26 de fevereiro de 2013

Crônicas de um bairro qualquer

Ontem fui para a varanda de casa e fiquei olhando para a rua. Era noite, estava tudo vazio com excessão de alguns latidos vindos das casas. Eu faço isso normalmente quando não estou com inspiração para escrever, observo o bairro quase adormecido. Não digo que funciona, fico mais nostálgica do que pronta para terminar um best-seller, mas é um hobbie que não perde a graça. Noite passada, pensando melhor no lugar onde estou morando atualmente, cheguei a conclusão (óbvia) de fatos que, se não servirem para mudar suas vidas, ao menos manterão o Bonjour Circus atualizado; e a memória guardada.

#1 O meu vizinho da frente fez uma reforma na fachada da casa dele. Pintou o muro de laranja-abóbora-indefinido e trocou o portão, que é capaz de impedir curiosos, inibir bandidos e amortecer meteóros russos. Ele também instalou um interfone com câmera. Assim, coisa de condomínio fechado. O que deveria ter resumido o ato de tocar, atender e entrar em 1min. no máximo provou ser um gasto desnecessário e uma demonstração exagerada de boa fé para com o entusiasmo das visitas. O pessoal chega e sequer dá atenção para a tecnologia do anfitrião. Eles batem palmas. Gritam. Buzinam. "Ô FULANAAAARGHH"! O cachorro da Ô Fulana, dona da casa, começa a latir. O papagaio começa a gritar desnorteado: "Vai choveeer"! E por causa de toda essa barulheira os moradores não conseguem ouvir que alguém está os chamando no portão. É um mistério, o jeito como as pessoas funcionam. Ou deixam de funcionar.

#2 A vizinha da rua de baixo começou um "negócio" de venda de móveis usados e outros cacarecos. Minha mãe se tornou a melhor amiga de infância dela logo no início e a minha mesa preferida desde sempre saiu da loja dessa senhora. Acontece que no começo ela não cobrava mais do que R$70 por uma mesa vintage de madeira pura, quase nova, apenas com poucos arranhões e marcas do tempo. Verdadeiras relíquias eram vendidas a preço de banana e nós aqui em casa aproveitamos enquanto pudemos. Sim, porque agora parece que a senhora finalmente descobriu o tesouro que tem nas mãos e o preço subiu absurdamente. A rua fica no meio do nada, só a minha mãe conhece o valor que aqueles móveis tem, mas a mulher está firme e forte na decisão de cobrar um preço "justo". Quem vai comprá-los, eu não sei.

#3 Os vizinhos aqui ao lado são figurinhas marcadas no Bonjour Circus. O puxadinho, que rendeu um terceiro andar no sobrado da família, ficou pronto e o casal se mudou para ele. Agora eles vivem ali; quase casados, quase felizes, quase acreditando nessa loucura despudorada que não tem chances de dar certo. Imagine um carro com oito bois desgovernado ladeira abaixo: essa é a mãe do garoto, sogra da menina que se mudou para cá. Ela grita o dia inteiro e fez da escada que dá para o terceiro andar, um telefone. "Fulaninha, 'cê vai almoçá? Tem mistura aqui, 'cê qué"? Mistura. Que expressão infeliz. "Fulaninha, tem lixo hoje. 'Cê colocou lá na rua? 'Cêis não querem assistir tv aqui embaixo, filho? Traz a Fulaninha"! É assim o dia inteiro e parte da noite. Ela não deixa o casal em paz. Mas parando para pensar, um homem e uma mulher que querem se juntar e aceitam esse tipo de moradia dos pais, não estão procurando por paz mesmo.

7 comentários:

L.H.C disse...

eu simplesmente consigo imaginar todas essas pessoas, ahaha, que comédia da vida privada! Cara, mistura é uma expressão muito engraçada, isso me lembra que eu tenho que escrever um post sobre a vida no self service, onde a mistura é protagonista.

Pablo disse...

Aaah, aqui na minha rua não tem casas pra olhar! Moro de frente a uma avenida e os vizinhos de frente ficam à pelo menos 300 metros de distância, quase não dá pra ver. Vira e mexe eu também faço isso tarde da noite, mas é só pra ver carros e imaginar onde eles podem estar indo a essa hora. Sempre tive esse tipo de curiosidade! :)

Israel Bonfim disse...

Tudo verdade! Mas será mesmo que alguém tem algum vizinho que não encha o saco?
Meus vizinhos da frente escutam polka paraguaia o dia inteiro! (moro no ms, infelizmente!).

Dea Carvalho disse...

O que é mistura? Tipo, eu sei o que é, genericamente falando, mas essa mistura aí, especificamente, o que é? O___o

Andreia disse...

Parece que há vizinhos de todo o tipo aí. O mais engraçado é o do casal. A sogra deve arranjar cada desculpa para os chatear.

Eu moro num bairro, mas é bastante tranquilo. Mal se houve um único barulho. Dx

Thay disse...

Crônicas de um bairro qualquer é um mega nome de livro, Del! E fui lendo e querendo mais desse mundo visto por seus olhos. Daria contos legais, hein? Mas faço coro à Dea Carvalho: o que é mistura?!
Beijo!

Mia Sodré disse...

Em uma frase: deveria existir uma lei que proibisse pessoas que moram perto de outras de pintarem seus muros/casas de laranja, afinal, quando o sol bate num muro laranja... pobres olhos.
hahaha

Beijo!

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