3 de setembro de 2013

Cartas Amorosas de uma Religiosa Portuguesa (Mariana Alcoforado)

 

Não sou muito chegada em declarações de amor. Quando meu namorado começa com suas cantadas, eu já corto o barato e digo que isso não funciona comigo. E não funciona mesmo. Ando com os dois pés atrás até com o pobre coitado que me atura por oito longos anos. Mas às vezes, só para manter o hábito de ser contraditória porque é divertido e de graça, gosto de ler livros sobre trocas de cartas entre escritores(as) e seus amores. Os livros “Querido Scott, Querida Zelda” e “Cartas de amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz” são exemplos que não saem da minha lista de desejados há muito tempo. Como estão demorando a chegar eu decidi procurar na internet qualquer coisa parecida que pudesse substitui-los. Foi então que em um site português (de Portugal, ora pois) eu encontrei “Cartas Amorosas de uma Religiosa Portuguesa”, que no Brasil parece ter levado o título “Cartas Portuguesas”.

“Prefiro ser desgraçada amando-te do que nunca te haver conhecido.”

Dizem por aí que é um clássico universal, mas sinceramente eu nunca tinha ouvido falar dele antes; encontrei por acaso mesmo. Nas pouquíssimas 80 páginas estão publicadas cinco cartas de Mariana Alcoforado destinadas ao seu amor impossível - Noel Bouton de Chamilly. Os dois realmente existiram e o fato de Mariana ter envergonhado seus familiares é verdadeiro, só que muitas personalidades e pesquisadores contestam a autoria dessas cartas amorosas. Rousseau (ele mesmo) chegou a declarar que uma mulher não seria capaz de sentir ou descrever o amor da maneira como fez a freira. Feminismos à parte, que eu sei que vocês teriam uma ótima resposta para ele, particularmente prefiro acreditar que as cartas são verídicas.
Apesar disso, não estou arrependida de te haver adorado. Ainda bem que me seduziste. A crueldade da tua ausência, talvez eterna, em nada diminuiu a exaltação do meu amor. Quero que toda a gente o saiba, não faço disso nenhum segredo; estou encantada por ter feito tudo quanto fiz por ti, contra toda a espécie de conveniências. E já que comecei, a minha honra e a minha religião hão de consistir só em amar-te perdidamente toda a vida.
Mariana, aquela que você conhecerá melhor clicando aqui porque não tô afim de fazer biografia, foi deixada em um convento pelos pais como muitas moças na época. Foi lá que ela conheceu Bouton, o homem que acabaria com a calma de sua vida. De serviço na Guerra da Restauração, o rapaz conquistou a freira que ficava o observando da janela do convento e não poucas vezes a visitou secretamente em seu quarto, provocando assim, o escândalo que também é mencionado na biografia oficial de Mariana. Todos descobriram e de um amor arrebatador o casal passou direto para uma insensível distância.
Vi-te partir, não tenho esperança de te ver regressar e no entanto respiro. Atraiçoei-te; peço-te perdão. Mas não, não me perdoes! Trata-me com dureza. Que a violência dos meus sentimentos te não baste! Sê mais exigente!
Após a partida (definitiva) de Bouton, Mariana lhe escreveu as cinco cartas publicadas em “Cartas Amorosas de uma Religiosa Portuguesa”, que são repletas de agonia, melancolia, desespero e saudades. Por inúmeras vezes ela se designa como desgraçada e se sente culpada por não ter morrido de tristeza, porém, em nenhuma linha sequer condena o conde por tê-la abandonado. Tenta de todas as formas perdoá-lo, pois para ela é melhor sofrer terrivelmente de amor do que nunca ter amado.
És tu mais digno de piedade do que eu, pois vale mais sofrer como sofro do que ter os fáceis prazeres que te hão de dar em França as tuas amantes.
Tenho a impressão de que Mariana perdeu por completo o juízo, o bom senso, e se transformou em um cachorro que sempre espera por seu dono, sabendo que este não voltará mais. Ela sabia que o amor havia terminado, que para Bouton tinha sido muito provavelmente apenas uma aventura, mas continuava a lhe escrever cartas, declarar seu amor incondicional e nutrir uma esperança inválida. Suas cartas provam que desde o século XV (e bem antes, convenhamos) os homens usam de juras falsas e artimanhas físicas para chegarem aos finalmentes e depois descartarem as vítimas. Em sua penúltima carta, Mariana menciona o investimento “delicado” e os “sonhos” com que foi comprada (“Tu não estavas cego como eu, porque me deixaste então chegar ao estado a que cheguei?”).
Adeus; parece-me que te falo de mais do estado insuportável em que me encontro; mas agradeço-te, com toda a minha alma, o desespero que me causas, e odeio a tranquilidade em que vivi antes de te conhecer. (...) Adeus. Ama-me sempre, e faz-me sofrer mais ainda.
“Cartas Amorosas de uma Religiosa Portuguesa” é a história de uma freira que foi enganada por um soldado francês? É a história de um casal separado pelos pormenores da situação? Bouton é o primeiro grande filho da puta registrado na história? Rousseau tinha o pinto pequeno? As cartas que inspiraram tantos escritores, afinal de contas, são reais? Ninguém sabe. A leitura foi tão boa que por mim colocaria tantas outras citações. Recomendo o livro com as cartas daquela que amou entre tanta mágoa e ao invés de odiar o homem que lhe condenou a uma vida sem vocação no convento, odiou tudo ao seu redor apenas para conseguir perdoá-lo.
Concordo que tem sobre mim muitas vantagens, e que me inspirou uma paixão que me fez perder a razão; mas não deve envaidecer-se com isso. Eu era nova, ingênua; tinham-me encerrado neste convento desde pequena; não tinha visto senão gente desagradável; nunca ouvira as belas coisas que constantemente me dizia; parecia-me que só a si devia o encanto e a beleza que descobrira em mim, e na qual me fez reparar; só ouvia dizer bem de si; toda a gente me dispunha ao seu favor; e ainda fazia tudo para despertar o meu amor... Mas, por fim, livrei-me do encantamento. Grande foi a ajuda que me deu, e de que tinha, confesso, extrema necessidade.

4 comentários:

Aline Aimée disse...

Uma amiga minha estudou as cartas de Mariana na monografia da graduação há alguns (muitos) anos. Foi por indicação dela que tomei conhecimento, li e gostei bastante.
Gostei da sua abordagem na resenha. Você soube descrever bem o livro e manteve o humor.

Beijo!

sobrefatalismos disse...

Sabe aquele livrinho de bolso que a gente leva para o caixa e acaba não levando? Sempre penso em pegar as cartas da Maria, sobretudo porque adoro literatura lusitana, mas acabo deixando de lado.
Na realidade, não curto é a edição da L&PM.
Com certeza, vou ler no Kobo. Obrigada pela dica, que é uma lembrança, na verdade.
Abraços.

Thay disse...

Fiquei curiosa, ainda mais romântica desesperada que sou, haha. Mas não sei se chegaria ao patamar da Maria, culpando todos ao redor pela situação em que se encontra, perdoando o amado soldado safadão. Quer dizer, romântica sim!, tapada, nunca! HAHA, você entendeu. :DD

Renata Cristina disse...

Parece bem triste. Não sei... Acho que eu leria pensando mal dela, apesar de saber as questões que a rodeavam. Mas gostei de ler aqui com a sua abordagem.
Beijos

Reenoceronte

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