18 de março de 2013

O Azarão - Markus Zusak


Eu estava prestes a me aventurar pelo mundo dos livros em idioma inglês para conhecer, finalmente, do que se tratava as três primeiras obras de Markus Zusak: The Underdog, When Dogs Cry e Fighting Ruben Wolfe. A trilogia não foi traduzida para o português do Brasil, diziam os boatos, porque o autor recusou o contrato. Então fiquei na vontade. Vocês sabem como sou fã do Zusak e devem imaginar o quão foi difícil ficar na curiosidade. Foi quando comecei a procurar algum ebook em inglês para download que a editora Bertrand anunciou o lançamento da tradução! O que me fez pensar: "que mané o autor não quis lançar seus livros no Brasil, é a Intrínseca que ficou com preguiça"! Ou seja, não foi recusa, não foi falta de tempo e o cachorro não comeu a lição de casa de ninguém. De repente, não mais que de repente, a Bertrand se tornou minha editora favorita e, o que começou com o Cinquenta Tons de Cinza, terminou com a displicência da Intrínseca.

Mamãe me obrigou a acompanhá-la no shopping para trocar um presente do qual ela não gostou. Fui com uma tromba na fuça porque detesto ir ao shopping sem minha verba mensal para dar uma passada na livraria. É uma experiência pela qual meu espírito não suporta passar. Mas fui. Chegando lá, após perder horas preciosas do meu tempo (ocioso), sou surpreendida por um convite para ir à... Saraiva! Mamãe queria comprar um livro de bolso para-não-sei-quem. A primeira coisa que fiz ao entrar na livraria foi óbvia: interceptei uma vendedora. "Boa tarde, 'cê tem o livro O Azarão, do Markus Zusak"? A garota nunca tinha ouvido falar e sequer sabia escrever o nome do autor. Ok, eu ignorei e persisti. Era a minha única chance. Depois de uma hora (que minha paciência aumentou para uns quinze anos), ela me entregou um exemplar novinho em mãos. Daí para frente, foi só fazer cara de depressiva e mamãe comprou.

Cameron Wolfe é um menino sujo e selvagem. Ele e seu irmão mais velho, Rube Wolfe, são os dois personagens centrais do livro. Para quem conheceu Zusak com "A Menina que Roubava Livros" vai achar que a espera para ler "O Azarão" não valeu a pena. É um romance curtíssimo, sem clímax nem sombra do estilo com o qual estamos acostumados. Para mim, que sou otimista, as particularidades estavam presentes assim como o jeito humorado dos protagonistas de Zusak narrarem a própria vida. Como os assaltos mau sucedidos dos irmãos Rube e Cameron, o cheiro dos cogumelos que a mãe deles cozinha todas as noites e só descem goela abaixo com muito molho de tomate ou os diálogos sucintos cheios de ironia. Às vezes me perguntam por que gosto de Markus Zusak. É por isso:
Joguei (a almofada) de volta para ele, que a devolveu para o lugar onde estava. Esse era o Rube. A almofada fedia, ele sabia que fedia e estava preocupado com isso. Queria conversar sobre o assunto, mas uma coisa era certa: de jeito nenhum ele ia lavar a almofada. Voltando para o canto do sofá, ela ficou lá, fedendo. Eu ainda poderia sentir o cheiro dela agora, mas só porque o Rube tinha chamado a atenção. Provavelmente, era a minha imaginação. Obrigado, Rube.
Pode parecer (e é) um diálogo sem sentido para muitas pessoas, mas eu não consegui parar de rir por um bom minuto. O meu senso de humor é um tanto excêntrico. Não acho graça na maioria das coisas engraçadas de hoje, porém dou risada com o mais inesperado. Markus Zusak nunca errou. Ele sempre sabe me fazer rir. Não sei explicar; acho que é o sarcasmo subentendido.

O livro me fez lembrar do Ed Kennedy (do livro "Eu Sou o Mensageiro"). Cameron Wolfe é um cara perdido, sem lugar no mundo, que está apaixonado por uma garota que ele julga ser impossível de conquistar. Resumindo, ele se acha uma merda, um lixo, como também se achava o Ed. Ambos tem vários pontos em comum e fico me perguntando se "O Azarão" não foi o passo inicial para o manuscrito de "Eu Sou o Mensageiro". O primeiro não me fez rir tanto quanto o segundo, mas é visível que um acabou por inspirar o seguinte. Cameron, assim como Ed, é o tipo de cara que se apaixona daquela forma bonita. Não sei vocês - eu acho complicado encontrar um livro onde o homem saiba gostar de uma mulher. Ou é adocicado demais, ou submisso demais, ou mala demais.
Algumas vezes, eu pensava nela nua, mas nunca durante muito tempo. Não queria ela só para isso. Sério. Eu queria encontrar o local de onde vinha a voz dela. Era isso que queria. Queria ser bom para ela. Queria agradá-la, e suplicava para isso acontecer.
Como não suspirar? Além disso, Cameron reza pedindo proteção para as pessoas que conhece. É um projeto de marginal, vive seguindo o irmão mais velho que tem uma ideia pior do que a outra, no entanto volte e meia pára e se pergunta se é realmente tão ruim assim, ou se há algo de bom nele, e ainda ora por aqueles que não estão nem um pouco preocupados com seu bem estar - é o traço de bondade que Markus Zusak acredita existir em todas as pessoas. E eu também. Cada capítulo é encerrado com a narrativa de um sonho que Cameron teve. Os meus favoritos, de longe, foram o sonho com a velhinha russa dentro do ônibus e o Azarão que luta sozinho contra o mundo. Num, Cameron está congelando dentro de um ônibus na Rússia e não consegue levantar quando uma idosa se aproxima para sentar no lugar reservado a ela. No outro, ele se aproxima de uma multidão que urra e cerca um garoto que luta sozinho no círculo formado pela plateia - "ele está lutando contra o mundo"! Diz um dos espectadores.

"O Azarão" pode não ser um dos melhores livros de Markus Zusak, mas sendo uma trilogia, prefiro não tirar conclusões precipitadas. Mesmo assim foi uma história que conseguiu me fazer parar de ler para rir e cujos sonhos do protagonista me fizeram pensar em algumas coisas. Se você ainda não conhece o autor, não comece por este livro, inicie com os best-sellers que mostram um Zusak mais maduro! Mas se você já o conhece, O Azarão mostrará uma inocência de iniciante que o fará compreender as raízes dele.

5 comentários:

Gleanne Rodrigues disse...

Vontade infinita. Apenas isso. *-*

Gabi disse...

Primeiro: que coisa mais linda teu layout *suspiros*
Nunca li nenhum livro do Markus mas tenho muita vontade de ler "A menina que roubava livros".
Gostei bastante da tua resenha, fiquei interessada pelo livro.

Del, fiz um questionário no blog para saber o perfil dos leitores e opinião sobre o blog em geral. Se tu puder responder, eu agradeço muito :D
Aliás, obrigada por me avisar sobre os campos de identificação dos comentários, não tinha testado em outros navegadores mas mesmo assim pensei que tava ok u.u
Beijos

Luciana Brito disse...

Agora pronto, fiquei com ainda mais vontade de ler esse livro. Já estava curiosa por ser do Zusak, mas agora que tu comparou com "Eu Sou o Mensageiro", não tem como resistir, pois amei esse livro.

Preciso comprar!

E ei, teu layout ficou lindo, adorei!
Beijo!

Décio disse...

http://abibliotecaderaquel.blogfolha.uol.com.br/2013/01/05/painel-das-letras-best-seller-azarado/

Marcus Zusak, autor do best-seller “A Menina que Roubava Livros” (Intrínseca), não ficou feliz com a publicação em novembro, pela Bertrand Brasil, de seu romance “O Azarão”. “É desapontador ter assinado para meus dois primeiros livros [‘O Azarão’ e ‘Bons de Briga’, que sai em breve pela Bertrand] um contrato que não me dava o direito de interferir em quem os publicaria em outros países. Eu me culpo por ter sido jovem e ter ficado feliz por ser editado”, disse à Folha.

A australiana Scholastic negociou os dois títulos com a Bertrand em maio. Em agosto, informou ter recebido oferta mais alta da Intrínseca, editora que Zusak diz ser “sua favorita em todo o mundo”. A Bertrand se recusou a voltar atrás. Alegou que o contrato já estava fechado.

Blank Space disse...

Que bom que você conseguiu encontrar!
Ele realmente amadureceu muito como escritor, mas eu ainda consigo enxergar nesse primeiro livro um pouco do "estilo" dele. Achei o segundo livro (Getting the girl) melhor que esse primeiro, os pequenos textos que o Cameron escreve são ótimos.
Enfim, só sei que não agüento mais de vontade de ler o livro novo dele, mas sabe-se lá quando ele vai terminar de escrever... :/
Beijos

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