundo. Lembro pouquíssimo da história, mas é engraçado como os personagens e a magia ficaram grudados na lembrança! Até hoje não li o livro que inspirou o filme e por incrível que pareça não tenho a menor vontade de fazê-lo. Tenho a impressão de que isso acabará tocando uma parte muito importante da minha infância levando tudo por água abaixo.

#5 Pearl Harbor

Assim, não é nenhuma Coca Cola. Um filme bem fraquinho, aliás. Tem sua emoção, não nego (é sobre a guerra, gente). Marcou o período dourado onde tive o privilégio da TV por assinatura. Ah, bons tempos! Porém, o motivo de estar na lista não é nem o filme, e sim sua trilha sonora. Uma das mais lindas - dando destaque para There You'll Be e Tennessee. Antigamente eu gostava de colecionar trilhas, mas depois a mania perdeu a graça, perdi o interesse, e acabei deletando a maioria das pastas. Permaneci com duas ou três e entre elas está o Pearl Harbor. Não tenho a menor vontade de rever o filme, mas não me desfaço tão cedo das músicas. Vai entender...

Eu queria escrever mais, posso? Eu quero conversar sobre mais filmes, todos aqueles que me marcaram de algum jeito, e não foram poucos. É horrível ter que separar coisas que gostamos tanto, mas minha lista não poderia ser diferente. São estes os filmes assistidos em momentos importantes, que deixaram marcas dignas de serem lembradas! Existem centenas de outros, mas aí está o resumo. Não vou indicar alguém porque, até onde vi, a maioria dos blogs conhecidos já participaram do meme. Mas se alguém se interessou e quer enfrentar o desafio, é só ir em frente!

Benjamin, o cachorro atrapalhão

Não consigo usar títulos normais para esse cachorro hiperativo.

Benjamin está dando trabalho para aprender que sou eu que o levo para passear, e não o contrário. O momento que deveria servir para relaxar e curtir o clima fora de casa se tornou num verdadeiro cabo de guerra. Eu de um lado da coleira. Por fora, uma moça equilibrada que não se deixa dominar pelo cachorro. Por dentro, uma esquimó sofrendo com a neve queimando sua pele, aos gritos chicoteando o cachorro e tentando controlá-lo para não virar o trenó. Benjamin do outro lado da coleira. Se esgoelando e esbugalhando os olhos para engolir o mundo inteiro de uma vez só. Porque tudo é maravilhoso demais para ficar esperando, ele tem que alcançar as coisas antes que elas fujam dele. Mesmo que essas coisas sejam muros de casas, cantos de rua ou árvores. Talvez ele seja assim porque minha casa não tem grama nem muito espaço para ele correr, se exercitar e cheirar à exaustão. Ou porque o veterinário recomendou que ele não saísse de casa até tomar todas as vacinas de proteção, o que o segurou aqui do lado de dentro até seus 11 meses. Imagine segurar um cão hiperativo e curioso por todos esse tempo! 

Tarefa difícil.

Depois do acidente de carro, minha mãe passou a guiá-lo porque eu sentia muitas dores na coluna e no tórax. Hoje, meses depois, ela continua o levando vez ou outra. Veja bem, minha mãe é uma senhora baixinha. O Benjamin a arrasta quando bem entende para o lugar que ele escolher. Já comigo, o malandro sabe que o buraco é mais embaixo. Quando sou eu o guiando, Benjamin pondera em engolir o mundo ao seu redor ou continuar com o pescoço no lugar, porque faço questão de puxar de um lado enquanto ele puxa do outro. Normalmente funciona, mas é só ele farejar algo extraordinário para se esquecer do acordo. Sei que esse não é o método, mas meu pai - como sempre - não colaborou com o treinamento que eu vinha dando ao cachorro. Meu pai é o tipo de pessoa que veio a passeio no mundo. Trágico. Ele acha mesmo que as coisas se "auto criam". Portanto, quando o velho sai com o cachorro, deixa o animal fazer o que quiser e como quiser.

Não demorou muito para eu cansar de bancar a palhaça, ensinar de um lado para depois meu pai cagar do outro, e abrir mão do treino. Isso só me irritava mais ainda e confundia a cabeça agitada do Benjamin. Resolvemos que ambos iríamos ignorar a brutalidade do encontro de forças e seguiríamos arrastando um ao outro para o horizonte dourado. Tem dado certo, por enquanto. Claro, quando o amiguinho de Benjamin (Beethoven, outro vira-lata) aparece na rua para saudá-lo tão efusivo quanto ele, tudo vai por água abaixo. Eles acham muito engraçado brincarem comigo pendurada na coleira de Benjamin. Sou o pingente decorativo do meu cachorro. Beijos para você que se acha uma merda. É esse o impasse: ou Benjamin fica paraplégico ou eu fico maneta.

Por um mundo sem buquê de flores

Antes do texto, gostaria de dizer que recebi um selo da Barbara e fiquei me sentindo a cereja do topo! É complicado indicar apenas cinco blogs, muito mais do que isso merecem o selo, mas não quero quebrar a brincadeira. Então, lá vai: 






Eu gosto de receber flores. A primeira (e última) vez foi no meu aniversário em 2010, quando meu namorado esqueceu a data e resolveu me presentear com um buquê de rosas colombianas vermelhas. Ele não é de dar flores, e eu confesso que não sou de recebê-las. Tirando as gerberas, que são minhas favoritas, acho que devem ser dadas somente em último caso - quando você esqueceu de comprar outro presente ou lembrança, assim como meu namorado. Não estou dizendo que odeio receber arranjos, mimimi, sou uma mulher pra frentéx. Nada disso. É um gesto que tem seu valor. Não adianta, é romântico. Fomos alimentados por enlatados americanos e crescemos sob a doutrina Disney, portanto, é complicado fugir a esta regra social. As mulheres só acham que o mundo, ou o relacionamento, valem a pena ao receberem um buquê de flores. Eu mesma sofro de despeito por ter ganhado uma única vez em 24 anos. Poxa, poderia ter sido mais. Contraditória?

Desculpa por ter nascido.

Existem dois problemas: 1) Não sou alérgica, mas espirro com determinadas espécies. 2) Elas morrem, o perfume envelhece, as pétalas caem, e o presente significativo se transforma em uma tragédia shakespeariana. É triste. Qualquer coisa com prazo de validade é deprimente. No momento em que você enlaça pela primeira vez aquele pacote lindo e cheio de vida, sabe que dali há alguns dias estará tudo morto e fedorento. A água, podre. Então, você será obrigada a jogar no lixo aquilo que motivou tanta comemoração. É traumático. As flores morrem, assim como todos nós iremos passar desta para uma melhor um dia. O presente que você escolheu, comprou e trouxe com tanto carinho...

Morreu!

Imaginemos o rapaz enamorado entrando em uma floricultura, todo alegre, dedilhando cada pétala e pensando na cor que mais agradaria sua amada, ou até qual cor combinaria melhor com o par de sapatos que ela estaria usando na ocasião. Ele é um assalariado. Buquês costumam ser mais caros do que muito celular de alguns plebeus por aí. Mas mesmo assim, vale tudo pelo amor! O rapaz, por fim, escolhe - sei lá - dez rosas negras, tira o cartão do bolso e passa na maquininha tentando esconder o meio sorriso de satisfação - "Ela vai amar!"

E a moça ama mesmo, acha lindo, gentil, delicado. As flores tem todo um significado subentendido. São coisa séria! Não é qualquer um que compra flores para dar à alguém. Muito bem, a mocinha é presenteada e fica feliz, contente, satisfeita, se sente amada, causa inveja nas despeitadas (tipo eu) e o casal firma um compromisso. Uma semana depois o Don Juan visita a mulher de sua vida e não encontra o arranjo em lugar nenhum. "Morreram!", ela anuncia com frieza; se como fosse a coisa mais normal do mundo a simbologia do amor morrer assim, sem mais nem menos, e ser depositada em um lixão. Tudo bem, lógico que a natureza morre, mas vocês entenderam...

Conheci mulheres que plantaram suas rosas antes que elas secassem e dessem seus últimos suspiros de romantismo. Digo que estas pobres senhoras somente adiaram o inevitável. Foi mais doloroso, com certeza, assistir a morte lenta das inocentes em pleno jardim repleto de primavera. "Isso não é justo!", e não é mesmo. No meu caso, tentei guardar uma única rosa vermelha entre as páginas da minha agenda para que ela envelhecesse com elegância, mas não deu certo. A coitada ficou esquisita, irreconhecível e digna de pena. Não era nem sombra do que eu havia recebido dias antes, no meu aniversário. Minha mãe fez questão de salvar do lixo os acessórios de plástico do arranjo e até hoje não sei onde os escondeu. Confesso que ela os protege como uma verdadeira ativista. O Greenpeace se emocionaria; deixando de lado o fato de que a natureza em si está morta há muito tempo. Até mesmo eles, tão inteligentes e peritos no assunto, se deixam levar pela emoção das rosas.

Trágico.

Seria um veneno? Um vício sociológico? Um erro na programação do nosso DNA? Para mim, acho que muitas vezes o romance caminha pela contramão. Sei lá, as pessoas se confundem, se perdem na etiqueta, estão completamente aquém do traquejo amoroso e fazem a escolha errada. É lindo, com certeza, receber rosas, tulipas, gerberas ou qualquer coisa que o valha - jamais colocarei isto em discussão. Entretanto, somos obrigadas a conviver com o outro lado da moeda. Eu gostaria de poder dizer que assim praticamos o desapego, mas não creio que isto seja possível com sentimentos. Também gostaria de encerrar o texto com uma conclusão nua e crua, mas não foi possível. Continuo sofrendo com o mistério. Afinal de contas, qual a finalidade do buquê?

Vocês sabem?

Let me show you heaven

Ouvir música é uma das poucas coisas que confirmam a verdade de que sou feliz e estou sabendo disso; também faz com que eu volte ao tempo em que eu era feliz e me esquecia disso. Um par de fones nos ouvidos e pronto, o subentendido emergi buscando violentamente o fôlego, e logo respira aliviado lá pela faixa três ou quatro do álbum que estou ouvindo. É um escape, sem dúvidas - a melhor de todas as fugas. Para mim, assim como para muitos, a música se tornou um remédio eficaz e sem efeitos colaterais; às vezes piores do que a própria doença. Existem pílulas mais eficientes do que outras, naturalmente, e conforme o estudo realizado durante anos e publicado vez e outra aqui no Bonjour Circus e pela internet afora, chegamos a um resultado comum conhecido pela maioria de vocês. Portanto, usarei o ensejo dessas últimas horas e falarei alegremente sobre o The...

"Rasmuuus!"

Eu sou uma coisa linda e cheia de graça. Se não quiser ler sobre eles, basta passar direto para os comentários e dizer a verdade - "não li, não vou ler". Juro que não fico chateada! Mas recomendo a passada ligeira pela playlist, vale a pena!

O lançamento do novo álbum, que leva o nome da banda, está marcado para 18 de abril. A versão digital já está disponível no iTunes Store. Aliás, preciso comentar, aqui no Brasil teremos somente essa versão e não o álbum "físico". Por que? Porque a Universal Brasil é uma filha da puta, que não justifica o salário de seus funcionários, e está com preguiça de trabalhar. Só por isso. Eu adoraria poder gritar que eu quero que você MORRA!, mas algo me diz que a gravadora não dará atenção ao meu ódio. Daí o que a gente faz? Nós, internautas, qual nossa atitude? Nós baixamos o álbum gratuitamente pirateado, oras! Subimos o pau de sebo e ainda rebolamos. Ontem uma amiga me passou o link via Facebook e eu fiz a festa. Baixei o álbum assim que tive tempo e comecei a escutá-lo no último volume. A adrenalina foi para o beleléu e eu chorei. Eu posso achar qualquer porcaria sobre o trabalho do The Rasmus, mas sempre vou chorar emocionada pelos mínimos detalhes.

A minha primeira reação foi mais ou menos parecida com aquela quando mamãe cancela o WOW, mas lógico que de felicidade e não raiva. Quando me acalmei e parei de choramingar feito groupie, comecei a fazer minhas coisas chacoalhando o esqueleto ao mesmo tempo, cantando e improvisando nãnãnã porque ainda não conheço direito as letras e relembrando o motivo de amar tanto essa banda. Sem delongas, demorei bastante para formular minha opinião sobre as músicas e foi difícil não ser influenciada pela volta homérica dos finlandeses hiperativos, mas acho que consegui escrever uma resenha digna de vossa atenção.

É um álbum comercial. Fim de papo. Posso sofrer do Mal Dead Letters, da Síndrome Hide From The Sun e do que mais quiserem nomear - não importa, é um álbum comercial. Continuando, a primeira coisa que me chamou a atenção foi a capa. Além de pavorosa, remete aquela velha história do vocalista ser o centro do mundo; ainda tive a boa vontade de procurar o reflexo dos outros membros artisticamente escondido no papel espelho, mas foi em vão - é só um par sombrio de olhos te observando e querendo sua alma. Outra coisa que incomodou foi a posição do nome. Para quem sofre com déficit de atenção (ou só é lerdo, tipo eu) vai demorar um longo tempo para notar o "The" ao lado do "Rasmus". Justo ele, pelo qual lutamos durante anos por sua inclusão no vocabulário dos novatos mimimi. Após ter o álbum na íntegra reparei na quantidade de faixas. A média é de 11/13 músicas, tirando o HFTS (♥) que tem 14. Então, juntando as peças, percebi (espero que incorretamente) que houve uma pressinha em lançá-lo o mais rápido possível. "Que mané escolher nome, que mané ficar escrevendo e gravando músicas, lança logo essa porra e vamos beber vodka!" Repito: espero que eu esteja errada.

Somente com 10 músicas (realmente muito pouco), acho que o álbum começa muito bem e logo fui cativada pela primeira faixa: Stranger. O nome deste texto, aliás, é uma frase da música. I'm a Mess, que eu já comentei por aqui, é um festival de daltonismo que merece ser ignorado, mas a música tem seu valor. Apesar de eletrônico demais, a experiência vai bem por It's Your Night, Save Me Once Again e Someone's Gonna Light You Up. Devo confessar que os nomes me fazem lembrar dos enlatados industriais e caberiam perfeitamente em filmes juvenis; e mais uma vez tenho a impressão de que o processo de produção foi acelerado. End Of The Story marca uma singela mudança dentro do mesmo álbum. Não sei explicar, mas tudo desanda. Apesar de Somewhere, que pode recompensar a playlist pequena porque tem mais de 5 minutos e Sky, que foi feita única e exclusivamente para derreter todos os fãs de propósito, é na faixa 6 que eu vejo que não valeu tanto a pena assim.

Resumindo, End Of The Story, You Don't See Me e Friends Don't Do Like That (a pior de todas) poderiam fazer o favor de se retirar e encurtar um pouco mais a lista, que já é minúscula. Sinto pressa e pouca essência. Acredito ser difícil manter um padrão em tantos anos de carreira e saber sustentá-lo durante a transição, mas por outro lado as mudanças são necessárias e até inevitáveis. Lauri trouxe bastante de sua carreira solo para a banda e ninguém economizou no novo estilo. O ponto positivo é a volta da guitarra de Pauli, mas achei Eero mais mudo do que nunca e Aki não conseguiu ressaltar nenhuma diferença. Assim como Black Roses, The Rasmus não é um álbum que entrará na história. Entretanto, não me decepcionei demais. Com certeza ainda existe a mesma banda debaixo de todas as novidades e, como eu havia dito no texto sobre o primeiro single, a poesia Ylönen deu seu ar da graça - bem tímida, é verdade - e senti aquele arrepio de antes. Posso afirmar que o álbum é melhor do que o BR, mas infelizmente faltou alguma coisa. Aquela coisa sem nome - nunca saberei o quê.

De qualquer forma, é The Rasmus. Isto, gente boa, basta! Eles estão de volta sem ao menos ter ido embora de mim. E agora, com a playlist logo abaixo para vocês ouvirem as novas músicas, eu os convido a entrarem no meu Paraíso!

The Rasmus by Ill Circus on Grooveshark

Invisível, mas sem os benefícios

Nós, seres humanos, todos os dias vivemos a rotina de lutar por nosso espaço. Somos muito territorialistas. Mas ao invés de sairmos por aí levantando a perna para demarcar postes, andamos pela calçada como verdadeiros bárbaros. Porque nossa bolha pessoal tem muito respeito pelo tio Newton. Podemos ignorá-lo o quanto quisermos, mas nosso instinto está aí para nos lembrar de que nosso pão e terra são conquistados um dia após o outro, incansavelmente, e que ninguém além de nós cabe nesse lugar. Nada está ganho, meus caros. Por isso, andar pelas calçadas se tornou uma tarefa árdua enquanto as cidades ganham cada vez mais habitantes. Todo mundo rosna. Todo mundo recebe golpes de ombros. Todo mundo se acha no direito de passar primeiro ou de ganhar o maior pedaço de concreto.

Eu costumava ser mais flexível quanto a isso. Sempre cedia o espaço para os transeuntes me encolhendo contra o muro ou parando na sombra de algum poste para deixá-los passar primeiro. Mas isso mudou. Não sei bem por qual motivo, mas de uns tempos para cá aderi ao Movimento. Só resta usar um capacete de viking e ter um porrete na mão. Quando alguém se aproxima, aperto o passo, olho bem para frente, levanto levemente meu rosto e sigo firme e forte no ritual da conquista de espaço. Às vezes funciona! O pedestre se sente intimidado e abaixa os olhos. No caso das mulheres, agarram melhor a bolsa em frente ao corpo, colocam o cabelo atrás da orelha e passam por mim com o rabo entre as pernas. "Epic Win!", eu penso e "Essa calçada é minha, perdeu playboy!", concluo. Mas nem mesmo meu território foge a regra básica da vida: aquela regrinha onde tudo tem dois lados.

Às vezes simplesmente não funciona. Para ser sincera, quase nunca funcionou. Porque, convenhamos, não faço o tipo do Respeito. As pessoas não me levam a sério. Sempre acham que estou fazendo charme ou graça. Meu rosto levantado não é interpretado como, sei lá, uma cauda erguida de pavão. Pode ser interpretado como miopia (o que não deixa de ser), mas nada muito diferente disso. As pessoas acabam passando por cima de mim ou trombando comigo. E rosnam! Paulistano adora rosnar um para o outro; somos um bando de cachorros raivosos sem dono, nosso único interesse é o pote grande de ração.

Então, não é raro as pessoas estarem caminhando no sentido contrário ao meu e, mesmo sentindo minha mísera presença, não desviarem sequer um milímetro. Trios ou duplas de amigos, ocupando todo o espaço, não estão nem aí se caso eu for atropelada por estar desviando deles pela rua. "Tomara que morra!", é o que a sociedade pensa, mas ninguém tem colhões para assumir. Os fracos como eu, que desviam derrotados dos fodões, merecem uma marca de pneu na testa. Porque sim. Há também aqueles sem limite algum, que sabem que você está atravessando a calçada, saindo de uma loja, mas mesmo assim não pisam no freio. Continuam lindos e livres. Pessoas que não sentem dor porque, se não é você quem pára, o choque seria inevitável. Mas nem isso provoca medo neles. São mesmo uns desbravadores da civilização. São essas as pessoas que irão repovoar o planeta depois da Guerra Nuclear.

Já sei que escapei de algum modo da seleção natural e que terei que me contentar com minha invisibilidade desproposital. Pelo menos até encontrar Respeito Próprio vendido em vidrinhos de única dose nas farmácias. Mas até lá, vou cedendo meu direito de ir e vir que a Constituição Nacional garante, mas está muito ocupada com o futuro da nação para perder tempo com minhas reclamações.

A arte do tempo

Tudo começou quando encontrei três fios de cabelo brancos. Eu não disse um nem dois, eu disse três. A família por parte de mamãe sofre de uma maldição cigana, que começa a deixar os cabelos brancos aos vinte e poucos anos. Na verdade não é uma maldição cigana, mas a história fica bem mais circense desse jeito! Seja lá qual for a razão, motivo, causa ou circunstância, todas as minhas primas já estão tingindo suas jubas há bastante tempo. Estou a beira dos meus 25 anos e até o presente momento somente os três supracitados tiveram tal despudor em aparecer. Um trio de sem vergonhas, respeitável público!

Não sou dessas que dão piti com a idade. Ao menos me esforço bastante para não transparecer. Eu empino meu nariz, rebolo os quadris e sou a mulher mais segura de si a caminhar pela calçada. Por fora, destemida. Por dentro, uma moça sofrendo antecipadamente sua crise dos 30. Para ser sincera, sofro dessa crise desde os meus 19 anos. Para você ver... Comecei este parágrafo afirmando que não dou showzinho etático. Pra puta que pariu o que eu afirmo! Estou ficando velha, chata, ranzinza e não quero ser obrigada a tingir meu cabelo da cor "cereja pisada nos alpes da Cidade de Deus". Quero meu tom mel-achocolatado durante todos os anos que a ciência me deu por direito. Que mané herança genética!

Sou uma menina de quase 25 anos, hein. Voltem aqui quando eu soprar 60 velas. Será um grande desafio, a convivência, tenho plena certeza.

"Mas você veio até aqui só pra surtar, moça circense?" Calma e senta que lá vem história: Todas as minhas primas estão casadas, algumas primas até separadas, mas de um jeito ou de outro todas tem filhos. Nasci em uma época que provocou um grande vácuo na minha existência: não deu tempo de ser daminha de honra porque estava grande demais, e também não pude namorar/casar juntamente com os outros porque isso seria caso de pedofilia; eu era nova demais. Fiquei chupando o dedo. Restou-me curtir com a cara dos namorados e noivos que caiam de paraquedas nos almoços familiares - e mais tarde, restou curtir as barrigas que pipocaram em determinada fase. Os priminhos de segundo grau começaram a chegar. Foi divertido, já que eu não havia acompanhado a gravidez de ninguém antes. Era uma novidade para minhas primas e para mim também. Não senti nenhum bebê chutar, não aprendi a tricotar sapatinhos só para levá-los na maternidade nem fiz massagens nos pés, mas fui uma das primeiras a visitar o quartinho recém decorado, vi um ultrassom e outro, passei a mão na barriga (morrendo de medo de machucar porque sou cagona mesmo) e coisas do gênero.

Os priminhos nasceram. Peguei nos braços, achei fofinho, morri de amores - guti guti, bebezinho! - levei gorfada e outras coisas envolvidas pela plenitude maternal. Então, os pacotinhos com cheirinho gostoso da Johnson's Baby começaram a crescer ao redor da prima desengonçada, estranha e cujo nome ninguém na família sabe pronunciar até hoje. Eu fui vivendo minha vida e eles, a deles. Quando dei por mim - opa!, quem são essas crianças tão bem resolvidas? Com biquinhos nas fotos, me adicionando no Facebook, fazendo luzes no cabelo, usando batom rosa chiclete (eu nem sabia que existia essa cor). Informações demais que provocaram um chacoalhão espontâneo em mim. Em que mundo estou? Como eu caí aqui? Aliás, caí de madura?

Como assim madura?

Sim, querida. Madura. Na vida é assim, nós amadurecemos sem perceber. Os bebês crescem, aprendem a falar, caminham e se tornam gente grande bem devagar, que é para não assustar. Apesar de demonstrar o contrário, a vida não quer intimidar ninguém. Portanto, ela chega assim, de mansinho, sem bater na porta nem fazer alarde. Acordamos um belo dia e não queremos mais brincar de boneca nem de carrinho, queremos mesmo é namorar e ter uma casinha de verdade!

É assombroso observar uma nova geração florescer bem debaixo do nariz. São pequenas pessoas que nasceram bem depois de eu ter passado por alguns perrengues. Não viram o que eu vi, não viveram os problemas da minha década e irão experimentar coisas que serão inapropriadas para a idade que eu tiver no momento. Enquanto estou aqui me preocupando com os meus três fios brancos, eles estão se preparando para a escola, desejando os brinquedos da moda e planejando a festinha de aniversário. Não é perfeito? Somos uma ampulheta. Um montinho de areia que escapa. Estou vivendo experiências que eles são jovens demais para compreender, enquanto eles vivem delícias que sou velha demais para aproveitar. Somos grãos, sem sombra de dúvida, em um interminável desencontro. Só espero que no meio dessa correria desenfreada nada se perca. Que todas as chances sejam aproveitadas, todos os romances sofridos e todo o presente desenhado risco a risco. Espero que o futuro deles e o meu sempre arranje um jeito de se encontrar por aí.

Pois é, o futuro... A quem ele pertence?

A Columbina sempre amou o Pierrot

Ouvi um choro baixo, aquele vindo d'alma, que intercalava e calava a palavra paixão. "Minha paixão, minha paixão"... Assim, tão doloroso e solitário, que quase eu comecei a soluçar. Aproximei-me das folhagens ao canto da rua e vi, não um ser humano, mas um pedacinho tão amuado de gente, que restou-me rezar. Oh, coitada da moça! Tão deserta de si mesma, sentada à beira da vida e com ambas as mãos no que sobrou de rosto. Branca, feita de cisco de estrelas e porcelana, sequer me viu chegar. Cutuquei uma, duas vezes em seu ombro trêmulo e nada d'ela me olhar. Continuava ali, lamuriando o coração para fora e inspirando pouco ar.

— Pierrot foi embora, foi embora, foi embora...

O lencinho asfixiado entre os dedos pedia clemência. As lágrimas desbotavam os lábios opacos da pobre moça; arrancavam-me o pensamento aos suspiros, e eu não sabia o que falar. Pierrot! Onde está Pierrot? Por que abandonou esta trágica senhora? Pierrot, onde está? Deus, acode cá esta pena ao vento! Mas que desalento. Nunca vi uma flor assim despetalar. Sentei-me ao lado do fiapo de existência e calado fiquei. De sobressalto, a pequena amedrontada olhou-me de soslaio, levou o lencinho ao nariz e caiu novamente a tormenta. Paciente, ofereci meu próprio lenço e aconselhei que desabafasse.

— Posso não ser tão estranho assim - defendi-me ao ver que lhe causei espanto. - Afinal, todos somos passíveis de sofrimento.

Apreensiva, e sabemos, com nenhuma outra opção para se desfazer de tamanha tortura, seus olhos ganharam a calmaria do céu sem nuvens e sua boca dançou conforme as palpitações do coração. Heis que ela narrou:

— Pierrot, meu grande e único amor, foi embora para muito longe. Oh, senhor! Antes fosse a distância que aplicam as terras, mas sofro do afastamento de afeto. Uma separação com a qual não posso lutar, cuja eu dei por cavar. Aqui, veja - ela apontou para o coração aquietado em seu colo nervoso. - Bem aqui está meu fim, que eu mesma fiz questão de plantar. Oh, pobre homem! Nenhum compromisso tem com isto, meu bom ouvinte, mas não sabe quão bem me faz compartilhar meu desespero.

Como não dizia mais nada, fiz um gesto a encorajando novamente. Já estava dos pés a cabeça envolvido com a tristeza.

— Amei Pierrot mais do que a mim. Um sentimento tão avassalador, que da minh'alma nada restou. Sinto que arrancaram-na de mim sem a menor clemência e colocaram-na nos olhos de Pierrot, que foram junto com ele, para a desgraça de minha escuridão. Eu o amei, juro que o amei! - ela suplicou. - Por todos os continentes desta Terra e cada gota de nossos oceanos. Se eu pudesse ao menos gritar à todos os ventos, mas nem mesmo isto há em registro de minhas faculdades. Não estou machucada, entretanto, sou pura dor.

Éramos dois atrapalhados buscando pela razão. Encontramo-nos ao acaso e ambos ficamos assombrados com o reflexo um do outro nas pupilas, naquele dia, da cor do fogo. Paixão, paixão! Crua paixão presa eternamente pelo nó, que formava-se através de nossas vozes. O dia ensolarado, lembro-me bem, à beira do lago e mãos distanciadas pela incerteza do momento. O cheiro de meu Pierrot, o sinto em minha pele como tatuagem. Oh, bom senhor! O mais pleno amor apossou-se de mim por completa, tornei-me cega! Ah, o sorriso de Pierrot...

Mas no mesmo dia o sol se pôs, ferido e choroso, por detrás dos horizontes acinzentados. Pierrot sequer chorou. Eu disse a ele: "É com Arlequim que devo ficar!" O rosto do meu amado apedrejou cada parte minha. Rezei à todos os deuses que ele compreendesse minha decisão, mas nada assim findou. Sou fraca, mortiça, alienada! Como conseguiria eu enfrentar Arlequim? Dizer-lhe a verdade e preenchê-lo de mágoas?! Não, jamais. Eu não posso. Não pude. Perdi Pierrot. Ganhei de meu adorado as costas, gélidas e impiedosas. Nunca mais voltei a vê-lo...

— Mas corra atrás dele, sua tola!

— Eu respeito seu espaço, sua escolha. Sim, tola. Ingênua, atingi o fundo do poço e aqui estou morrendo de pouco em pouco. Morrendo, sim, às lágrimas! Todas elas, conto cada qual que cai salgando esta maldita boca, que jamais mereceu pronunciar: Pierrot! Meu estimado Pierrot! Foi embora, foi embora... Deixou-me a paixão, somente a paixão, a paixão...

O desaguar da melancolia interrompeu novamente o relato da abatida Columbina. Ora, que miserável mulher! Compreendi que a loucura roubou-lhe a luz dos olhos e a lucidez da mente. Ela estava no mais profundo escuro do ser, encolhida entre os ventos frios que sobraram do que antes fora sua vitalidade. Finito, esta moça não vive mais. O melhor que tem a fazer é chorar até o corpo finalmente absorver a letal falta de alma, e então expirar.

Acaso alguém leia este meu relato, por favor, faz-me um benefício; antes, faça-o à moça: diga lá ao senhor Pierrot que sua senhora está revogando a si mesma. Digam, meus senhores, que na Terra anda exânime uma leve e muito bonita pombinha de asas cortadas. Não faça isto a si mesmo, Pierrot, não carregue contigo o luto do seu único amor!

Feliz Páscoa!

Eu não sou boa nesse negócio de desejar felicidades em datas comemorativas. Há pouco tempo atrás estava compartilhando um feliz Natal e hoje, ao abrir os olhos, constatei que deveria mandar mensagens com feliz Páscoa. Daqui a pouco, as pessoas estarão dizendo feliz aniversário para mim, e o tempo continuará escapando. Não é angustiante essa pressa? Bom, que assim seja. Cá estou escrevendo um texto para a Páscoa.

Quem curtiu a página do blog no Facebook conhece a Olga; personagem provinda do ócio, que criei sem finalidade alguma. Como sou péssima nessa socialização tradicional, resolvi fazer uma tirinha mequetrefe para não deixar a data passar em branco. Foi o melhor jeito Bonjouriano que encontrei de comemorar a Páscoa com vocês!

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Brigando com a sombra

Vou te contar, os últimos dias (acumulando-se já em semanas) não tem sido fáceis para mim. Tudo bem que a vida no geral não tem dado trégua, mas comentemos apenas dos momentos recentes, que é para evitar a fadiga (ou depressão). Venho lutando contra mim mesma há um tempo considerável e o pior de tudo são os resultados lentos, que parecem nunca chegar. Eu fico esperando, enquanto eles se locomovem em slow motion de braços abertos a beira do mar. Parece que tudo funciona de acordo com uma energia negativa, que está empenhada em fuder com a minha vida. "Não, não vai ser feliz!" e pronto, cabô! Fim de papo. Dá um reset e vai embora ser feliz em uma caverna ou ao pé dos alpes, onde ninguém vai a não ser o Pé Grande. É a vontade que dá: sumir, desistir, dar de ombros. Mas como isso é coisa de pau no cu, cá estou insistindo no erro, dando murro em ponta de faca, chovendo no molhado e afins. Embora o peso nos meus ombros esteja incomodando em dobro, não tenho lá muita saída, concordam?

Há uma planta colocada ao lado do divã, no consultório da minha psicóloga. Não sei o nome da bichinha, mas padeço sua desgraça. A doutora afirmou que colocou a dita cuja no lugar certo porque planta tem essas coisas de lugar ideal, tipo humano, mas ninguém liga muito para o nosso lugar. Que seja. Mesmo assim, a coitada está seca, com algumas folhas murchas e manchas por todas as folhas. Está na cara que minha colega vegetal decorativa sofre com os pacientes. "Energia negativa", a psicóloga explica. "Desculpe", eu disse para a planta. O meu intuíto não é matar alguém, eu só quero salvar a minha própria vida (aí sim, com o psicológico em dia ter condições de mat... não). A vontade passa de assassinar, e isso é o suficiente para me manter longe dos tarjas pretas. Agora, antes de entrar no consultório, eu tento chacoalhar os exus pendurados no meu pescoço. Dou um sorrisinho para a planta, sento no divã e faço de tudo para que minha energia não contamine o ambiente. No meio da consulta, porém, eu já estou tão puta com a vida que me esqueço de fazer o bem sem olhar a quem, e mando todo mundo tomar no cu.

Porque eu não vou mais tomar no cu sozinha.
Ah, mas não vou mesmo!

Relatei minha semana complicada, finalmente conseguindo respirar direito; só tenho conseguido isso na terapia. Procuro não esquecer nem dos mínimos detalhes, pois eles fazem toda a diferença. São neles que minha psicóloga encontra o problema, ou melhor, a solução. Ou ainda, o espinho nessa minha pata manca. É na minúcia do meu cotidiano que se esconde essa porra toda. Na maioria das vezes eu sequer noto, e por isso a terapia é importante. Então, de conclusão pronta, ela fica indignada com as pessoas que me cercam; como quando minha mãe disse que desde o começo da terapia ando me sentindo especial demais e ninguém pode falar mais nada, que eu já fico putinha. "Sua inútil, imprestável e idiota" são considerados elogios aqui em casa, logo, se reclamo estou sendo fresca. A terapeuta ficou mei'puta: Quem dera se você estivesse se sentindo especial! Seria um sinal de que meu trabalho está adiantando! - ela disse.

E eu concordei. Há muito tempo não sei o que é me respeitar e acreditar em mim mesma. Como eu disse no divã: estou no automático; cresci ouvindo as pessoas, próximas ou não, dizendo que eram asneiras aquilo que eu queria, fazia ou pensava. Não davam valor para o meu trabalho, meu esforço, e fui criada a base do "não é o suficiente". Escreveu até o ponto de arrancar o tampão do dedo? Não é o suficiente, escreva até perder as unhas. Fez um trabalho escolar (na minha época, escrito à mão e tendo como fonte a Barsa, veja você) de cinco folhas com figuras e desenhos ilustrativos? Não é o suficiente, vá a raiz do problema, seja contratada pelo Museu Paulista ou no Instituto Butantã, entre para um grupo especializado de pesquisas científicas, viaje até a terra natal do tema estabelecido pela escola e só depois de nove anos entregue um trabalho decente de 300 páginas. Pode parecer absurdo, mas em sua escala natural, as coisas funcionaram assim. Sou uma filha da puta perfeccionista em busca da aprovação alheia e distante de aceitar a minha capacidade; covarde também, já que tenho 24 anos e ainda coloco a culpa nos outros. Hei de conviver com isso, algo me diz.

— Por que você briga tanto com sua sombra? - a psicóloga perguntou. - Existem dois lados no ser humano, que nós denominamos "luz" e "sombra", assim como no yin-yang . Não adianta você cobrar de sua sombra uma coisa que ela não tem. Aceite-a! Por que sou a única a enxergar seu potencial? Você é inteligente, sensitiva. Por que não respeita isso?

Eu fiquei sem respostas, como na maioria das vezes. Determinei uma regra para mim mesma, que pouco condiz com o que sou. Não acredito ser inteligente, tão pouco sensitiva e sofro, inconscientemente, com isso. Luto diariamente para me convencer de que sou uma pessoa comum e somente mais uma por aí porque, afinal de contas, assim deve ser mais fácil para mim. Por que eu não posso ser especial? O que há de tão errado comigo para me conformar com o pouco? Por que é ruim buscar um tratamento interpessoal mais digno, de acordo com meu nível? As pessoas que exigem mais estima são fracas? É feio acreditar ser bom em algo que saiba fazer? Estas perguntas, em um curto espaço de tempo, atormentaram minha atenção. Foram elas a base para minha educação, me tornando uma criança submissa e fechada. Mas agora todas caem da árvore, pobres e bichadas. É uma doutrina da qual não preciso mais.

O caminho para aprender isto de uma vez por todas é longo, doloroso e por vezes provoca impaciência. Entretanto, é bom estar disposta a assumir o risco de deixar pessoas "importantes" para trás, que infelizmente não querem ou acham que não precisam aprender mais. Os pais, ainda que a Igreja nos ensine o contrário, não sabem de tudo nem conhecem todas as respostas; e nos devem consideração assim como nós a eles. É uma troca, no fim das contas. Deveria ser. Não só entre essa relação, mas em todas as outras. Acreditar no potencial dos outros e deixar que eles sonhem é gratuito e indolor. Poupa um enorme trabalho futuro, quando a criança cresce e é obrigada a aprender desde o começo o que é se amar. Eu ainda não sei o que é isso, sendo sincera, não me imagino achando isso de mim daqui há algum tempo. Intimamente, me pergunto se serei capaz de admitir minhas virtudes um dia, e se cuidarei de mim como sempre quis que os outros cuidassem. Não pergunto isto para minha terapeuta porque sei que a resposta dela seria 100% otimista. E o grande problema da pessimista, que eu sou, é não querer acreditar.

Bonjour, sou Del. Romântica.

O que me fez assistir este filme foi Angélica, uma das personagens principais, e minha identificação com ela; a ansiedade, insegurança, uma moça atrapalhada, porém esforçada em se demonstrar simpática. O filme começa com uma entrevista de emprego, justo uma das coisas que mais detesto nessa vida. Além de não existir uma linha de raciocínio - e sequer lógica - nas perguntas, você sempre acaba sendo analisado por quem não entende porra nenhuma sobre pessoas. Para minha surpresa, o dono da fábrica (Jean-René) é um homem tão nervoso quanto Angélica, faz terapia e tudo! Quando o telefone tocou, interrompendo a entrevista de trabalho, e depois ele explicou ao psicólogo o que essa invenção dos infernos significa para ele - só pude dar risada.


Angélica é tão apaixonada pelo o que faz quanto eu, mas ao invés de chocolate, eu amo escrever. O contato social a deixa paralisada, o que acaba impedindo seu crescimento profissional assim como os relacionamentos interpessoais; ela chegou a vender chocolates anonimamente para não ter que lidar com os comentários e a inevitável comunicação com os clientes.

O filme trata, enfim, sobre as dificuldades que ambos sofrem ao enfrentarem as relações. Jean-René, na terapia, recebe um exercício onde deve convidar alguém para jantar, e claro que sua opção é Angélica. No restaurante, cada um mudo em seu desconforto, me pergunto por qual motivo não falaram de chocolate; mas compreendo perfeitamente a confusão que uma mente aflita provoca. Não é fácil conviver com as armadilhas do pânico somadas a falta de traquejo. Nosso corpo entra em estado de emergência, como se estivesse sendo bombardeado ou ao menos anunciando a sirene de alerta. Qualquer sinal de que o mundo nos cobrará uma atitude é o suficiente para paralisarmos. Falo disto assim, com tanta certeza, porque convivo com tal instabilidade emocional desde que me entendo por gente.

É um complexo, uma síndrome, problema ou doença - não importa como a ciência prefere denominar - muito triste, pois mutila nossa vida e abrevia a existência. Deixamos de viver muitos momentos, novas descobertas e experiências por puro medo. De quê? Tudo. A imagem que publiquei logo acima é uma frase que o pai de Jean-René costumava dizer, justo por sofrer deste medo difuso. Pensamos deste jeito: é melhor nada nos acontecer, ao invés de lidarmos com as consequências. Escondemos a paixão, o amor, a alegria e todos os sentimentos por detrás do pânico de saborear o ato de ser normal. Na reunião dos Românticos Anônimos é possível ouvir o relato dos participantes e impossível não se identificar. Somos medrosos ao ponto de dizer "Ufa!" ao término de coisas que seriam maravilhosas, caso acontecessem, só por não estarmos aptos a experimentar o desconhecido.


Com cenas inusitadas e um amor incomum, Românticos Anônimos me cativou desde o dia em que vi o trailer pela primeira vez. Em idioma francês, com a temática do chocolate e belos cenários, o filme conseguiu conquistar quatro estrelas - sou chata para caramba, eu sei. Foi a primeira comédia romântica europeia que assisti, e confesso que não é lá muito apropriado dar este estilo à obra porque remete ao besteirol americano (que deveria ser proibido conforme alguma lei do bom gosto). É sensível, engraçado, mas senti falta de alguns detalhes. Talvez eu tenha gostado tanto, que nem 2hrs de filme seriam o suficiente para me satisfazer (o tempo é de 1hr e pouquinho). O final, que eu não vou contar (calma!), não poderia ter sido mais adorável; do tipo que arranca um sorriso bobo no canto da boca! No mais, a mensagem é clara e direta: não tenha medo de se afogar, pelo contrário, mergulhe!