16 de maio de 2013

O Céu dos Suicidas (Ricardo Lísias)


Religião é um assunto muito complicado para mim. Até hoje não encontrei uma que me representasse por completo ou me fizesse sentir em casa ao entrar numa igreja/templo/seja o que for. Não tenho propensão a ser um cordeiro guiado por um velhinho de barba branca que carrega um cajado; dizem que é o mal dos inteligentes (deve ser piada). Até mesmo no Espiritismo, que andei pesquisando nos últimos meses, encontro coisas que não condizem com a minha forma de pensar. Talvez o problema esteja comigo, você deve estar achando. Nunca saberemos. Enquanto a verdade não aparece, eu fico em cima do muro.

“O Céu dos Suicidas” trata sobre o suicídio do amigo de Ricardo, o protagonista que leva o mesmo nome do autor (brega), um colecionador ou ex-colecionador, melhor dizendo, que acaba pirando com o enforcamento de André. O cara perde uns parafusos segundo a visão do autor, mas eu prefiro achar (assim como a mãe dele) que o único problema é a falta de umas boas palmadas para recolocá-lo nos eixos; é uma opinião que dá pano para a manga. Ricardo tenta seguir com sua vida após a morte de André, trabalhando como consultor de colecionadores já que as suas coleções foram desfeitas ao longo dos anós. Essa é a parte mais legal: suas explicações a respeito de filatelia, que coleções ele organiza e como é o trabalho de um colecionador de verdade.

O problema é que Ricardo dá umas surtadas de vez enquando, xinga pessoas através de emails mal educados ou sai pelas ruas correndo e gritando com as vistas escurecidas. Ele está conversando normalmente com um padre, por exemplo, e de repente começa a mandar o bom velinho “pedófilo” a tomar no cu. São trechos que dão nos nervos e no fim das contas não fazem grandes diferenças no enredo em geral, já que o tratamento dele não é exposto ao leitor. Ricardo chega a visitar um psiquiatra, dá tempo de xingá-lo também, mas nada além disso. O foco principal é a morte de seu amigo e a péssima maneira com que ele escolhei para contornar o problema.
Sentei-me em um dos bancos mais afastados do púlpito e em dois minutos caí no sono. Aos poucos, meu corpo foi se curvando até que acabei deitado. Não sei quanto tempo fiquei dormindo. De repente, senti que, bem de leve, a mão de alguém tentava me erguer. Com o pouco dos olhos que consegui abrir, reparei que um senhor muito idoso estava me colocando ajoelhado.
— É desse jeito, meu filho.
O livro levanta uma questão que me incomoda há bastante tempo: o suicídio do ponto de vista das religiões. Apesar de achar que o autor poderia ter trabalhado melhor no assunto e aberto uma discussão mais proveitosa pós-leitura, as cento e poucas páginas conseguiram provar que Ricardo Lísias (ambos, autor e personagem) tem uma visão parecida com a minha - preferimos não acreditar na punião cruel que sofrem aqueles que se mataram. Eu, particularmente, acredito em um Deus plenamente misericordioso incapaz de fazer qualquer espírito sofrer os horrores impostos pelas religiões. Ricardo chega a citar a visão espírita diante do suicídio e só pude concordar com ele: é difícil de reproduzir aqui o que eles acham ser a realidade post mortem.

Eu acredito ser desumano condenarmos um ser humano que não pode mais se defender por culpa de um último ato de desespero. Além de não ter recebido ajuda em vida, o pobre coitado suicida ainda deve lidar com uma condenação absurda e a recusa de serviços religiosos fúnebres; não somente ele é castigado como sua família sofre em dobro uma morte que poderia ser consolada. Veja, por exemplo, os casos mais conhecidos como Virginia Woolf, Florbela Espanca e Sylvia Plath. Por que mulheres inteligentes, que deixaram no mundo obras maravilhosas e fizeram o bem para muitos leitores, mereceriam o inferno ou seja o lugar que for após se matarem?
Quando a neta chegou, três enfermeiras estavam justamente tentando fazer a avó andar um pouco. Agarrada à boneca, ela conseguiu se levantar. Então, uma enfermeira explicou: — Vovó, coloca um pé à frente. — Mas ela não sabe o que é pé. Outra enfermeira se agachou e empurrou o pé esquerdo da avó. A neta, que tinha ido até lá porque jamais deixaria a avó sozinha, nesse momento encostou o rosto no ombro do André e os dois colocaram para fora a maior dor do mundo. Atrás, quatro ou cinco internos, todos com uma mania maluca ou alguma coisa errada na cabeça, também estavam olhando, sem saber se amparavam a neta e o André ou ajudavam as enfermeiras com a vovó. Essas pessoas, senhor Deus, merecem ir para o céu, mesmo que acabem se matando.
“O Céu dos Suicidas” tem valor por levantar uma questão ignorada pela sociedade, trazer como tema paralelo as coleções que também não tem muito espaço no Brasil, mas peca na simplicidade com que o enredo é construído e acaba varrendo ótimos argumentos para debaixo do tapete; assim como o mundo varre os cordeiros problemáticos para debaixo da terra.

3 comentários:

Jonathan H. disse...

Eu acredito que Deus não é religioso e que a religião tem como objetivo – ou deveria ter - aproximar o ser humano de seu Criador. Mas, infelizmente, não é o que acontece nos dias de hoje.
Acho complicado falar temas como esse. Eu cresci num lar cristão com a ideia de que os suicidas não seriam salvos. É triste pensar dessa forma porque uma pessoa que tira sua própria vida não deveria estar bem. Ninguém se auto entristece. Ninguém tira de sim mesmo a razão de viver.
Eu penso que não cabe a nós julgarmos, pois Deus conhece nosso coração melhor do que ninguém.
Não conhecia o livro, mas pena que o autor não soube aproveitar o material que tinha.

Abraços,

Dea Carvalho disse...

São dois assuntos difíceis estes. Religião e suícidio geram mais polêmicas que mamilos.
Eu fugi da igreja católica aos nove anos, antes da primeira comunhão, chocando a família. Eu não pude com a hipocrisia das senhorinhas que iam comungar e ao mesmo tempo falar mal das roupas dos outros. Paquerei o budismo, mas aos 17 comecei a frequentar o centro-espírita. Até que durou bastante, uns 10 anos, mas também não consigo aceitar tudo. Aliás, em se tratando de religião, não há perfeição. Toda religião teve conceitos formulados por seres humanos, daí a possibilidade de falha. Minha vida caminha de uma forma que flerto com o ateísmo. Hoje me considero agnóstica, ou o ateu cagão, como costumam falar.
Já o assunto suicídio, devo admitir que flerto com ele desde sempre.
Por um período em minha vida achei já ter superado a idéia, mas não. A idéia está aqui e não sei se um dia irá se concretizar.
Você citou algumas de minhas heroínas. Aliás, eu sofro do mesmo mal de Virginia Woolf. Ela tinha neurastenia, o que a impedia de continuar produzindo e congelava a sua vida. A nomenclatura moderna para neurastenia é fibromialgia e os índices de suicídio entre os portadores é crescente... enfim, eu preferia ter um pouco do talento dela, mas sabe como é...
Eu não sei bem o que pretendia a escrever um jornal nos comentários, mas pra falar a verdade, eu deixei o impulso comandar.

Já disse escrito por você eu compraria até rima de amor com flor escrito no papel de pão, né?

Beijo, Del.

Paloma disse...

Eu sou Espírita, Del, mas algumas coisas eu interpreto do meu próprio jeito - no fim das contas, ninguém que esteja aqui pra interpretar é o dono da razão, e quem está por aqui só pode interpretar e não ter certeza.

Na questão do suicídio, o que o espiritismo fala não é uma punição de Deus nem nada. Deus nunca pune ninguém. O sofrimento que costuma vir depois vem das próprias pessoas. O que vem depois da morte é um mundo todo "de pensamento", e é por isso que eles sofrem: tanto pelo próprio sofrimento que levou ao sicídio, quanto pelo remorso que eles sentem por esse ato ao se deparar com o que tem do outro lado.

Não sei se expliquei direito. De qualquer forma, é o que eu entendo. A parte boa é que sempre tem alguém para ajudar, e todos acabamos enxergando isso uma hora e "saindo do buraco". Sofrimento é uma parte do caminho, a quantidade/intensidade depende de nós.

Eu sempre fui espírita, e tudo isso faz muito sentido para mim. Talvez não faça para outras pessoas.

Nunca li esse livro que você comentou. Mas um sobre o tema que eu realmente tenho vontade de ler é "Diário de um Suicida". Só que dizem que é bem pesado.

Beijos!

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