29 de outubro de 2013

O que eu aprendi sobre o budismo

Tá, eu não gosto de escrever sobre assuntos específicos. Primeiro, sempre há alguém mais entendido (ou mais pau no cu), que sente a necessidade quase fisiológica de corrigir os outros. Segundo, prefiro saber tudo sobre determinado tema antes de me meter a besta, ou seja, quem nessa vida sabe tudo sobre alguma coisa? Tirando os pseudo intelectuais, só mesmo o Paulo Coelho (o que dá na mesma). Por isso, eu evito debater. Mesmo se o assunto me interessa muito, mesmo se estou curiosíssima para descobrir mais. A internet, esse lar onde ninguém é bem vindo!

Bom, no meme “Vinte e cinco coisas sobre mim” comentei que já pensei em ser budista. Na época em que isso se passou pela minha cabeça de vento eu não tinha a menor estrutura para ser iniciada na doutrina. Estava interessada, sim, intrometida como sempre, mas não era o bastante. Depois, não sei porquê, acabei me distraindo com o espiritismo. Desculpa, sociedade: religião é um assunto fascinante demais para me limitar em apenas uma doutrina por toda a vida. E então eu li o que tinha para ser lido sobre os espíritas (beijo, tio Kardec) e sem mais nem menos resolvi voltar ao “estudo” budista.


Buda ensina o Caminho do Meio, onde a dualidade se funde em unidade, e que transcende estes conceitos extremados.
— A Doutrina de Buda, de Siddharta Gautama

Li esses dois livros na esperança de compreender a fundo o que faz uma pessoa sair por aí de cabeça raspada e lençóis laranja envoltos no corpo. Quer dizer, eu tenho motivos de usar penas de corvo nos cabelos, mas raspá-los é uma atitude prematura ao meu ver. E não, isso não faz o menor sentido. Enfim, sempre quis compreender o estilo de vida radical que levam os monges – que filosofia os levaram a renunciar sua vida material e também seus familiares para viver plenamente os ensinamentos de Buda? Logicamente, desde o início eu estava ciente de que não tinha inclinação para abdicar, por exemplo, do meu notebook. Todavia, levar a vida com mais leveza e mais sabedoria não me faria mal.

A pura e fragrante flor de lótus desenvolve-se melhor na lama de um pântano do que num terreno limpo e firme; da mesma maneira, a pura Iluminação de Buda surge do lodo das paixões mundanas. Assim, mesmo os mais absurdos pontos de vista e as ilusões das paixões mundanas podem ser as sementes da Iluminação de Buda.
— A Doutrina de Buda, de Siddharta Gautama

Apesar de arrastada e pouco imparcial, Sophie Royer fez um bom trabalho em sua biografia de Buda. Como ela mesma menciona, não é uma doutrina fácil de ser absorvida pelo Ocidente por conta de sua característica fantástica e suas lendas, digamos, utópicas. Há também ideais incompreensíveis para nós como, por exemplo, a anulação da existência do ego – o “eu” e consequentemente o “meu”. Ora, vivendo no mais bruto capitalismo, esse tipo de desapego é impraticável. Buda, por outro lado, prega a completa extinção do indivíduo. Somos, ao mesmo tempo, seres que existem e não-existem.

A mente discriminadora é apenas a mente que discrimina as imaginárias diferenças que a cobiça e outras disposições do ego criaram. A mente discriminadora está sujeita às causas e condições, ela é vazia de toda substancia e está em constante mudança. Mas desde que os homens acreditam que esta é a sua verdadeira mente, a ilusão passa a ser parte integrante das causas e condições que produzem o sofrimento.
(...)
Fundamentalmente, todos possuem uma mente pura, mas, habitualmente, ela é toldada pela corrupção e pelo lodo dos desejos mundanos que surgem das circunstancias peculiares a cada um. Esta mente corrompida não é a verdadeira essência de cada um: é algo que lhe foi acrescentado, como um intruso ou mesmo um hóspede numa casa.
— A Doutrina de Buda, de Siddharta Gautama

No budismo não existe um destino previamente escrito, tão pouco um deus no comando de nossas vidas: tudo é resultado de infinitas causas. É natural concordarmos com o que convém. Às vezes acreditamos ter uma missão na Terra; quando algo ruim está acontecendo. Outras vezes os destino nos reservou coisas boas, afinal de contas; quando temos boas surpresas. A verdade é que estamos vivendo as consequências das inúmeras causas. Talvez eu não concorde com 100% do que prega o budismo, mas não há dúvidas de que ele simplificou bastante o meu dia a dia – “as coisas são o que são independentemente de você, get over it”!

Houve somente um pequeno problema na biografia de Royer ao ler o trecho: “Da mesma maneira, ó Ananda, que a doença chamada de alforra surge em uma plantação de arroz em plena prosperidade – e então a prosperidade da plantação não dura muito tempo –, da mesma maneira, ó Ananda, quando em uma doutrina e em uma ordem as mulheres são autorizadas a renunciar ao mundo e a levar a vida de errante, então a vida santa não prospera por muito tempo. Se, ó Ananda, na doutrina e na ordem que o Tathagata fundou não tivesse sido concedida a possibilidade de as mulheres abandonarem o lar para levar vida de errante, a vida santa, ó Ananda, permaneceria em observância durante muito tempo: a doutrina pura seria mantida durante mil anos. Mas como, ó Ananda, na doutrina e na ordem que o Perfeito fundou, as mulheres renunciam ao mundo e adotam a vida de errante, a partir de agora, ó Ananda, a vida santa não vai mais permanecer muito tempo em observância: a doutrina da verdade agora não vai durar mais do que quinhentos anos” – e a biógrafa segue, alguns capítulos depois, enfatizando o comportamento negativo de Buda em relação as mulheres. Foi um momento no, wait...

– Senhor, como devo me comportar perante as mulheres?
– Não tenha contato com elas.
– Mas, Tathagata, como poderei evitá-las?
– Ananda, se você encontrar uma mulher, evite qualquer conversa.
– E se ela me dirigir a palavra?
– Neste caso, você deve sempre tomar o cuidado de ser extremamente vigilante e não baixar a guarda.
— Buda (Biografia), de Sophie Royer

A minha flor de lótus murchou, se vocês permitem o trocadilho. Por mais que este fosse o pensamento dominante na época, Buda, o Perfeito, o Iluminado, jamais poderia dar eco ao machismo. Ele, antes de qualquer um, deveria abrir as portas de sua Sangha às mulheres (monjas). Consta que com muito esforço os discípulos persuadiram o mestre, mas ainda assim as mulheres não podiam subir de categoria e deviam respeito a todos os homens. Tudo bem, eu pensei, já não estava gostando muito do tom usado por Royer e no mais era o primeiro livro sobre budismo que lia na vida. As pessoas às vezes escrevem demais, interpretam errado ou a sua própria maneira. E lá fui eu conhecer outro livro: o supracitado “A Doutrina de Buda”, que diz:

Para seguir o Nobre Caminho da Iluminação de Buda, deve-se também possuir estas mesmas boas qualidades. Se alguém, independentemente do sexo, tiver estas qualidades, ser-lhe-á possível alcançar a Iluminação; não precisando de muito tempo para aprender os ensinamentos de Buda, pois todos os homens possuem a natureza inata à Iluminação.

Não posso deixar de mencionar o tal do neo budismo, que vegan e mais pacífico, abrange a humanidade como um único organismo. Resumindo: é mais sussa. Mesmo assim, os diálogos contidos na biografia deixaram uma má impressão. Se você aí compreendeu melhor do que, não faça cerimônia, explique. Como eu disse no início deste texto, sou apenas uma curiosa, uma iniciada, uma sem vergonha. Muitas informações úteis me faltam. Além do mais, quem aguentaria ler um texto deste tamanho? Quem tem tempo para isso, meu Deus? Recomendo, portanto, a leitura tanto da biografia quanto da doutrina. Não é obrigatório se converter (nem eu fiz isso), mas é uma leitura cativante.


Minha bibliografia é muito curta para falar sobre o budismo com propriedade, existem por aí afora milhares de livros sobre o assunto: uns mais detalhados, outros sensacionalistas e ainda os descartáveis. Posso afirmar, todavia, que finalmente consegui parar de confundir budismo com hinduísmo, fiquei aliviada ao descobrir que não é uma doutrina contra o cristianismo – na verdade eles sequer afirmam ou negam a existência de um deus, os budistas trabalham somente com a integridade e evolução da mente. É preciso muita força de vontade para seguir a risca o Dharma, por outro lado a mensagem é bem clara: seja bom, honesto e justo. O budismo, por fim, é a pura lei da bondade, que não fará mal a ninguém. Basta abrirmos nossas mentes e corações ocidentais para os ensinamentos transcendentais de Buda!

4 comentários:

alienando disse...

Eu ri com "Tirando os pseudo intelectuais, só mesmo o Paulo Coelho (o que dá na mesma).", hahaha :P

Confesso que compartilho da mesma vontade de conhecer outras religiões como você. Mas no meu caso, ainda estou lendo livros ficcionais e romances demais, e também não tive motivação pra obras como as supracitadas, então continuo bem ignorante no mundo das religiões. Foi legal alguém trazer um pouco de luz sobre o budismo.

Por enquanto, levo comigo o trecho "seja bom, honesto e justo.".

Um beijo! :)

ellen disse...

eu sempre tive uma certa simpatia pelo budismo, mas nunca procurei nada sobre ele. lendo esse post percebi que é bem diferente do que eu imaginava em alguns aspectos. e fiquei um pouco frustado sobre o problema com as mulheres e o machismo.

mas, foi um bom texto pra compreender um pouco sobre a religião.

abraços :)

Thaly disse...

Oii. Leio seu blog há um tempo, nunca tinha comentado e tava esperando um post adequado pra eu dar uma opinião. Chegou a hora, esse é um assunto que eu entendo um pouquinho ;)

Eu não sou muito familiarizada com o budismo também, mas eu tenho alguns conhecimentos espirituais de forma geral, que aprendi fora de qualquer religião. Lendo seu post, reparei em algumas coisas bastante comuns em quem começa a estudar budismo, hinduísmo ou qualquer corrente espiritualista, e já que eu tenho algum conhecimento, vim aqui pra te dar uma luz. ^_^

"Logicamente, desde o início eu estava ciente de que não tinha inclinação para abdicar, por exemplo, do meu notebook."
Essa coisa de ser antimaterialista não é algo que acontece em pouco tempo. Não é algo que acontece em 1 mês, 6 meses, nem 1 ano. E também não é algo que você pode controlar, que você tem que ficar forçando, tipo "Tenho que abdicar da minha casa, do meu carro, do meu iPod, tenho, tenho, tenho!!!" Não adiantaria uma pessoa abdicar dos seus bens materiais se ela vai ficar louquinha de saudade de usar eles, se por dentro ela tá se corroendo... Ela se livrou dos objetos materiais, mas o materialismo continua na mente dela. O lance do antimaterialismo não é você NÃO acumular posses, é você não precisar delas, você não se apegar a elas. =) Como eu já disse, isso não é algo que você tenha que forçar em ti mesma, é uma coisa que vai acontecer naturalmente quando você estiver preparada. Pro desapego material acontecer na mente de alguém, é preciso muito 'trabalho de consciência' - um caminho longo e complexo.

"Há também ideais incompreensíveis para nós como, por exemplo, a anulação da existência do ego – o “eu” e consequentemente o “meu”. Ora, vivendo no mais bruto capitalismo, esse tipo de desapego é impraticável."
Isso também não é verdade. Já falei sobre a questão do materialismo, mas essa coisa de anulação do ego também serve para nossas emoções. Raiva, tristeza, preocupação, frustração - todo tipo de sofrimento vem do ego. E quando ele é tirado da nossa mente, só sobra felicidade, amor, compreensão, sabedoria... A anulação do ego também segue a mesma linha que eu falei ali em cima: você não tem que se forçar pra eliminar ele. Ele vai embora espontaneamente, quando você tiver preparada, quando você tiver feito o trabalho de consciência que lhe cabe. ;)
Ah, e notei que você usou a palavra 'eu' como sinônimo de ego. Ego e Eu são duas coisas diferentes. O ego é algo criado pelo ambiente - sociedade, nossa família, amigos, blablabla. O eu é tua essência, o que existe de mais puro e verdadeiro em você. O problema é que o Ego é muito mais presente na nossa mente do que o Eu - isso faz com que nossa verdadeira personalidade se expresse muito pouco. Cabe a nós trabalhar isso, certo?

Quanto a esse papo das mulheres... Bom, eu nunca tinha lido nada machista dentro do budismo, achei estranho também. Sei lá, vamos ter que procurar por respostas com gente mais esclarecida mesmo :P

Enfim... legal que tu se abriu pra estudar religiões orientais. Espero que eu tenha conseguido te esclarecer algumas coisas, e espero que tu continue se interessando e aprendendo, porque tu só tem a ganhar. ;)
Beijos!

Thaly disse...

Ah, e outra coisa: Você também não precisa se converter pro budismo pra seguir alguns ensinamentos deles. Você não precisa raspar a cabeça e ir pras montanhas meditar pra conhecer a Iluminação. É completamente possível chegar no estado de Buda na sociedade que a gente vive, porque é no dia a dia mundano que a gente vai aprendendo sobre a vida, sobre nós mesmos, sobre os outros, blablabla.


Agora sim, tchau o/

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