5 de agosto de 2013

No Meu Peito Não Cabem Pássaros (Nuno Camarneiro)


Eu comecei a ler sinopses, e o que antes era uma reeducação, agora se tornou o estudo de uma teoria da conspiração. Não sei se o problema é com nós, os brasileiros, ou se o mundo está do avesso e chegou numa altura em que dá de ombros e pronto, vai ficar assim mesmo e é o que temos para hoje. Só sei que andei lendo as sinopses de livros por aí e nenhuma, nem uma, condiz com o enredo da obra. “No Meu Peito Não Cabem Pássaros” é mais um caso que vai para os arquivos de minha pesquisa.

Estou lendo a trilogia (de sete livros, oi?) de “O Tempo e o Vento” e no primeiro volume de “O Retrato” se comenta bastante sobre o cometa Halley, que provocou um medo generalizado nas pessoas assim como o fim do mundo em 2012. Quando vi o mesmo cometa ser mencionado na sinopse do livro de Nuno Camarneiro achei uma coincidência providencial - além do ponto de vista dos moradores de Santa Fé, eu também poderia ler mais sobre o assunto na visão desse autor. O título me pareceu filosófico e tinha cara de que prometia suspiros.

Ainda reza a sinopse que os três personagens centrais, Jorge (Buenos Aires), Fernando (Lisboa) e Karl (Nova Iorque) tem mais em comum do que aparentam. E eu fiquei pensando (porque se existe um erro nessa vida é tentar pensar junto com o escritor), que em alguma parte do livro as três histórias se juntariam e tudo faria sentido sob o cometa Halley. O cosmos chegou e disse: “Não foi dessa vez, pequeno gafanhoto”.

Nada enche o poema e essa é a sua força – um poema-gaiola, de varas tensas que fecham um volume vazio.
— No Meu Peito Não Cabem Pássaros, por Nuno Camarneiro

O livro é definido por uma palavra: nada. Não tem nada ali. Comentei no Twitter que é um saco furado cheio de frases de efeito e houve quem concordasse. Todo parágrafo, sem exceção, é uma frase tentando fazer com que você se identifique, adote o escritor e não largue o livro nunca mais. Nuno Camarneiro força a amizade de tal maneira, que lá pela metade eu não aguentava mais! Arreguei. Pedi água. Quase abandonei a leitura não fosse minha promessa da qual me arrependo amargamente. Sim, poesia é linda, frases profundas às vezes tocam a alma. Isso mesmo, às vezes! Um livro inteiro escrito nas entrelinhas, com Camarneiro convencido de que é um poeta e que escreve bem, não pode agradar. O único motivo para a boa avaliação no Skoob são as pessoas facilmente impressionáveis. Mas foram poucos que leram, então tenho esperanças de que a pontuação caia bastante, pois uma obra sobre nada que nos leva a lugar nenhum não tem como ultrapassar dois pontos.

Ah sim, já ia me esquecendo: o cometa Halley tem uma mínima menção nos três capítulos que representam cada personagem para o lado de lá da metade do livro, quase no final. Eu poderia afirmar que não tem nada a ver, mas a oposição argumentaria inveja. Em tempo, há quem diga “é uma história para poucos, você não soube interpretar, é preciso reler com outros olhos, você leu no momento errado, não enxergou a aura do escritor” e mais todo argumento pseudo intelectual proporcionado por comentaristas de portais. A minha resposta a eles é simples: não, são vocês que leram notas de rodapé onde não tem. Fico a imaginar o editor analisando o manuscrito convencido de que se ele não entendeu porra nenhuma, deve ser bom. É sempre assim: basta a aparência do incompreensível para quem não sabe nada se tornar facilmente entendedor de tudo.

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