22 de janeiro de 2013

Do verbo ecoar

Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.
— Felicidade Clandestina, Clarice Lispector
Ultimamente, minha vida tem sido uma mistura destemperada de encomendas, livros e filmes. Nada de escrever. Abro o bloco de notas, nada. Acho que o problema está no programa a ser usado, então abro o Word. Nada. Invento passeios, histórias, inspirações. Nada. Nessa melancolia que não passa, eu me pergunto aflita: o que falta? A resposta é tão simples quanto angustiante: Nada.

O ser humano tem essa urgência, essa obrigação em se sentir feliz. "Você tem que ser feliz!" eles brandam. Nosso objetivo deve ser a felicidade, seja através de sucesso, dinheiro, pessoas, objetos. Seja por cima dos outros ou da própria vontade. Eu nunca li um livro a respeito de alguém que queria ser triste, ou ao menos livre para escolher. Não, todo mundo quer ser feliz independente do caminho a ser seguido. Só que ninguém consegue. Não o tempo todo. Então vem essa carência sem nome nem procedência nos perturbar e causar insônia. Porque de um lado, nós temos a obrigação. Do outro, a pura impossibilidade.

Foi pensando nisso que travei.

A partir do momento que você não vê razão na busca pela felicidade, ou nela mesma, a escrita se torna supérflua. Tudo ao redor é o acumulo do desnecessário - o blog, a profissão, os textos, os motivos. Para que e por que aparecem cada vez mais no seu vocabulário, assim, sem convite. A falta de respostas para essas perguntas só faz o vazio aumentar. Não hã nada pior do que um homem sem respostas. Ele pode conviver com a morte e enfrentá-la de peito aberto, mas cairá doente na cama ao não encontrar a explicação correta.

Quisera eu usar do clichê me tranquei à sete chaves, mas a verdade é que estou mais aberta do que nunca. Por isso tanto rancor - não me ocorre nada. Estou pronta e disponível, estou aqui. Sozinha. Eu escrevo e de minhas mãos sai o eco: "você está se repetindo". Sou uma réplica, e isso me aborrece. Das tantas cópias de mim, nenhuma é a felicidade que o mundo procura. No fim, é triste admitir, mas não estou aqui. Estou perdida em outro lugar.

9 comentários:

Nati disse...

Quem sabe tu começa a tentar escrever direto no blogger, a inspiração flui mais, pelo menos pra mim... Beijos

Mari Mari disse...

Essa obrigação pela felicidade é mesmo angustiante, mas é aí que eu, como sua colega escritora, entro, te dando o conselho mais sem noção que você já ouviu: O que te falta é justamente isso: tristeza. Melancolia. Porque, infelizmente, não se tira poesia da felicidade. Arte é dor.

Camila disse...

Essa obrigação que o mundo impõe... e não só pela felicidade.
Estava esses dias me irritando com a mania de me obrigarem a fazer tudo como o resto do mundo faz, do quanto me cobram por coisas que eu nem pretendo fazer. Caramba!

Concordo com a colega aqui de cima, meus momentos de tristeza e raiva são os que mais me inspiram a escrever alguma coisa - porcaria na maioria das vezes - mas... Espero que você encontre um sentido, e quem sabe você não se inspira e acaba escrevendo um livro inédito sobre alguém que quer ser triste. Ia ser hilário!

Monique disse...

Foi o que vinha me acontecendo até ontem. Você não precisa escrever. Quando finalmente concluí isso, um peso desceu das minhas costas. Fique tranquila, a inspiração dará a volta ao mundo, mas ela voltará pra você.

Um beijo.

Maiara disse...

Não é com alegria que admito que me sinto tão assim ultimamente. Tento, e tenho mudado a aparência do blog com uma certa frequência, tola que sou, acho que se eu o ver de outra forma, com outra cara, eu vou conseguir, eu vou escrever como nunca. Mas a realidade ri de mim e de minha fingida ingenuidade, porque no fundo sei, a culpa não é do blog, é minha, sou eu que estou sei lá o quê, num sei lá onde.

Fabiana C. disse...

Agora que você falou, também nunca li um livro de alguém que queria ser triste ou fracassado. É uma idéia engraçada e interessante, pois o clichê universal é buscar sempre sempre a felicidade e sucesso. Acho que estou mais ou menos no mesmo lugar que você, com perguntas demais e cada vez percebendo menos o sentido das coisas.


Ana Flávia Sousa disse...

Sofro desse mal constantemente. Sinto que preciso escrever, mas não consigo. Daí, quando essa "obrigação" é esquecida, a inspiração vem que é uma beleza.
Essa danada gosta de exclusividade. Não gosta de pressão e ama umas férias sem data pra voltar.
Não se preocupe Del, que a sua tá logo aí.

Beijão.

Luísa Chaves disse...

Gente do céu, que texto maravilhoso!

Quantas vezes já não me senti exatamente assim? É tão doloroso ficar em busca da felicidade e acabar falhando as vezes... Nos últimos meses estou lidando diferente em relação à isso. Sugo tudo de melhor que a felicidade, a tristeza ou o mediano tem a oferecer.

Quando estou feliz faço milhões de coisas e me mantenho ocupada. Quando estou triste escrevo e sofro (sofrer é bom as vezes, faz parte). E nos momentos medianos é só uma questão de tempo para haver alguma instabilidade. Mas a vida é assim e isso torna ela mais interessante de se viver!

Incertezas, por mais que incomodem, trazem a graça para a nossa vida. A busca por elas é um tanto quanto animadora (pelo menos, é o que eu acho).

Adorei o texto!

Beijos :*

Blank Space disse...

Isso. Tudo isso.
Bjs

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