23 de junho de 2013

Este texto não foi escrito

Hoje é domingo pé de cachimbo e por lei deveríamos todos estar descansando nossas mãos calejadas e nossos pulmões infectados por ar condicionados limpados pela última vez em 1996. Não sou eu que digo, foi Deus que mandou. Pelo menos é o que proclamam os cristãos, mas como não sou leitora assídua da Bíblia, confio no meu ouvido de papagaio de pirata. E eu não faço a menor ideia do que pretendo com este texto. Acho que o fato de estar sem internet em pleno domingão chuvoso contribuiu para o meu impulso de abrir o bloco de notas e reclamar. Também acabei de assistir um filme francês de quase duas horas sobre uma mocinha que aprende a digitar rápido e participa de campeonatos; fora ela ser a Audrey Hepburn cagada e cuspida, o diretor desse filme precisaria urgentemente começar a tomar Prozac e devolver a minha 1hr e os meus 48min.

Como ia dizendo, deveríamos estar descansando. Eu e o meu ego, quero dizer. Não eu e vocês. Dos outros, infelizmente, não tenho tempo para cuidar. Infelizmente porque eu sei que seria uma excelente life coaching. Gosto dessa filosofia (é uma filosofia?) de que os problemas parecem mais fáceis para quem os enxerga do lado de fora. É uma canalhice tão grande, que me apaixona! Mas enfim, o assunto é descansar - este verbo gostoso o qual não estou acionando no momento. Vocês devem ter reparado que os pensamentos estão fluindo rápidos, estou trocando de assunto com a mesma velocidade de um cavalo que mija em campo aberto. O barulho chega a ser o mesmo. O alívio também. Por exemplo, agora é a décima vez (sem exageros, eu anotei) que o telefone toca e interrompe uma atividade minha. Tocou enquanto eu cozinhava meu almoço, tocou enquanto eu almoçava, tocou enquanto eu lavava a louça e tocou naquela hora imprópria em que estamos com as mãos cheias de espuma. Eu não gosto de telefones. Eles me lembram os humanos.

Por que uma pessoa como eu escreveria sobre descanso? Por que, afinal de contas, qualquer um neste planeta escreveria sobre isso ao invés de simplesmente deitar e dormir? Descansar é melhor do que escrever sobre a possibilidade, frustrada ou não, de descansar. Só que acontece o seguinte: se você não é uma criança e/ou consegue respirar sem a ajuda de aparelhos, as pessoas se sentem obrigadas a ocupar seu tempo. Nós nos sentimos obrigados, aliás, a muitas coisas. A fazer sentido, por exemplo. Todo mundo tem que fazer sentido; seja batendo a lateral da mão na testa ou praticando a coerência. Se você grita a palavra CU, assim bem alto CU!, no meio de uma conversa civilizada tem grandes chances de ser banido do convívio social. É uma dica para quando você quiser se afastar de alguém insuportável. Grite cu.

Que nem outro dia: um cara resolveu buzinar na frente da minha casa, do outro lado da rua, porque ele é ele. As pessoas são elas mesmas, fazer o quê? Parece que existe qualquer menção sobre liberdade na nossa constituição e uma única palavrinha fode uma vida inteira. Daí que ele escolheu justo o dia que eu escolhi para ficar na cama um pouquinho mais. E ele buzinava, sentava o dedo no brinquedinho novo já que sentar o dedo numa mulher deve ser impossível. O que que eu fiz? Eu abri a janela. Abri a janela e gritei, não cu, mas: “A buzina não coube no cu, seu bosta?” Se estivéssemos em um conto de fadas, talvez ele seria um funkeiro que, beijado, se transformasse no meu príncipe encantado. Talvez ele tivesse parado e me comprado um buquê de rosas vermelhas para se desculpar. Talvez um passarinho viesse à minha janela para cantar Mozart e abafar o som da buzina. Acontece que ele não parou porque estamos aqui, fodidos, e continuou buzinando porque a) não me ouviu ou b) me ouviu e o recalque bateu, a bicha é vingativa. Nunca saberemos.

Esse último parágrafo deveria estar nas Crônicas de um Bairro Qualquer.

Quer saber a verdade? Não existe texto. Não existe descanso. Isso foi tudo um fruto da sua imaginação. Eu não existo. Você não leu nada disso. A vida é um erro. Nós nos enganamos, precisamos admitir de uma vez por todas. Esse telefone tocando hoje pela décima primeira vez é uma alegoria de Matrix; não preciso me preocupar verdadeiramente com ele. O meu pai me enchendo os pacovás é só um grão de areia no tempo. Eu nem preciso mandá-lo para puta que o pariu, e transferir à puta essa maldição, porque a coitada sofreria a toa. É tudo passageiro. Pelo menos estou sob efeito dos meus remédios, o que me impede de gritar cu, CU!, na cara de certas pessoas. Bom, não sei até onde ganho ou perco, para ser sincera. Só sei que está tudo bem. Eu não estou nervosa. Não estou prestes a explodir em mil pedaços e matar todos ao redor com meus estilhaços.

Logo, para que domingo?

6 comentários:

sobrefatalismos disse...

Domingo inválido esse.
Descanso falso.
Abraços.

Jessica Moraes disse...

haha muito bom! "Eu não gosto de telefones. Eles me lembram os humanos." (mais um membro para essa comunidade).

e, bem, vou tentar descansar minha mente agora, que está terminando o domingo e até agora não fiz isso =/

Manie disse...

hahahahahahahaha "ar condicionados limpados pela última vez em 1996"
há tanto tempo venho aqui e há tanto tempo amo aqui.
eu tenho a impressão que vi o trailer desse filme, mas não assisti ainda.

nem me fala de telefone... na sexta eu tava na vibe de dormir até tarde, mas o telefone/interfone tocou umas 5 vezes e eu não consegui dormir continuamente (nem preciso dizer que acordei com um humor deliciooooooso)
eu gosto de ouvir a voz de quem eu gosto no telefone, saber novidades, enfim, mas atender telefone pra outra pessoa é MUITO chato. cê corre a casa inteira (e olha que o meu apê é um cubo de pequeno, ultrapassa os obstáculos (sutiã jogado no chão, brinquedo do cachorro que faz um 'nhé' monstruoso quando cê pisa, etc) e atende na esperança de todo o esforço valer a pena, mas tudo o que cê diz é: ele não tá agora, quer deixar recado?


ah, ps: boa ideia, vou gritar cu mais vezes no dia-a-dia p/ uma vida mais saúde.

Pedro Oller disse...

Admiro o humor e a sutileza com que você se expressa. Gostaria de saber escrever com mais humor, ironia, sarcasmo; e seu texto me inspira.

livroseoutrasfelicidades disse...

Que os humanos que queiram contato com vocês estejam bem avisados para não tentar nada num domingo! rsrs

Unknown disse...

Apenas sensacional esse texto.
Fez-me rir alto aqui.
Espero que tenha te ajudado a se acalmar e descansar.
Se é que era essa a sua função.
;)

Aline (little-doll-house.com)

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