22 de novembro de 2013

Se não for pedir muito

Quando as pessoas me perguntam "qual é seu maior defeito?", eu não sei o que responder. Primeiro porque acredito que não há escala; seus erros não estão organizados por hierarquias, são ruins igualmente e te atrapalham na mesma proporção. Ou seja, não tenho um defeito pior ou maior - todos fazem de mim uma pessoa imperfeita. Classificá-los seria merecê-los. Segundo, não sei porque alguém perderia seu tempo enumerando defeitos ao invés de simplesmente tentar consertá-los. Então, é isso. Não me faça perguntas idiotas.

Mas existe a repetição. Eu adoro voltar a falar sobre um assunto o qual já esgotei, ou que os outros não estão interessados em ampliar impossivelmente mais. Sempre tem um capítulo que, eu acho, foi ignorado. Por exemplo, o meu notebook que ainda está na assistência técnica. Sabe, não há muito pano para a manga, mas eu preciso salientar: que inferno tem sido minha vida! A quem interessar possa, até meditação comecei a fazer. Estou aprofundada num caminho sem volta, que é o Budismo, na tentativa de me desintoxicar desse vício, dessa necessidade aparentemente corporal de ter comigo um aparelho sem vida inteligente, que com certeza não está chorando no escuro da sala de consertos (apesar de eu acreditar que o pobrezinho está). Por outro lado, tudo não passa de uma única verdade: nas horas de ócio, não tenho nada para fazer.

Até mesmo minha discreta biblioteca está abandonada, pois ao pegar um livro para ler lembro imediatamente dos meus mais de 300 ebooks conquistados com muito suor e afinco. O consumo de chocolates aumentou. Sou uma criatura contaminada, confesso, pela modernidade. É ridículo - agora posso ver isso - sua vida depender de um HD. Por que guardar todas as coisas mais importantes em um único lugar? E por que se livrar de todos os bens materiais concretos? Por que não álbuns de fotografias? Por que não CDs? Por que não DVDs? Por que não impressos? Por que não? Porque custa caro, a gente responde sem pensar muito a respeito. Cara, o valor do conserto do meu notebook é o triplo do que eu gastaria montando a desgraça de um álbum de família e tudo o que, talvez, perderei jamais poderá ser calculado.

A vida não está mais saudável. Não me sinto livre. Não ter meu computador pessoal não significa que estou caçando borboletas ao ar livre ou desenhando perfis de passarinhos sentada no meu jardim com uma xícara de chá ao lado. Olha, nem perto disso. A merda da natureza não é nada comparada com o Google Earth. Pois é, o Budismo não está, afinal de contas, fazendo efeito sobre mim. Só me dê mais uma semana, por favor. Eu poderia estar prometendo uma cura milagrosa e a postagem de fotos minhas em trajes alaranjados com a cabeça raspada, porém, vou me ater a garantir uma sobrevivência limitada durante esses próximos dias nebulosos que vem por aí. Também poderia adotar a prática de minimizar meus defeitos e vícios, todavia, não estou nem um pouco interessada em me tornar um espírito evoluído, tão pouco acordar às seis da manhã, cruzar as pernas em Lótus e fixar meu olhar numa parede vazia. Se não for pedir muito, quero a merda do meu computador para continuar sendo uma burguesa superficial.

3 comentários:

Brendha Cardoso disse...

Oi, tudo bem?
Te indiquei numa tag lá no blog <3 Se puder dar uma olhadinha, o link está aqui http://onlyb13.blogspot.com.br/2013/11/uma-tag-diferente.html

Beijão!

cronistaamadora disse...

Acho que também sou uma burguesa superficial.
No teu caso é o budismo, e no meu o espiritismo.
Mas a única coisa material que consigo manter em casa são os livros. Faço questão. Nem músicas no computador eu tenho mais. Ficam todas numa playlist chamada "aleatórias possíveis" em um desses muitos sites que a gente ouve em streaming.
Filmes? Assisti, jogo fora. Só tenho aqui o DVD da versão de 2005 de Orgulho e Preconceito, por motivos de: amo esse filme, assisto todo ano.
Boa sorte com o teu PC.
Abraços.

Mª Fernanda Probst disse...

Eu me senti nua quando meu notebook deu pau. E chorei horrores quando o cara da assistência disse que não havia o que fazer e que, infelizmente, eu perderia tudo. Depois de três anos de renascimento, ainda choro todas as fotos e memórias perdidas. Que ele se salve, menina, senão tua loucura se multiplica.


www.fernandaprobst.com.br

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