20 de agosto de 2013

Raízes inconsoláveis

Li um post no Biscoitices que, além de me deixar nostálgica, me fez descobrir que não sou a única sofrendo de depressão pós-viagem. No texto a Rê diz que não se encaixa em São Paulo desde que voltou da Europa, há oito meses atrás. Para quem não sabe, em 2009 morei na Suíça, fiquei um ano em Dornach. Desde que voltei sinto como se estivesse no lugar errado. Não raro, praguejo que a pior decisão da minha vida foi voltar ao invés de ter me instalado de uma vez por todas no centro antroposófico de Rudolf Steiner - um lugar tranquilo e ideal para mim. Ao mesmo tempo me recrimino porque, afinal de contas, sou brasileira. Minha família está aqui, meus amigos, meu namorado, minha vida! Nada me resta do outro lado do oceano a não ser um sonho e saudades.

Antes de viajar eu era uma garota sem expectativa nenhuma. Meu mundo era resumido dentro do quarto e meu dia a dia não ia além de seguir o trajeto casa - trabalho - casa. Então veio minha demissão e depois a proposta de um emprego na Europa. Não pensei duas vezes: empacotei minhas coisas e fui. Percebi que aquela era a única chance que eu teria de tentar me tornar alguém - nem importante, nem melhor, apenas alguém. Sem conhecer ninguém, sem falar o idioma, longe por um ano inteiro num lugar estranho sendo que jamais havia saído sozinha de São Paulo. Tive uma crise de consciência assim que me sentei no avião, mas hoje sei que faria tudo de novo. Aliás, faria de novo e diferente: nunca mais voltaria para o Brasil.

É um sentimento complicado de se explicar. Não se trata de não aguentar os problemas do país e achar que a população não me merece. Acho até um certo preconceito as pessoas recriminarem aqueles que preferem viver no exterior. Para resumir meu ponto de vista: é um patriotismo hipócrita. Enfim, não são os problemas que me repelem. É a minha vontade, pura e simplesmente. Lá, eu vivi coisas legais demais para simplesmente ignorá-las, virar as costas e fazer de conta que ficaram no passado. Pelo contrário, parece tudo tão presente, que fica difícil me desvencilhar da sensação de acolhimento que senti e da autêntica autonomia que experimentei pela primeira vez aos vinte e dois anos de idade.

Dornach é um lugar esplêndido. É uma palavra piegas, porém, a única digna de classificá-lo: esplêndido. Não tem nem metade do que São Paulo oferece, mais parece um ovo de codorna ou uma sociedade separada do planeta por uma bolha, mas foi onde me encontrei. Os apartamentos para solteiros são minúsculos, os produtos são caros, é preciso trens e bondes para chegar às cidades, mas eu me sentia compreendida. Pois é, eu não precisava me explicar, me auto afirmar ou buscar atrativos para aumentar minha baixa autoestima. Tanto o cotidiano quanto minha intimidade surgiam de forma natural. Em um ano acumulei mais histórias do que em vinte anos de vida.


Eu acordava cedo, tomava café da manhã, caminhava com o cachorro. Fazia meu trabalho durante o dia e à tarde saía para passear com a calma que São Paulo não permite. De noite, às vezes em plena madrugada, adentrava a floresta sem medo de ser feliz. Ali eu ficava meditando, ouvindo um bater de asas ou o silêncio palpável da neve caindo. Perdi a conta de vezes que passei em frente de casas com cercas brancas, venezianas coloridas, jardins cheios de rosas e desejei ter aquilo para mim. Não o local em si, mas um lar. Cultivar minhas flores, pintar minhas janelas, pendurar minhas cortinas, morar perto de ruínas medievais. Ter a liberdade de sair de casa a hora que bem quisesse, cumprimentar os transeuntes, recolher os dejetos dos cachorros em prol de um bairro coletivamente limpo, reciclar juntamente com todos meus vizinhos, atravessar a rua sem medo, pois os carros param na faixa de pedestres e não existem semáforos para lembrá-los disso.

São mundos tão diferentes, Dornach e São Paulo, que nem dá para dizer que estou ignorando um e dando preferência ao outro. Com extremidades não se brinca nem se argumento, apenas se respeita. E só fico pensando que, se a Rê do blog Biscoitices não se recuperou do choque após oito meses, imagine eu, que continuo a sentir pontadas no peito mesmo após três anos! Isso me fez entender que, pois é, acho que não tenho cura. A solução (trágica) seria voltar. Mas que árvore remove suas raízes assim, do dia para a noite? Não é uma transição fácil. Leva anos. No entanto, minha alma continua lá. Me esperando.

6 comentários:

Pablo disse...

Gente... quanto tempo não comento aqui! Leio sempre viu, Del. É a falta de tempo mesmo!
Tenho muita vontade e um pouco de medo de viajar assim. Medo de não querer mais voltar. Muita coisa tem me deixado revoltado com o Brasil ultimamente, mas esse negócio de raízes é bem complicado mesmo. Acho que é assim mesmo que me sinto... enraizado numa rotina.
Quem sabe um dia não encontro meu lugar?

Barbara disse...

tenho evitado pensar nisso, porque senti uma depressão tremenda quando voltei da áfrica do sul, em 2009. daí, agora que voltei da argentina, não penso tanto porque já lembrava como era o impacto e não queria sofrer igual, mais uma vez.
só que vira-e-mexe são paulo parece um rolê errado...

Ana Flávia Sousa disse...

A única viagem que fiz pra fora do país foi agora em julho, na minha lua de mel. Fomos pra Buenos Aires, que é quase uma mini Europa em questões arquitetônicas. Cidade linda.
E voltei não querendo voltar.
O choque cultural quando saímos do Brasil é enorme. Há hábitos, climas, lugares e pessoas que parecem nos envolver e convidar a ficar mais e mais.
Como estudante de Arquitetura, o suprasumo dos sonhos de viagem é Europa, mas o medo de querer ficar pra sempre? rs

Te entendo Del, como entendo.

Beijos.

Thay disse...

Nunca saí do Brasil, mas bem sei que sentiria parecido. Vivo aqui e tudo o que me faz viver está aqui, mas sempre fica aquela sensação de que aqui não me encontro 100%, sabe? Não estou completa morando e trabalhando aqui. Pretendo fazer um curso fora em breve, assim que finalizar meu mestrado, e amaria encontrar uma cidade tão amor quanto Dornach. Me encanta saber que existe um lugar em que posso caminhar na rua na hora em que bem entender, aonde as coisas sequem um ritmo mais tranquilo e natural. Quero conhecer cidades grandes, claro, mas fincaria minhas raízes em um lugar tranquilo como Dornach sem dúvidas. (:

Gabriela Neves disse...

acho que o pior de tudo em voltar: é deixar um sentimento lá..

seguindo :)

xx

cabecanasnuvensz.blogspot.com.br

livroseoutrasfelicidades disse...

Como minha mãe me disse uma vez, todo mundo (generalizando) que mora no exterior acaba para sempre dividido entre dois países. Porque aqui é onde moram nossa família, amigos, costumes, língua... E no outro lugar moram as experiências incríveis, liberdade, novos hábitos, em geral um ritmo de vida mais lento...

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