6 de setembro de 2013

Eu não comi as batatas

A gente se conhece, mas não se confia. Por exemplo, num almoço aleatório da semana passada eu servi meu prato e me dei por satisfeita com a distribuição e coloração da refeição (porque os nutricionistas ultimamente querem que nossos pratos sejam réplicas do Renoir). Só que ao invés de me sentar à mesa decidi que não, não estava pronta minha obra de arte, eram necessários mais dois pedaços de batata. É nessa hora que começo uma discussão com meu Eu Comigo e a Voz de Mim. Todos temos um anjo e um demônio, cada um sentado no ombro que lhe compete. Além destes, tenho também vozes críticas, quase um parlamento. Não é para entender, é para lamentar. O Eu Comigo parabenizou minha iniciativa, já o Voz de Mim teve uma crise de pelanca e enviou relatórios em tempo real do meu estômago: eu não comeria tudo aquilo.

E não comi. Os dois pedaços sobressalentes de batata foram para o lixo.

Mas o que minhas batatas tem de interessante? Olha, para ser sincera, elas não interessam nem a mim, que tenho de comê-las, mas como este é o tipo de texto que só faz perder tempo então tudo bem. Estou querendo dizer que eu deveria ter confiado na minha primeira análise self-serviceniana. Assim como deveria dar atenção apenas ao meu instinto, sempre, e ignorar meu consumismo, ou meu autismo facultativo, ou (e principalmente) a opinião alheia. Ontem escolhi uma nova armação para meus óculos. Ela é preta. Por quê? Porque preto não enjoa fácil e “combina com mais coisas”. Tinha uma armação vermelha, que se encaixou perfeitamente no meu rosto sem formato definido graças ao meu nariz. Mas era vermelha; uma cor chamativa, cansativa e que não orna com uma blusa amarela, por exemplo. Aliás, eu já sou amarela o bastante, ou seja.

Daí que quando cheguei em casa, assim que coloquei meus pés no quintal, me arrependi amargamente.

Foi então que me toquei: eu poderia ter escolhido a armação de cor canela, que era mais leve e discreta e ainda por cima a que mais combina comigo e é uma das minhas cores favoritas. Passei o resto do dia, àquela altura, não me chicoteando por ter deixado a armação vermelha, mas por ter me esquecido da cor canela. Agora, toda vez que eu me olhar no espelho com os novos óculos, vou me lembrar, brilhará uma lágrima em meu rosto, vou balançar a cabeça em negativa e a vida não seguirá como planejada. Ou melhor, passarei mais algum tempo no plano B.

Se fosse desatenção, tudo bem. Se eu fosse o tipo de pessoa que tenta ligar a televisão apertando os botões do telefone, vá lá. O que realmente acontece, creio eu, é uma busca pela insatisfação. Sabe auto sabotagem? Pois é. Chegou nesse nível. Sirvo mais três folhas de alface só para depois me recriminar. Ridículo, não é? Infelizmente, o Bonjour Circus não trabalha com devoluções de tempo.

5 comentários:

Cacá disse...

História da minha vida: chego em casa de uma noitada as 5 da madrugada. tudo o que eu mais quero é dormir, mas não, tenho que ir até a cozinha fazer alguma gordisse. e não, não estou com fome.
esses dias estava no supermercado fazendo um rancho quando passei pelo corredor de 'higiene' (onde ficam os produtos de beleza). aí vi um esmalte lindo. eu já tenho uns 50 esmaltes e raramente tenho feito as unhas. por que eu preciso daquele esmalte? me convenci de que não tinha aquela cor de vermelho - possivelmente tenho todas as tonalidades acima e abaixo dela, mas aquela específica não -. Já foi ruim. Aí não bastando decidi levar mais um 'já que tava levando aquele mesmo'. Por que? R$ 3,70 que provavelmente ficará esquecido numa gaveta - se der sorte, será usado uma ou duas vezes - até o momento que eu decidir passar adiante. três e setenta reais de auto-sabotagem :/

Pri Bragança disse...

Por quê?
Me diz...

Del, o negócio é que eu também faço essas coisas.

Saco.

L.H.C disse...

Você realmente deveria confiar no seu instinto, Del, mas não se preocupe, você não tá sozinha nessa coisa de auto sabotagem não, faço isso o tempo todo.

Kamilla Barcelos disse...

Eu sou bem parecida com o seu texto. Costumo me arrepender das minhas escolhas, quase sempre.

Mª Fernanda Probst disse...

Se servir de consolo, você não é a única.

;*

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