27 de agosto de 2013

Um fato

Então tem sido assim: acordo às 6:30, vou para o hospital e volto para casa às 16:30 ou 17hrs. Almoço num barzinho suspeito, volto para o quarto onde meu pai está internado e faço de conta que é muito legal ler um ebook pelo celular (sério, que experiência terrível ler desse jeito). Dou banho nele - um homem de 1,80 de altura, 90 quilos, 73 anos. Passo o dia correndo atrás de enfermeiras pedindo para religarem o monitor, que não pára de apitar e será jogado janela abaixo caso ninguém tome uma providência, peço também para trocarem curativos, chamarem a nutricionista ou reabastecerem o quarto com álcool em gel porque não tenho imunidade o bastante para sobreviver a um hospital.

Minha mãe fica de acompanhante durante a noite enquanto eu recupero o sono sempre perdido, arrumo a casa, repreendo o Benjamin por ter entrado no jardinzinho mais uma vez e jogado terra quintal afora, tomo um banho e me recupero dos hematomas adquiridos cada vez que preciso levantar meu pai ou apoiá-lo, ou às vezes quando uma enfermeira prende uma parte do meu corpo na porta. Resumindo: não está fácil para ninguém.

Meu pai foi internado na quinta-feira passada com dores abdominais e é esse o motivo para eu ter sumido do Bonjour Circus. Aproveitando que dormi à tarde e minha mãe já está com ele no hospital, resolvi empregar um tempinho aqui para desabafar e atualizar. Por essas e outras, não reparem na bagunça nem na porcaria de texto que publico.

Não é segredo que minha relação com meu pai foi, é e sempre será complicada. Ele está longe de ser a melhor pessoa do mundo e de todos que por minha vida passaram e algum mal me fizeram, ele leva o primeiro lugar. Com folga. É aquele tipo de vencedor que pode fazer gracinha antes de atravessar a linha de chegada que não há risco de ser ultrapassado, pois seus concorrentes ainda estão na primeira volta. Eu sei que não devo pensar em tudo o que ele me fez porque se fosse assim, eu jamais levantaria da cama tão cedo para dar valor a uma pessoa que, no fundo, não vale nada. Mas se você quiser saber: é o meu pai.

Reajo como os brasileiros em geral ouvindo estrangeiros falarem mal do país: Epa, pera lá! Só eu posso falar mal dele! E, cara, só eu tenho permissão para falar mal do meu pai, discutir com ele ou tratá-lo com indiferença. Se alguém faz isso na minha frente, seja desconhecido ou parente, pode ter certeza de que viro bicho. Agora, com ele preste a sofrer uma cirurgia e preso numa cama há tantos dias tomando uma sopinha mequetrefe sem gosto algum, a opinião é unânime: sou a melhor filha do mundo. A equipe médica me chama de enfermeira, minha mãe diz que estou mimando ele, outros pacientes suspiram de saudades de seus filhos que preferiram ir à praia ao invés de se trancafiarem num hospital. Recebo os elogios de bom grado, mas penso com meus botões: “Não pensem vocês que ele merece”. Só que quando alguém fica doente, e esse alguém é seu pai, acho que a questão do merecimento fica para outro dia. Além do mais, eu tenho uma consciência. Tão limpa que dá para nadar!

Coisas engraçadas acontecem, claro. Meu pai está gentil, humilde, calado. Ele chora quando me vê chegar. Não, não sou do tipo que aceita prêmio de consolação, pelo contrário: detesto vê-lo vulnerável. Obviamente, não me agrada a possibilidade de poder perdê-lo. O que você quer que eu diga? Como quer que eu explique? É o meu pai. Eu quero que ele fique bom, mesmo que isso signifique a volta dos problemas e milhares de preocupações. São várias as alternativas: talvez eu não saiba viver sem a raiva que ele provoca; talvez seja o antigo medo infantil em descobrir que os pais não são eternos; talvez eu me arrependa amargamente do ódio que senti enquanto ele estava vivo; talvez eu o ame mais do que meu orgulho ferido permita demonstrar. Só tenho certeza de uma única coisa: existem mais coisas entre o rancor e o “chamado do sangue” do que crê a vã convivência.

 1987 - quando ser pai e filha era simples.

11 comentários:

Thaís Leocádio disse...

meio Helena...

Thay disse...

Nossa Del, o que eu comento depois de um texto desses? Não tenho o que reclamar da minha relação com meu pai, e fico aqui, de coração apertadinho, lendo o seu relato. Por mais que algumas pessoas nos façam sofrer durante a vida, a simples possibilidade de perdê-las nos deixa doidos, doloridos. É até difícil dizer algo, mas desejo melhoras ao seu pai, de coração. (:

Janaina Barreto disse...

Contraditório...
Também não tenho uma boa convivência com meu pai (quer dizer, a gente nem convive mais) e, embora não lhe deseje mal (também tenho minha consciência), espero que ele nunca na vida precise de mim porque não vou estar lá pra ajudá-lo. É assim que penso agora, pelo menos. Depois não sei.

Melhoras pro seu pai, Del.
PS: eu gosto de ler no celular. ^_^

L.H.C disse...

Acho que eu posso entender, se não totalmente, ao menos uma boa parte do que você quer dizer Del, no quesito pai parece que eu me identifico um bocado contigo. Você pode ter inúmeros problemas, mas nunca vai querer ver alguém tão próximo numa situação de vulnerabilidade. Além disso, a tarefa de cuidar dele não é fácil nem para você nem para sua mãe e nessas horas vocês podem se sentir incríveis por lidar com toda a situação. Melhoras para o seu pai.

Jessica disse...

Ah Del; bem vinda ao clube.
Sei como se sente. Aqui em casa não é muito diferente com eu e minha mãe. Talvez não seja tão conflituosa nossa relação como a sua e do seu pai, mas rola uns 'pegas' de vez em quando.
Por mais que eu fale, alias desabafe, da minha mãe, ela é a única pessoa que tenho. Ela é minha família toda.
Mas como eu te disse, as coisas aqui estão melhorando. Ela não muda; não tem jeito. Mas agora ela permite que eu mude, que eu opine.
É como eu falei pra um amigo meu; muitas vezes eu me sentia como um cachorro. Não como os nossos de estimação. Como um cachorro qualquer. Era sempre "Você é minha dependente; então cala a boca, abaixe as orelhas, enfie o rabo entre as pernas e escute o que eu digo querendo ou não".
Agora eu já posso abanar o rabo, ficar com as orelhas ai auto e latir até!

Enfim, melhoras pro seu pai. E que de agora em diante ele te respeite pelo menos um pouco mais.

Dea Carvalho disse...

estou sem condições.
:/

duaslibras disse...

Passei por uma situação semelhante quando o meu pai teve um infarto, e a gente nem sequer se falava mais antes disso acontecer, e foi punk. Mas parabéns viu, você está lidando com a situação de uma forma incrível, não é todo mundo que tem esse altruísmo, sendo pai ou não. Melhoras para ele!

Pablo disse...

Puxa, Del... que coisa triste! :/
Realmente, ter alguém doente na família é algo muito horrível! Mas fico feliz que você esteja "cumprindo o seu papel" de filha nesse momento.
Chega uma hora na vida que precisamos deixar tudo de lado, não pensar nas coisas que aconteceram e simplesmente fazer "o certo"!

Melhoras pra vocês! :)

Pablo disse...

Linda foto! s2

Ana Flávia Sousa disse...

As relações amorosas -afetivas -familiares são complicadas quase sempre né? Muitos sentimentos envolvidos, nossa!
Não sei o que escrever. Desejo que ele fique bom logo!
Que fiquem bem!

Beijos

Aline Aimée disse...

Compreendo bem sua relação com seu pai. Minha família é toda descaralhada, toda trabalhada na chantagem emocional e no ressentimento.
No entanto, força aí e melhoras para ele.
;)

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