É o que mais as pessoas perguntam para mim: "Por que você gosta de circo?" Na verdade, eu não entendo muito bem essa dúvida já que, para mim, é o mesmo que gostar de Beatles ou Renoir. Eu sei, é incomum descobrir alguém que goste tanto de uma coisa tão... como posso dizer? Comum. O circo passa batido por muitas pessoas. Algumas nem se lembram da existência dele ou acham que está extinto desde o século 19. Tenho colegas que acham brega, outros rídiculo e ainda aqueles que tem medo de palhaços. Nada disso me tira do sério porque não sou do tipo que defende as predileções com unhas e dentes. Não acho que todo o mundo deveria voltar a atenção para o circo, pois entendo que compreendê-lo é coisa para poucos (ou para os dispostos). Por outro lado, sinto falta de ter com quem compartilhar as conversas sobre o assunto, por isso, vou tentar explicar por qual motivo, razão, causa e circunstância gosto tanto da arte circense.
Tentar explicar porque o motivo é complexo até para mim. Não existe uma explicação sucinta, que deixaria todos satisfeitos. São vários fatores ocorridos através do tempo, desde minha infância, que foram amadurecendo e se cultivando dentro de mim. Começou, mais precisamente, quando vi um outdoor promovendo o Cirque du Soleil no Brasil. Lembro se como fosse ontem, eu no carro dos meus pais olhando para fora e lendo tudo o que aparecia na minha frente. De repente, vejo um anúncio enorme do espetáculo Alegría, que se instalou em São Paulo para uma temporada. Fiquei imediatamente encatada pelas cores, e depois, pelo circo. Em seguida, não podendo ir ao Cirque du Soleil por causa do preço, meu pai me levou a um mais simples, modesto, que teria a apresentação da Eliana, se não me engano. Se me perguntarem como foi a apresentação, não vou conseguir respondê-los; eu não me lembro de nada. A única coisa que ficou na minha memória foi a tenda, os trailers e a parte de trás do campo onde a companhia estava. Naquele dia eu soube que o meu lugar sempre seria ali.
Eu gosto muito de comparar a logística circense com a vida em geral. Após tantos anos fazendo isso, é impossível separar um do outro. Por fora, na superfície, existe a beleza, o encantamento, a facilidade em confrontar o perigo. Por dentro, profundamente, há a verdade ofuscada pelo brilho dos olhos, o feio, o difícil, o trabalho árduo e não recompensado. Existem os palhaços, os equilibristas. Um dos meus exercícios preferidos é convencer as pessoas que de fato vivemos em um circo! Basta observar.
Outro fator, mais complexo ainda, é o amor que nasceu comigo. Eu sempre carreguei essa paixão circense, só precisei da minha primeira visita ao circo para descobri-la. Era como se eu estivesse voltando para casa - aquela sensação gostosa de chegar ao lar e ser recebida pela energia e pelos cheiros reconfortantes. Por mais que eu me esforce, fora da tenda me sinto deslocada e incomodada. Tem sempre algo errado, até eu adentrar uma companhia circense e tudo dissipar se como nunca tivesse existido. "É coisa de alma", como diz minha mãe. Inexplicável para muitos, perfeitamente compreensível para os espíritas. Não que eu seja do Espiritismo, na verdade, não sou de ninguém, mas há muitas coisas nessa doutrina que são as únicas capazes de me dar explicações. Assim como a Maria Fumaça em exposição no Memorial do Imigrante, que me arranca lágrimas antes mesmo de eu perceber que estou querendo chorar. Ou o Mercado Municipal que abraça meu coração de uma forma que nenhum ser humano consegue imitar. O circo, que me recebe de braços abertos como a mãe que deixei sozinha em outra vida, e morre de saudades.
Pois é, não existe a explicação. Infelizmente, apesar de tentar, meu coração não fala. As palpitações dele, sinto muito, ainda não consigo traduzir de todo. Eu adoraria poder abrir os olhos das pessoas e dizer: "Olhe, veja, sinta!" Mas estas sensações pertencem a mim. São lindas, emocionantes, e só minhas. O circo desperta cada pedaço meu, até mesmo aqueles que eu nem sabia existir, acorda o lado emocional do meu coração e adormece o meu racional. Eu gosto de circo porque é nele que eu me sinto completa e capaz de tudo. Até de viver, no sentido lato da palavra. Eu gosto de circo porque é impossível não me render a gentileza dos artistas, as cores, sabores, aromas e ao esforço que essa gente itinerante se presta só para levar a arte até as pessoas. Gosto porque nele existe a pluralidade, como diria Fernando Anitelli, existem as possibilidades sem fronteiras, o sonho sem o medo, o medo com amor, o amor repleto de paixão. Este texto está longe de terminar...
Eu gosto porque eu sou o circo.












