7 de fevereiro de 2013

Uma piada sem graça

A vida existe para ser costurada pela linha tênue do que nos prende aqui. Ser artista é sofrer duas vezes, pois fazer arte dentro da arte é chorar uma lágrima a mais. Aprendi que a tristeza é como uma locomotiva - uma enorme máquina incontrolável e em alta velocidade difícil de ser parada e impossível de nos deixar sair. Linda, imponente e de muitos é a namorada. O apito anuncia sua chegada e o coração esfria, fica morno, pacato... Entre o silêncio e o resfolegar da máquina há tempo somente de piscar e pronto, somos inundados por uma onda salgada.

Então me deu vontade de escrever assim, sem compromisso. Pois dizem que são estes os melhores desabafos; os que saem de trás das árvores quando todos se cansaram de procurar e entraram em casa. Uma conversa livre e sem propósito só poderia ter a bondade de nos parecer simpática. Portanto, escrevo despretensiosamente que aprendi, e ponto final. Estamos na vida para isso e nada além. É a finalidade do tombo. O objetivo do tapa. A intenção do empurro. Se passamos por aqui e não levamos nada, voltamos para recuperar a bagagem e o tempo perdido.

É nessa bagagem que a dona tristeza se acomoda, novamente. Bagagem de mão, pesada e espaçosa. É no colo que ela viaja. Companheira tagarela, do tipo que suga as energias positivas e deixa de troco as negativas. O corpo pesa. O sacolejar do trem cansa. Todas as estradas se tornam longas, intermináveis. O vento da janela é quente como o sol cru dos Alpes. As cinzas da Maria Fumaça pingam e esburacam a roupa. Nossa imagem fica pálida, nossa pessoa desaparece. Uma bebida amarga é servida e sobe rápido para a cabeça vazia. A vida, de repente, é bela e nos esquecemos do quanto apanhamos, do quanto a tristeza nos golpeou para trair o sono do tédio.

O som dos trilhos castigados pela viagem são abafados pelas risadas escandalosas de quem faz desgraça da própria bagagem. Rimos do quê? Da ausência. É uma garota tão engraçada! Branquinha e miúda na voz, sussurra causos incríveis de bobos muito parecidos com nós, os passageiros dessa infinita tristeza aprisionada em ferro e fogo. Antes, solitária em meu compartimento privado, não dava ouvidos para as bobagens da garota jocosa. Mas, ah... Que belo convencimento ela nos trabalha! Após trinta minutos de conversa, não soube mais como viver sem sua companhia. Viciante, se ofereceu até para carregar minha bagagem de mão. Aprendi que depositar nosso peso em outrem é libertador, mas não nos torna livres dele. Em meio ao trem gelado, envolta por pessoas superficialmente felizes, me disseram que a importância não se importa.

Aprendi que se não fizermos piada, a vida não ri.

9 comentários:

Dea Carvalho disse...

Obrigada, Del.

Flá Costa * disse...

nossa, Del. de verdade, sem comentários.

que puta texto!

Camila disse...

Na vida é ótimo sermos leves e rirmos das situações difíceis :)

Pri Bragança disse...

Amei. :*

Rick disse...

Sempre vi a vida como esse tal trem. Que segue desesperadamente e nunca permanece parado, nunca para nas estações certas, e vive constantemente deixando nossas companhias em lugarem diferentes dos nossos, por que na verdade, quase ninguém tem o mesmo destino que a gente...

E o erro talvez esteja no fato de levarmos tudo tão a serio. A vida não ri porque a gente não se faz de palhaço de vez em quando. Porque a gente não para pra olhar da janela que a vida está ali, aqui, e nem sempre pede pressa. Tudo ocorre no seu devido tempo. E gente aqui se preocupando com o que vai ser quando crescer...

Vamos fazer piada, ainda que não tenha muita graça, com o tempo a gente convence essa tal vida a colocar as coisas em seu devido lugar.

Boa noite, "_"

Blank Space disse...

Gostei muito, muito mesmo, desse texto. Você está escrevendo cada vez melhor :)
Beijos

L.H.C disse...

Delzinha, se alguma vez na sua vida duvidar que é uma escritora de verdade, leia um texto desse, sua linda, você ainda consegue me surpreender, nem sei o que comentar, você é ótima no que faz :D

Monique disse...

A tristeza é vício, quase. E o desafio é saber levar mesmo com a moça ao nosso lado, porque nem sempre livrar-se dela é possível ou é a solução.

Beijo, menina.

Pablo disse...

Que lindo!
"depositar nosso peso em outrem é libertador, mas não nos torna livres dele"

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