19 de setembro de 2013

Uma comadre, por favor

Estou cansada. E quando estamos cansados é como se o mundo ganhasse tonalidades sóbrias e mais fortes. Falando em tonalidade, não compreendo essa gente que arruma a vida de acordo com paletas da Pantone. Vocês tem objetivos? Comem, dormem, vão ao banheiro, precisam pagar contas? Essa é uma questão que está na minha lista de temas para o Globo Repórter (sério). Qualquer dia desses eu mando porque, veja você, ao invés de organizar minhas calcinhas em degradê enviarei pautas originais a um programa de televisão que passa na sexta-feira à noite – momento em que a civilização socializa enquanto curto um documentário sobre o acasalamento de girafas ou cenas tensas de correspondentes internacionais desmaiando nas montanhas do Tibete. Mas tudo isso fica para depois. Estou cansada. Meu cabelo, oleoso. Meus pés, inchados.

Meu pai retornou ao hospital após uma pequena e equivocada alta. Sabe como é: os residentes não encontraram mais o problema que antes havia derrubado um homem tão forte quanto papai e, poxa vida, milagre né fía! Mandaram o pobre coitado de volta para casa sem averiguar o cmoaçim um puta problema desse se dissolve da noite pro dia meu deus. Ah, vamos simplificar, dar o resumo da ópera, receber nosso ordenado e pronto. Se morrer, morreu. Se não morrer, não morreu. O importante (daí o médico coloca a mão no nosso ombro porque é nosso amigo, viu?) é o meu pai estar bem, em pé, comendo direitinho. Trocando em miúdos: “estou com preguiça de fazer meu trabalho, seu pai é só mais um para mim. SOU RYCO.”

¯\_(ツ)_/¯

Bom, a rotina hospitalar voltou. Não aconselho para ninguém. A comida tem gosto de pé, e mesmo assim meu pai é obrigado a engolir. Tentei traficar uma fruta, mas fiquei com medo na hora H – comi no caminho de casa para o hospital. Entendo que é para o bem dele, que a dieta é necessária. Não sou criança. O problema é a nutricionista ser desatenta e receitar massinha de modelar para o almoço. Pelo menos no refeitório tratam os acompanhantes como pessoas de paladar. Continuo servindo demais, caso alguém esteja interessado.

É isso, minha gente. Eu não tenho vida. Passo as horas como dá sentada num sofá de couro, daqueles que peidam quando nos mexemos, e vou levando com a barriga. Chego em casa e durmo. Os vizinhos devem achar que consegui emprego numa buátchi, só pode. Seria mais divertido, devo admitir. Eu adoraria sentar e escrever algo decente para o blog. Só que como? Quando? Aonde? Outro dia, por exemplo, enquanto eu digitava um rascunho no meu celular, entrou uma dupla de palhaços no quarto.

Pare e calcule quantos pontos de exclamação são necessários para enfatizar a última frase.

De repente me vi confusa com piadas sem graça, meu pai sendo chamado de ervilha (um trocadilho com o nome dele e, confesso, a palhaça foi muito corajosa) e, caralho, eis que contam a eles qual é meu nome completo – uma informação tão preciosa desperdiçada assim, por um deslize diante de palhaços. Quando acho que já passei por todo constrangimento possível, dão a descarga. Foi a gota d'água. Saí do hospital dando uma desculpa qualquer e vim para casa. Liguei o computador disposta a escrever qualquer coisa, mesmo que sem sentido, só para esvaziar a cabeça. Olha, vou te contar: é muito entulho para minha caçamba.

3 comentários:

Natalya Leopize disse...

Que vida tu ta vivendo esses dias... Gostei da sua frase final sobre a caçamba.

Pablo disse...

Força, Del! :/
As coisas em casa também não estão lá essas coisas.

Ana Flávia Sousa disse...

Poxa vida!
Que esta equivocada alta não tenha prejudicado o problema de saúde de seu pai Del!
Seja forte, é o que tenho a dizer.

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