1 de julho de 2013

A Livraria 24 Horas do Mr. Penumbra (Robin Sloan)


Vocês sabem: eu não leio sinopses. Sei que deveria, afinal, lá está uma grande dica do que se trata o livro, não é mesmo? Mas é uma mania, um vício difícil de evitar. Eu olho a capa, analiso o título, levo para casa. É por essas e outras que normalmente dou apenas uma, se muito duas estrelas para cada livro que termino. É uma burrice sem tamanho. Concordo com você! Há pessoas que não leem resenhas antes de terminar sua leitura, outras cheiram livros como a primeira coisa sacra a se fazer após a compra - eu não leio sinopses porque gosto de surpresas. É claro que se tratando apenas de lançamentos ou obras pouco conhecidas já que com os clássicos não é preciso temer. Bem, são clássicos... Daí que resolvi fazer um tipo de reabilitação e fiz uma experiência: li a sinopse de “A Livraria 24 Horas do Mr. Penumbra” no Skoob. E ela diz que:
A recessão econômica obriga Clay Jannon, um web-designer desempregado, a aceitar trabalho em uma livraria 24 horas. A livraria do Mr. Penumbra — um homenzinho estranho com cara de gnomo. Tão singular quanto seu proprietário é a livraria onde só um pequeno grupo de clientes aparece. E sempre que aparece é para se enfurnar, junto do proprietário, nos cantos mais obscuros da loja, e apreciar um misterioso conjunto de livros a que Clay Jannon foi proibido de ler. Mas Jannon é curioso...
Gostei muito do título: uma livraria que não fecha nunca comandada por um idoso misterioso. Achei linda a capa: uma livraria velha, obscura. Fiquei contente por ter lido a sinopse, pois isso me deu a certeza de que adoraria a leitura: uma livraria, outra vez porque esse fato é importantíssimo, cujos clientes são estranhos, talvez membros de alguma seita, que proporcionarão aventuras do barulho. É, ler sinopses pode ser libertador - eu pensei. Agarrei o livro como se fosse um novo Markus Zusak surgindo do lodo e mergulhei de cabeça.

Só que a história não é nada disso.

Quando cheguei para lá da metade do livro, resolvi ler algumas resenhas porque olha: em que roubada eu me meti dessa vez? Foi então que descobri que esta foi uma péssima tradução da sinopse e ninguém sabe o que aconteceu. Foi um sinal. Ainda não sei se um sinal de que irei me enganar e me dar mal qualquer que seja minha intenção, ou um sinal de que não é para eu ler sinopses porque esse meu jeito mongoloide é o que liga. Só sei que fui ludibriada mais uma vez pelo mercado editorial.

Quer dizer, a sinopse não mentiu a respeito da livraria, do moço de profissão duvidosa, do velho e de seus clientes estranhos. Eles estão lá, mas perdidos entre parágrafos e mais parágrafos de um narrador que só faz falar do Google e do quão perfeita essa empresa é. Tenho para mim que sua namorada é apenas um holograma, uma amiga imaginária, uma desculpa para que ele mencione o Google a cada três linhas. “Os funcionários do Google andando de bicicleta, os containers do Google, a comida servida no Google, minha namorada - que vale ressaltar um milhão de vezes - trabalha no Google, o esgoto do Google que cheira a rosas”, e por aí vai. Pensei em desistir antes mesmo da história esquentar e fazer de conta que nada aconteceu, mas me lembrei daquela promessa de não abandonar nenhum livro em 2013.

Maldita seja.
Olho para o outro lado da Quinta Avenida, onde Kat e Neel estão parados, olhando para nós dois e à nossa espera. Kat (a namorada) acena.
— Ela trabalha no Google.
— A Livraria 24 horas do Mr. Penumbra, Robin Sloan
Tirando isso, que deveria ser o suficiente para eu abandonar o livro não fosse minha promessa estúpida, o livro trata sim de uma livraria misteriosa. Infelizmente, é com pesar que lhes revelo que não passa de um degrau, um contexto para que o escritor tente nos convencer de que o mundo logo, logo será movido por máquinas e que sem ter percebido entramos em uma guerra entre o mercado digital e o impresso e o Google é o único que poderá nos salvar. Cara, é só isso. Eu juro para vocês. O enigma da “sociedade secreta” é tão superficial, que quando cheguei a resolução do caso, parei de ler, pisquei os olhos e reli para ter certeza de que fui guiada para algo que poderia ter sido explicado há 200 páginas atrás.

E eu nem vou mencionar que o nome do autor fictício de “As Crônicas da Balada do Dragão” muda misteriosamente de Clay para Charles e depois Clark; o jeito com que Jannon e seu amigo tratam a história se como fosse um RPG, intercalando com cenas destas tais crônicas, só deixa a coisa mais ridícula. Tão ridícula, que em determinada altura começo uma leitura dinâmica porque não sou obrigada. Sabe, para mim chega. Uma hora cansei de ler sobre o Google e como ele monopoliza o pensamento e as atitudes das pessoas, de como ele é na verdade o mocinho da história e o narrador apenas um nerd (dos mais alienados) querendo reverenciá-lo enquanto a namorada, os amigos, o dono da livraria e todo o “mistério” (pfff) flutuam livres da gravidade em um universo paralelo. Suas tiradas humorísticas simplesmente não funcionam e o uso de onomatopeias foi o único enigma verdadeiro nessa merda toda.


Finalizando: não é um livro de fantasia com um enredo que gira em torno de uma livraria que poderia facilmente entrar na disputa das mais desejadas pelo mundo real dos leitores. É sobre um designer falando em coisas ténicas, bajulando o Google, que conquista um relacionamento amoroso do nada e transforma a aventura do barulho pela qual eu esperava em uma terrível, terrível experiência. Na minha humilde opinião, da próxima vez que quiser um emprego no Google, senhor Sloan, mande um currículo ao invés de escrever um livro!

4 comentários:

L.H.C disse...

Já eu sempre leio a sinopse, e agora tô com mania de procurar umas resenhas pelo skoob para ver o que o pessoa tá pensando. Mas uma coisa é fato, as sinopses são tristemente feita, parece que por alguém que sequer leu o livro.
Ai, Del, acho que a gente precisa repensar essa coisa de não abandonar nenhum livro, isso pode começar a nos prejudicar, sério, ahaha, eu terminei de ler um chatíssimo, por puro orgulho.

livroseoutrasfelicidades disse...

Aaaaah, quase compro este livro, achei o título super intrigante - e pelo visto, só o título, não?

Dasty-Sama disse...

Caraca, eu também quase fui convencida pela sinopse. Topei com esse livro no skoob e até devo ter adicionado no "Vou ler". Obrigada por avisar pela furada de modo franco. Antes de comprar um livro eu leio várias resenhas, para ver as mais diversas opiniões. Mesmo assim, meio que sempre acabo lendo algum livro independente de ser bom ou ruim. Tenho mania de querer ter minhas próprias opiniões haha

Lola disse...

Meodeos. Essa livraria tinha tudo, eu penso que TU-DÔ, para ser o local exato para uma história de mistério e fantasia. Eu também sou levada por capas e títulos, mas leio as sinopses e partes do livro antes de leva-lo, porque ás vezes sinopses não dizem nada do que eu quero saber sobre o livro.

Se bem que eu comprei 2 livros outro dia pela capa e porque ouvi um burburinho sobre o autor dele.

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