4 de julho de 2013

O dia E

Este post faz parte do desafio 30 Days Writing Challenge criado por Dasty, do blog Spleen Juice. Dia 02: “Escreva sobre algo histórico”.

Esta é a segunda parte do meme 30 Days Writing Challenge e devo confessar que fiquei empacada. Passei dias pesquisando na internet sobre o que escrever. Pensei em falar pelos cotovelos sobre minhas teorias conspiratórias provando que o homem nunca pisou na lua. Cogitei a ideia de prosear sobre os recentes protestos assim, como dois velhinhos jogando dominó na praça, sabe? Até a bandeira nazista hasteada no Rio Grande do Sul entrou em pauta. Porém, acabei deixando de lado. Quase desisti do meme por não conseguir preencher um item (pois é, eu sou esforçada desse jeito). Depois me reanimei, dei mais uma pesquisada, e por fim decidi que a história viria a mim. E ela veio. Eu recebi o sinal.


Semana passada fui ao Banco do Brasil resolver uns pormenores da vida adulta. Não que eu seja cliente, mas o destino me colocou sob a serventia deles. Veja bem, nunca entrei em um banco e saí dele após cinco minutos. Não sei o que andam dizendo por aí, mas seja lá o que for é mentira. O banco é uma dimensão paralela a nossa na qual você entra e se perde. São outras regras, outros tipos de pessoas e comportamentos e lógicas incompreensíveis. Como, por exemplo, a lógica de atendimento especial. Eram dois homens para dez pessoas sendo que ambos saíam de suas mesas a todo instante se como seus glúteos estivessem tomados por formigas africanas. Vinte e cinco minutos após minha entrada, uma senhora resolveu rodar a baiana e “Qualéquiééé”! O subúrbio pode ser divertido às vezes. Mas só às vezes.

Enfim, não quero me estender muito. Chegou a minha vez (quando eu estava crente de que viveria o resto de meus dias sentada naquela cadeira dura). É nessas horas que agradeço por ser capaz de controlar meu instinto assassino. Se eu tivesse reclamado e quebrado metade da agência junto com aquela senhora, o atendente estaria me olhando com olhos furiosos e na hora eu saberia: ele vai transferir todo o meu dinheiro para o Caribe. Fui o mais adorável possível. Fiz minha solicitação, entreguei documentos, etecétera. O atendente digitou, digitou, digitou. De repente, conferindo minha identidade com o que quer que aparecia para ele nas informações do monitor, ele franze o cenho e se confunde.

— Você tem dois homônimos.

Se você é um dos pouquíssimos membros da sociedade secreta “O Nome Completo”, o fato histórico termina aí. Na hora você entenderá do que estou falando e sem dúvidas captará a vibe do momento. Se por acaso você ficou de fora chupando dedo em posição fetal, basta saber que as chances de eu encontrar um homônimo e sofrer a possibilidade de ser confundida são de 0,0000001%. Todavia, existem duas desafortunadas nos dados do Banco do Brasil - o último lugar do mundo onde eu procuraria. Nunca em vinte e seis anos passei pela situação de soletrar meu nome ou solicitar o sobrenome para ter certeza de que se tratava de mim. Sempre funcionou assim: as pessoas travam, olham ao redor, pronunciam a primeira sílaba, começam a suar frio e pronto, imediatamente sei que sou eu. Então, rola o diálogo padrão:

— Que difícil.
— É, eu sei.
— É de onde?
— Alemanha.
— Você é alemã?
— Não, sou neta de alemão.
— É muito diferente...
— É, eu sei.
— Como é que eu posso te chamar?
— Del, por favor.

Acredite em mim, ninguém nunca mudou sequer uma palavra do diálogo padrão até o dia histórico da minha vida. Ao invés de “Que difícil”, o atendente simplesmente soltou um “Você tem dois homônimos” se como esta fosse a coisa que mais escuto. Ele sequer me preparou psicologicamente para a revelação. Ele não perguntou a origem, a pronuncia correta, se sou alemã, quais os nomes do resto da família (para comparação) nem nada que eu estivesse acostumada a responder. Eu tenho homônimos e é isso que interessa para o sistema bancário.

Eu tenho homônimos! E quase fui confundida! Tive que passar por uma certificação, uma segunda checagem, a prova dos nove, uma verificação mais profunda, análises, soletrações. Pela primeira vez na história desse país uma pessoa parou, não porque empacou na segunda sílaba do meu nome, mas porque deveria prestar mais atenção caso, sei lá, passasse um milhão de reais para a minha conta por engano. Pode parecer bobagem para você, que tem um nome comum de gente normal. Para mim foi mais um dia que com certeza contarei aos meus netos.

4 comentários:

Letícia Pacheco disse...

Comecei a rir aqui quando vi "— Você tem dois homônimos." AUHAUHEUAHEA! Meu deus, Del e suas historias... :)

http://dropandoideias.com/

Thay disse...

Ai Del, me identifiquei! E meu nome nem é tão impronunciável assim, é só ver um 'h' e um 'y' na mesma palavra que o povo já fica confuso! Mas nunca encontrei alguém com a grafia exata, só variações. E mesmo assim nunca pessoalmente. Mas, sabe, eu adoro ter nome diferente. <3

Renata Cristina disse...

Olha, realmente é uma história para contar sempre! Hahaha
Beijos

http://reenoceronte.blogspot.com.br

Miih disse...

Gente, fiquei curiosa pra saber qual é o seu nome agora (sim, é a primeira vez que eu entro aqui e talz. Blog lindo, por sinal s2).

Meu nome não é considerado incomum, mas só fui encontrar outra Victoria no terceiro ano e olha que eu estudei em mais de sete escolas diferentes durante o fundamental e médio xDD

Enfim, como eu disse, adorei seu blog e achei ele lindo.
Beijos ;*

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