23 de julho de 2013

Ainda morro disso

Nos meus tenros quinze anos fiz uma listinha mórbida do que poderia me matar e em quais circunstâncias de novela mexicana eu me encontraria na hora do óbito. Volte e meia eu reclamava: “Ainda morro disso”, como se estivesse no alto dos oitenta anos de idade sofrendo dos nervos. Bom, dos nervos sempre sofri, mas convenhamos que aos quinze anos eu estava mais propícia a morrer de amor ou pisoteada num show dos Backstreet Boys. Todavia, o drama é um gênero muito bem interpretado por mim e tenho orgulho (ao menos) disso. Não pense que com a idade fui ficando madura e deixando essas bobagens para lá. Não, senhor. Os capítulos seguem:

1. Banho
Não que eu vá morrer de banho. Afogada. Eletrocutada. Intoxicada por shampoo. O mais provável é que eu morra cozida. Sou adepta dos banhos quentes, daqueles em que não se enxerga nada entre o fog do banheiro. Até reconheço que às vezes está quente demais, mas cabeça dura que sou, faço vista grossa para as minhas mãos avermelhadas e minhas costas que penicam debaixo da água fervida. Cabeça dura ou preguiçosa de ir lá mudar a temperatura, ainda não sei. Só existe um problema: os cabelos. Os friorentos também tem seus limites. Lavar o cabelo, no inverno principalmente, é um dilema. Consigo deixar a temperatura da água agradável para o corpo (assim, em torno de 70°), mas fica impossível molhar a cabeça. Então começa a dúvida: fico careca por causa da água quente ou por causa da oleosidade do couro cabeludo?

2. Leitura
Eu leio demais. Passei um bom tempo longe dos livros e agora não consigo largá-los. Às vezes leio de 130 a 180 páginas por dia e quando finalmente paro para descansar tenho a impressão de ter a cabeça mergulhada num aquário. Olho para o relógio e me assusto com a quantidade de horas que fiquei perdida na história, completamente alheia ao meu redor. Sim, há exageros na literatura. Enquanto uns abusam na compra de livros no mais puro consumismo e montam pilhas de títulos que nunca irão tocar, eu tento ler em tempo recorde para realizar o sonho de conhecer todos os autores interessantes ainda nesta vida. Dá dor de cabeça, os olhos cansam e embaralham letrinhas, mas em certos momentos sinto vontade de fazer só isso e mais nada. Acho que estou viciada.

3. O peixe morre pela boca
Sou vegetariana, natureba e sustentável. Na teoria. É, assim tudo funciona. As dietas de segunda-feira estão em pleno trabalho na teoria, a promessa de não comer doces por um ano deu certo na teoria, as pessoas se gostam na teoria. Não é segredo para ninguém, nem para mim que sou a última a saber das coisas, que é preciso viver mais e melhor. Nasci numa época em que era legal fumar e usar produtos cancerígenos, mas ao que tudo indica isso está fora de moda. De repente, depois de estudos e pesquisas complexos, o ser humano descobriu que tem prazo de validade. Então vamos alongar a vida e os músculos. Lindo, né? Eu entrei nessa barca furada. Sem resultados. De um lado, tento ao menos diminuir o consumo de isopor e carne de cavalo. De outro, bebo uma garrafa 600ml por dia e como uma barra de chocolate. Acho que o meu coração nem se dá ao trabalho. Meu corpo é constituído de 80% Coca-Cola e 20% sódio.


4. Bicho-do-matismo
A minha família toda vem de colonos alemães/gaúchos ou famílias humildes do interior paulista. São pessoas acostumadas com o bucolismo rural, gados mascando grama o dia inteiro, o vento varrendo o pasto e sempre que leio algum volume de “O Tempo e o Vento” não posso deixar de pensar que as minhas raízes surgem de algum Terra ou Cambará perdido na árvore genealógica. Chamo isso carinhosamente de bicho-do-matismo, um cacoete crônico que acabou por contaminar o meu DNA. Eu estaria no lucro se fosse apenas introspectiva. E com isso, vivo digladiando com dúvidas sociais do tipo “puxo assunto ou não”. Faz dois anos, por exemplo, que estou em cima do muro tentando decidir se refaço ou não contato com uma determinada amizade perdida nas areias do tempo e na lama da indiferença. Sei, de antemão, que nunca vou chegar a um veredicto porque o melhor mesmo é continuar escondida na toca.

5. Ansiedade
Fui diagnosticada com Transtorno de Ansiedade no início de 2010 e desde então não sou mais a mesma. Não é algo que adquirimos da noite para o dia, como acredita a maior parte das pessoas. Normalmente, esse tipo de problema emocional surge na adolescência e se arrasta ao longo da vida até que seja descoberto e tratado. O problema é que a gente nunca dá atenção aos sinais, que no meu caso surgiram em 2004. Minha vida se resume ao autocontrole. Há crises psicológicas e físicas, há remédios com estranhos efeitos colaterais (do tipo que faz você se esquecer o que está fazendo parada no meio da cozinha) e há também consultas infindáveis com psiquiatras e psicólogos que não querem ver o paciente roendo as unhas, tremendo a perna ou tendo surtos inesperados. Enquanto uns dizem ser frescura, quem sofre disso se vê sozinho diante de um monstro com inúmeras cabeças; se arrancamos uma, logo outra nasce no lugar.

8 comentários:

Elisa Mello disse...

AAAHSUAIHSIUAHSAUIHS adorei cara! Eu também era assim quando mais adolescente e sou até hoje, vivo com medo de morrer com coisas bestas (ou não).
Achei super interessante sua lista huahua
:*

Pri Bragança disse...

Del, adorei o post. Adoro como você escreve. :)

L.H.C disse...

O que você disse sobre leitura - tão eu, rsrs. Eu tenho muito medo de morrer atropelada (que não é exatamente uma coisa boba, né? mas eu sou quase paranoica, toda vez que eu vou atravessar a rua eu imagino que chegou a hora, é hoje que um carro vai passar por cima, acho que isso também é um pouquinho bicho do mato.

Thaís Leocádio disse...

Gostei do texto, Del! hahaha Beijo

Yuu disse...

Olá, Del! Me identifiquei com 70% do seu texto, com um baita destaque nos três últimos. Tá certo que tenho uma certa obsessão com banhos(meu dia não começa quando levanto da cama, mas sim quando entro no chuveiro) e que gosto de ler compulsivamente (apesar da recente preguiça). Mas o meu ser é dependente de Coca desde os 12 meses de idade, e também desde essa época minha mãe notou que eu sou um gato-dentro-do-saco porque não conseguia me comunicar se não fosse atrás de suas pernas. Já a ansiedade atingiu alguns anos depois e virou o mostro que eu carrego nas costas. Enfim... high five?

Thay disse...

Totalmente identificada com o item 2! Sinto exatamente a mesma coisa! Sábado sentei depois do almoço, o mundo correu ao meu redor, larguei o livro às 19h37. Trinta e sete pq eu olhei no relógio e levei o susto. E só consegui ficar esse tempo todo por estar sozinha em casa, caso contrário minha mãe já teria me tirado de minha realidade alternativa. Quando terminei nem tinha olhos mais, haha. D:

Lina disse...

A ansiedade é isso aí, comigo a diferença está em quem se incomoda com o quê. Não são os médicos que apontam meus sinais amsiosos, mas eu não me aguento quando balanço as pernas compulsivamente e tenho uma baita depressão quando. olho pras minhas mãos horríveis de unhas roídas. Adorei seu texto!

Dasty-Sama disse...

Ai, me identifiquei com todos os itens! Menos naquela parte de refrigerante do item 3 porque consegui parar de tomar! Mas ainda estou tentando eliminar os doces, o que será quase impossível. Genteeee, vou pesquisar esse negócio de ansiedade aí.

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