13 de janeiro de 2014

Mulheres de Cabul (Harriet Logan)


Eu não ia escrever nada sobre esse livro. Mas nada mesmo. Primeiro porque esse negócio de escrever sobre o que li ou assisti está começando a dar dores de cabeça – nem todo mundo entende o que quis dizer, nem sempre consigo me expressar direito. Segundo porque o assunto em pauta tem sido tão discutido ultimamente, que não me resta nada a dizer – todo mundo já deu seu pitaco, seja a opinião ridícula ou digna de nota. “Mulheres de Cabul” reune relatos de mulheres (de Cabul, veja você) entre 1997 e 2000 que sobreviveram (ou quase isso) ao regime Talibã. E apesar de nem todos estarem comentando assiduamente sobre a situação no Afeganistão, todos estão metendo as colheres no feminismo.

Acho que no Ocidente existia a crença de que todas as mulheres do Afeganistão rasgariam suas burkhas, no exato momento em que não fossem mais obrigadas a usá-las. Porém, a mudança está acontecendo lentamente, em parte devido à reação dos homens ao ver mulheres descobertas em público, pela primeira vez em cinco anos. Depois de pouco tempo no país, era fácil entender por que elas continuavam cobrindo seus corpos: as ruas tornaram-se predatórias. Onde quer que eu fosse, uma multidão de homens me encarava fixamente. “Por isso preferimos nos cobrir”, disse minha intérprete. “Esses homens nos deixam encabuladas”.

Sim, esse livro tem tudo a ver com feminismo já que trata da cruel repressão que as mulheres afegãs sofreram durante tal regime, do uso de burcas até o apedrejamento público. E mesmo eu tendo minha opinião sobre feminismo, não adianta dizer que o movimento simplesmente ignora a classe baixa, a pobreza e se restringe praticamente a classe média alta. Porque no fim das contas toda luta é válida quando se trata de uma minoria. Porque se pelo menos as mulheres brancas mais esclarecidas estão saindo às ruas, temos mais é que agradecer e não desmerecê-las. Porque se uma preta favelada está passando fome no barraco enquanto feministas de axilas peludas estão discutindo se devem ou não trabalhar fora de casa, é apenas um passo do avanço onde umas são sacrificadas, ou melhor, cimentados embaixo dos degraus por onde outras sobem.

Daí que enquanto mulheres afegãs são assassinadas pela própria família por terem se apaixonado por um homem que não seu prometido, aqui no Brasil há aquelas que não admitem o parto humanizado como pauta feminista porque “maternidade é uma opressão do patriarcado”. Enquanto eu tenho que ler esse tipo de merda e outras mais, me conscientizo que o feminismo e seus braços curtos ainda não atingiram lugares onde o caos extermina (e sim, essa é a palavra adequada) centenas de mulheres inocentes.

Em outra ocasião, eu andava pela rua. Alguns Talebãs espancavam uma mulher, então me aproximei e perguntei, “Por que estão batendo nela?”. Eles começaram a me espancar também, por ter perguntado. Recebi cinco chibatadas com um chicote de couro.

Mas longe de mim menosprezar um movimento tão legítimo, que é o feminismo. Todas as discussões são válidas, até que se prove o contrário. E é por isso que eu não vou escrever sobre esse livro.

Mas a vida de Zargoona e de todas essas mulheres só pode melhorar se elas não caírem novamente no esquecimento. Quando o mundo voltar sua atenção para a próxima história, o próximo assunto, o próximo evento - o que acontecerá naturalmente -, essas mulheres continuarão vivendo num país que as abandonou durante os anos de guerra, ignorando seus direitos básicos e negando seu valor. E, apesar de não ter poder suficiente para isso, espero que o futuro das mulheres do Afeganistão seja muito melhor que seu passado.

1 comentários:

Mariana M. disse...

Vou contar uma história que eu li há pouco tempo sobre uma jornalista que entrevistou várias mulheres que usavam lenço, burqa ou xador por opção delas mesmas. A jornalista ficava batendo na tecla delas serem "mulheres oprimidas", mas no final acabou percebendo que ela era a oprimida. Todos os dias as pessoas vão olhar pessoas como aquela jornalista e julgar a roupa que ela está, como estão as unhas dela, se ela está com a depilação em dia pra poder mostrar as pernas, como estava o cabelo dela... E foi assim que ela aprendeu que mesmo mulheres totalmente cobertas com a burqa ainda tinham mais liberdade que ela. Porque liberdade não é só parar de usar burqa porque você saiu de um regime austero, mas sim poder usar o que você quiser. E não existe uma luta menos digna do que a outra. Por essas e por outras que feminismo é necessário. Me dá vontade de rir na cara de quem diz o contrário.

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