9 de março de 2013

Das expectativas

O meu aniversário de 26 anos está chegando e com ele um carro de boi carregado de latas fazendo um barulho ensurdecedor. O casal de bois balança seus traseiros na rua de terra esburacada, mascam a vida tranquilos, e a bagagem anuncia os problemas do 4 de junho de 2013.

Eu estava bem preocupada ano passado com os meus 25 anos recém completados. Sozinha, eu me cobrava a falta de sucesso profissional, a falta de aliança dourada no dedo, a falta de posses materiais. Aquele frio na barriga me atingiu assim como o fez com as gerações anteriores e fará com as próximas. É um ciclo. O que eu não sabia, e ninguém se deu ao trabalho de me informar, é que o frio na barriga seria coletivo a partir dos 26 anos. Se antes eu me incomodava com uma pedra no sapato, hoje me vejo obrigada a lidar com uma pedreirada em plena atividade.

As pessoas tentam ser discretas. No fundo, há uma memória que os aconselha a não perguntar nada - uma memória empoeirada, que quando esquecida, faz com que os adultos pensem que nunca foram jovens. Mas essas pessoas ignoram os sinais, não veem mal algum em perguntar algo tão inocente e apenas por curiosidade. Então, o bombardeamento começa: "E o namoro, não vai vingar"? Antes, ninguém se contentava com a minha solteirice. Agora, ninguém está satisfeito com o status do meu relacionamento. "E o trabalho, já consegue se sustentar"? "Não faz bem para a mulher ter filhos muito tarde, é bom aproveitar os vinte e poucos anos para não ter problemas sérios de saúde". Na minha humilde opinião, nesta descartável teoria de bueiro, isso é medo de ver o país envelhecer.

Estou cada vez mais chegando à beira dos 30 anos e ainda não tenho um marido, uma casa própria, um emprego "seguro" (seja lá o que signifique) e para assombro da sociedade não estou interessada em obter nenhuma dessas coisas. A única coisa que almejo, por enquanto, é minha autonomia. Sei que é querer demais, e que antes seria mais fácil atingir o Eike Batista na lista de bilionários, mas estou cansada de ver outras pessoas decidindo o que é melhor para mim de acordo com minha idade fisiológica. Não, não é um manifesto feminista porque também estou de saco cheio disso. Não sou obrigada a aderir um grupo, seita, clã ou ideal para saber que sou mulher, e ainda assim, humana. Existe uma certa pressão em ser feminina até mesmo no feminismo.

Para ser sincera, eu não estava preparada para descobrir que há todo um leque de tipos diferentes de pressões. Aos poucos, conforme meu aniversário se aproxima, é a mãe, a sogra, os parentes, os mais velhos, todos em geral, me atingindo com armas das quais não aprendi a me defender. Perguntas como "e os bebês, quando começam a chegar?" tomam o lugar das antigas "e os estudos"? Tudo bem, se as pessoas estivessem desavisadas, mas elas sabem. A sociedade sabe que não somos máquinas programadas para procriar e produzir. As mulheres, principalmente, que já passaram por esses constrangimentos - elas sabem que existe o tempo certo e que outros se intrometendo estão mais fazendo uma guerra psicológica do que puxando assunto. O que falta, então, para voltarem a começar uma conversa comigo comentando sobre o clima?

10 comentários:

Thay disse...

Del, nem preciso dizer que me identifiquei, preciso? E sempre me lembro do que você comentou lá no blog naquele meu post em que eu coloquei pra fora toda a pressão que sentia. As coisas que os costumes sociais impõem às mulheres...! É muita crueldade! Parece que deixamos de ter poder sobre nossas escolhas para atender as expectativas de todos: temos que ser a esposa, a mãe, a bem sucedida no emprego, magra e feliz. E alguém parou para nos perguntar se queremos seguir toda essa receita? Será que não temos outros horizontes pra seguir? Ai, Del, em pleno 2013 somos tão presas quanto em 1800 e qualquer coisa.

Lara disse...

Também vou fazer 26 esse ano, e as cobranças são com a tal da estabilidade:

"Daqui a pouco você tá com trinta e ainda vai demorar pra conseguir se aposentar"

Acho que em breve chego na parte dos filhos.

manie disse...

caraca, me identifiquei, e olha que tenho 18 ainda heim
também fico meio pra lá com essas coisas de 'emprego seguro', sei lá... eu arranjei algo relativamente estável, mas é só por enquanto, sabe, to curtindo os momentos, cada fase da vida...
não me vejo fazendo a mesma coisa toda a vida, muito menos por 8h por dia, deus me livre...

também não quero casa própria, nem carro na garagem, nem uma família enorme, nem casar... quero ficar assim, com a pessoa que estou hoje, e pronto, sem mais problemas/burocracias... PAZ!

Lara disse...

Ah, sim... não tive a tal "crise dos 25". Na verdade, considero como a idade do meu renascimento. Coisas muito boas aconteceram, me tornei uma pessoa melhor e mais feliz com a vida.

Minha única crise foi com a profissão que escolhi. Mas aí é outra história e já decidi seguir novos rumos.

Janaina Barreto disse...

Eu acho, Del, que as pessoas fazem essas perguntas não porque querem saber (é claro que não querem, quem quer?!) e sim pra desviar o olhar da própria vida... Mas é incômodo, né? A gente está bem como está mas ai começa a sentir incômodo com as perguntas. E nesse ponto eu já começo a me questionar se eu estou mesmo indo pelo caminho errado, porque eu sou assim mesmo: estou bem até que alguém jogue a sementinha, fazer o quê... E isso tudo pra quê? Só pra encher o saco mesmo, afinal, ninguém devia ter nada a ver com a vida de ninguém, né.

Beijo!

Andreia disse...

Ah, elas não querem saber se já tens ou não um 'emprego seguro' (tu até poderias estar a morrer de fome que muita pouca gente se importaria com isso) ou se vais casar - com um homem maravilhoso de preferência!. O que elas querem saber é se a tua vida é mais miserável que a delas.

Como elas nunca tiveram - ou por circunstancias da vida - a opurtunidade de concretrizar os sonhos delas, acham-se no direito de se certeficar que os outros sejam tão ou mais infelizes que elas. Pelo menos aqui no bairro onde vivo é assim; é o que dá sentir uma inveja medonha dos outros.

Eu não tenho um emprego 'seguro', mas tenho um namorado maravilhoso. (Que ele não leia isto porque eu o trato como se não fosse. de qualquer forma que pensar de alguém que é capaz de pedir outra pessoa em casamente mas que não o consegue pedi-la em namoro...? -.-)

Enfim.. Del, o (melhor) conselho que te posso é que vivas as tua viva da maneira que te faça feliz. Se os outros não gostam que não estejas casada, o problema é delas.

L.H.C disse...

Ai Del, eu detesto as pessoas fazendo esse tipo de pergunta, cá pra nós, tenho uma amiga dos tempos de escola que mora ainda na minha cidade, a gente não se fala muito desde que eu me mudei, mas quando acontece, ela só sabe perguntar "já casou?", cara, isso me deixa irritada e triste ao mesmo tempo, estou cansada de pessoas associarem a felicidade ao fato de ter um relacionamento com outrem. Enfim, acredito que não importa a idade que a gente tem, a sociedade sempre vai exigir algo mais de nós.

Pablo disse...

Ai, Del... sabe, na minha família quando cheguei perto dos 20, muitos me pressionavam com "e a namorada?" eu simplesmente respondia, "ah, são muitas" como uma forma de encerrar o assunto. Depois de um tempo, acho que o povo começou à perceber minha feição fecal e parou de me encher, mas temo que logo arranjem outra forma de me pressionar. Acho que isso é comum em toda família, só vai da forma como a gente lida com isso.
Eu não ligo pro que dizem, sabe... tento viver bem comigo mesmo da minha maneira, o resto que se dane. :P
Boa sorte aí!

Larissa L. disse...

"estou cansada de ver outras pessoas decidindo o que é melhor para mim de acordo com minha idade fisiológica"

enquanto lia, ia pensando "e eu com quase 25, querendo um marido e uma casa, principalmente um emprego e muito longe disso tudo aí!" acho que se a gente deseja realmente as coisas que a sociedade impôs em algum momento, tudo bem... mas se a gente vai contra a maré é muito difícil mesmo...! ainda mais porque família e agregados não costumam lidar muito bem com contestações do padrão, o que é extremamente triste pra eles e para nós que só queremos viver da nossa forma...!

luta árdua viu..!
beijo enorme!

Renata Cristina disse...

Deve ser por isso que depois que as pessoas crescem, sempre dizem que era melhor quando eram crianças. Eu entendo o que você está passando e concordo que você queira sua autonomia, afinal, a vida é sua! As pessoas precisam aprender a respeitar os limites alheios.
No mais, tente não se importar muito e continue o seu caminho... Ele vai ser lindo no final, com ou sem o que a sociedade quer impor.
Beijos

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