27 de setembro de 2013

Carta aberta aos quinze anos

Quando mais nova, ouvi muito dizerem para mim: “errar é humano”. No fim das contas, ser jovem é estar sempre certo. Existe um culto contemporâneo que segue a juventude religiosamente - lhe dá oferendas, faz sacrifícios, tenta mantê-la o mais próximo possível. Ninguém quer envelhecer. É cada vez mais frequente mães serem comparadas as filhas e senhoras se deitarem em uma maca hospitalar para reconquistarem uma beleza que não é mais um direito. Os adultos não querem crescer, querem mesmo mas é usar jeans apertados e voltar para casa de madrugada caindo de bêbados. Para eles, a única chance de acertarem o alvo é viverem o que não lhe competem.

Por essas e outras passamos a mão na cabeça dos adolescentes que erram porque, afinal de contas, eles tem o que mais nos foi valioso e que o tempo levou. “É só uma fase, depois toma jeito”. Depois envelhece, perde o viço, emprega responsabilidades e fica meio assim, gente grande. Daí não nos interessa mais se é fase, momento ou deslize. Deixou de ser jovem, deixou de merecer a inveja branca. O que mais gostamos de fazer é relembrar o “nosso” tempo. Sim, nosso porque quando jovens somos os donos da situação. Tudo é feito para o nosso futuro, nossa comodidade, tudo é realizado a duras penas para um amanhã que a ninguém pertence. De repente, de nosso o tempo passa a ser dos outros, que não sabem como lidar com ele. Por isso, “no nosso tempo” era melhor, mais bonito, mais justo. Sabíamos como fazer, pois acreditávamos ser ainda jovens e muito melhores do que aqueles que o são agora.

Eu sei que a mídia, os veículos de comunicação em geral, querem ocupá-los com novelas, maquiagens, artistas pops e videogames. Sempre houve demasiada distração para a juventude, que de tanto ouvir acabou acreditando que errar é humano e que “isso não é assunto de criança”. Mas acreditem em mim, que há pouco tempo atrás vivi os meus quinze anos: nada do que dizem é totalmente verdade, e sim uma tentativa de manter os dois mundos separados. Se não sou mais digno da juventude que você tem, então lhe privo da melhor parte da brincadeira.

Não errei na minha adolescência. Essa palavra, errar, é grave demais para as atitudes ao alcance de vocês, crianças. Não acreditem nisso. Não existe nada que não possa ser consertado com um sermão ordinário ou um pedido de desculpas. O máximo que vocês podem cometer é um engano. Portanto, livrem-se de uma culpa que não é de sua conta. O mundo é mais velho do que isso. Não se esqueçam de que o certo e o errado são mutáveis e que a história tem inúmeras versões - e todas estão corretas. O ponto de vista alheio é que faz nascer as guerras.

Não se esqueçam de alimentar o espírito. Sei que é difícil de acreditar, mas há uma autonomia em vocês. Nada os impede de conhecer a boa e velha arte, seja lendo, ouvindo ou assistindo. Apesar de martelarem em suas cabeças diariamente o contrário, vocês tem sim muita inteligência e capacidade para compreenderem as mais complexas questões e argumentarem nas mais assíduas discussões. O que mais me dói (e repito que já tive essa idade) é ver um adolescente subestimado. Experimentem, que este é o único jeito de descobrir. Questionem a si mesmos para encontrarem seus certos e errados íntimos. Divirtam-se a sua maneira, entretanto, não permitam que a televisão diga o que é o mais adequado para seus gostos. Grupos e amigos são importantes, mas não insubstituíveis. A única verdade que deve prevalecer é a sua. Respeite-se antes de se calar diante de alguém. Dedique-se a cada minuto que antecede uma vida adulta para vivê-la plenamente, pois foi um jovem livre e pensante.

Esta é uma carta que eu adoraria ter recebido nos meus temerosos e limitados quinze anos. Espero que dessa vez chegue a tempo aos seus destinatários.

3 comentários:

Douglas Rodrigues disse...

Queria muito que alguém tivesse me dito isso nos meus 15 anos. O que sobrou foi gente pra dizer o contrário...
Adorei o texto!

gabi simões disse...

É verdade. Escutar isso teria sido libertador mas agora já passou e o que interessa mesmo é instigar o potencial de quem vive enquanto adolescente agora que a vida adulta já veio pra nós...

Fiquei reflexiva em alguns momentos de sua escrita pensando o quanto nós falhamos ao desmerecer e desvincular o valor que pode ter uma mente que está no auge de uma explosão hormonal. Eu faço isso com uma constância! Penso : 'mas é tão imaturo, tão inconsequente, tão novo ainda! não vai aprender agora; não tem conteúdo'. Mas sabe? Isso é porque olho -não só eu- por uma nuance preconceituosa e forjada de conceitos prontos sobre o que é estar na adolescência. Mudar esses valores pode ser unicamente responsabilidade de quem já passou e que alimenta agora uma visão outra do que foi...

Essa carta, se eu tivesse recebido no meus 15 anos, teria (acho) me feito abstrair em um impulso diferente do comodismo em que eu me adequei. Quem sabe?
Distribuir incentivos e não desmerecer pode funcionar realmente como mola pra esses nossos meninos :)

Muito boa sua reflexão!

Letícia disse...

Chegou. Obrigada :)

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