7 de março de 2013

Um texto para ser lido usando boia de braço

Antes de começar o texto propriamente dito, eu gostaria de dizer que o David Foster Wallace é um cara foda e que só não fiz uma resenha sobre o livro dele porque fiquei com preguiça.

Sempre associei o oceano com pavor e morte. Quando criança eu costumava decorar todo tipo de informação sobre mortes causadas por tubarões. Não apenas ataques: mortes. (...) E hoje, quando dou aulas, sempre apresento o assustador “O bote” de Crane e fico muito transtornado quando a garotada acha o conto chato ou meramente aventuresco: quero que sintam o mesmo pavor medular do oceano que sempre senti, a intuição do mar como o nada primordial, sem fundo, profundezas habitadas por coisas gargalhantes cravejadas de dentes avançando até você na velocidade de uma pena caindo.
— Ficando Longe do Fato de já Estar Meio que Longe de Tudo, D. F. Wallace
Eu nunca gostei de mar. Quero dizer, nunca gostei do alto mar. Sabe aquelas boias que ficam oscilando com as ondas? Acho que se chamam "boias de balizamento". Como a maioria dos meus medos, esse também não tem explicação, mas eu entro em pânico quando vejo uma; seja em vídeo, foto ou pessoalmente. Não gosto. Elas me deixam nervosa. São corpos estranhos boiando numa água sem fundo e balançam se como aquilo não tivesse o menor problema, se como nenhum polvo gigante fosse emergir para engoli-las. Fico me imaginando presa numa delas, após um náufrago, sem eira nem beira com o mar agitado ao redor.


Mas para fazer menos sentido ainda, digo que adoro praia. Veja bem, o meu problema não é com a natureza em si, mas com a sua profundidade. Eu não sei o que acontece lá no fundo e prefiro continuar na ignorância. Alto mar é coisa para marinheiro, e ponto final. Não a toa ele vive nos jogando para fora, numa clara demonstração de desagrado com nossa presença. O termo "repuxo", aliás, deveria ser a prova de que estamos lidando com um psicopata. Buracos, tsunamis, tudo isso é um alerta de que não somos bem vindos. Das duas, uma: ou vocês são muito desatentos, ou gostam de brincar com o perigo.

Quando eu era pequena, escorreguei dos braços do meu pai e fui parar debaixo de uma onda. Aos dez anos, meu professor de natação deixou que eu me afogasse ao se distrair com alguma beleza dentro de um maiô. Aos doze anos fui atacada por um siri e quase sofri queimaduras de uma água-viva também (não recomendo Ubatuba; além de chover muito, está infestada de animais extraterrestres). Assim que Deus disse: "Que se faça a luz!", o capeta logo apareceu com um advogado e reclamou a sua parte. Papai do céu o empurrou para o fundo do mar e lá se estabeleceu a criação daquele-que-não-se-menciona-o-nome. Não preciso de argumentos! Além de tudo isso, existe ainda a problemática da tripofobia (dá um google) fazendo de Fernando de Noronha um lugar indesejável.

Vocês nunca leram Pinóquio? Moby Dick? Nunca assistiram Piratas do Caribe? Titanic? Poseidon?! A menos que você seja uma personagem de Clarice Lispector vivendo no livro dos prazeres, não há desculpas para querer entrar no mar. Todos os indícios apontam para um homicídio doloso. A cena do crime, exposta a modificações externas sem as fitas de isolamento, infelizmente não pode provar meu ponto de vista, mas basta meia hora de conversa com um bombeiro ou um salva-vidas. Entretanto, se mesmo após esse alerta você continua apaixonado pela água salgada, profunda e cruel, ao menos certifique-se de que pode tocar os pés no fundo. E não faça como eu, que gritou feito uma doente mental para a praia inteira ouvir ao ter algas enroscadas nos tornozelos. Se o mar não suporta você naturalmente, imagine com escândalos.

6 comentários:

Andreia disse...

"Veja bem, o meu problema não é com a natureza em si, mas com a sua profundidade. Eu não sei o que acontece lá no fundo e prefiro continuar na ignorância." [2]

Eu confesso que não és a unica que tem medo de oceano. No meu caso, tenho desculpa: as cobras sabem nada.

Lido bem com tubarões e até os amigáveis (?) crocodilos, mas só de pensar em ter um encontro debaixo do mar com alguma delas é o suficiente para eu querer ficar bem longe do mar. x_x (Acho que tem alguma coisa com o facto de uma vez ter ido ao circo e alguém me ter posto uma cobra ao pescoço. Desde então nunca mais conseguir gostar do circo. Dx #sorry)

Acho que o medo é algo sem explicação, visto que é irracional. só o superamos mesmo quando o enfrentamos. Mas é fácil dizer, o difícil é fazê-lo. ._.

Beijokas

Gabi disse...

Não gosto dos bichos... a água eu não vejo tanto problema - a menos que você saiba nadar muito bem - mas o meu maior problema são com bichos estranhos e nojentos.
De qualquer forma, sempre mantenho distância de praias. Não pelo fato de ter ~nojo/medo~ de entrar na água, mas pq eu não vejo a diversão e tal... prefiro ficar caminhando na areia, molhando os pés, quem sabe.

Renata Cristina disse...

Eu nunca tinha pensado nesse assunto tão... profundamente. Haha Mas confesso que, apesar de quando pequena achar que seria bióloga marinha, tenho um medo danado desse "vazio" que não temos controle no mar. Você ta mais que certa em ter medo e não confiar; maluco é quem confia demais!
Beijos

Jana disse...

Oi, Del! ^^
Eu também gosto de praia, mas morro de medo do mar... Ele é traiçoeiro, numa hora você está aqui, depois ali... Sem contar no animais marinhos que eu também tenho pavor.

Essa do polvo na boia também já imaginei. rs
Medo número dois: sereias (lembrei por causa de piratas do caribe).

Beijos!

Mia Sodré disse...

Eu não gosto de praia mas gosto de mar. Só que nunca havia pensado que quando você se joga ao mar está, na verdade, se jogando no lar de seres *do mal* que estão prestes a te pegar. Deu uma aflição agora.
Se eu já tenho problemas com animais em terra firme, que o fará no mar! Prevejo um bom receio vindo.

Kissu!

Thay disse...

Não sou uma das maiores fãs de praia, mas gosto da sensação do mar. Gosto de olhar e molhar os pés, mas somente isso. Não me peça pra ficar tostando na areia ou pra me aventurar no meio das ondas, não o faço de jeito nenhum! E agora você ainda me colocou o pavor de que entrando no mar estou entrando é num buraco perigoso e que um kraken vai vir me buscar e me levar para as profundezas! D:

Lembro de um episódio, ainda criança, em que meu pai me deixou sentada na beirada da praia. Com baldinho e pá ficamos montando um monte indefinido, pode chamar de castelinho se quiser. No que veio uma onda ela trouxe um peixe bizarro (!) e eu, nanica de biquini de babados, saí correndo o mais rápido que minhas pernas podiam. Fiquei tão apavorada com aquele peixe se debatendo nas minhas pernas que durante todo o período que ficamos na praia, não cheguei perto do mar. #mimimi

Depois de compartilhar minha tragédia, me despeço! Beijo!

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