21 de janeiro de 2014

O paradoxo do cotovelo

De repente, percebi que estava assistindo um filme sobre a invenção do vibrador. É, ele mesmo, o sex toy. “Como eu vim parar aqui?” foi meu primeiro pensamento. Daí me lembrei: ah, sim, foi após assistir um trailer interessante, mas a memória desse momento não passou de uma fumaça espessa sem um formato definido. Bom, já que estava pela metade decidi ir até o fim por mais que a ideia parecesse absurdamente inverossímil. O ponto é: não sei porquê. Por que eu me daria ao luxo de perder tempo vendo mulheres de classe média sendo masturbadas por um doutor “especializado” em plena era vitoriana? E o assistente manipula tantas vaginas, que chega a inventar a tendinite também. Veja você. Mas esta perde toda sua glória de cinco minutos de fama quando finalmente inventam o vibrador portátil. Bom, é só não assistir de novo, né?

Enfim, outro dia meu cotovelo sofreu bullying. É, isso mesmo. O que eu quero dizer é que o murro com que a quina da estante o acertou não pode ser considerado culpa minha, ou simplesmente uma lei da atração, ou ainda descuido. Não. Foi premeditado. Eu estava no mesmo lugar de sempre, a cadeira e a mesa onde uso o computador, também. Ou seja, a estante se inclinou mais um pouco para a esquerda só para acertar meu cotovelo em cheio. Como todo bullying, esse não teve fundamento. O mais fraco perdeu. Nesse caso, meu cotovelo. O estrondo de madeira contra osso foi tamanho, que minha mãe parou pela metade o trajeto entre a colher e a boca. Ambas arregalamos os olhos. O comentário dela foi simples: “Me deu até calor”!

Enquanto o choque percorria todos meus nervos atingindo até o coração, não sei por que cargas d'água me lembrei da minha podóloga. Veja, eu sou o tipo de pessoa que se lembra de podólogos quando sente dores extremas do tipo um osso sendo trincado lentamente. Não é bem isso. É que certo dia a dona podóloga disse: “Você é a cliente mais boazinha que tenho, mas também, com um nome desses só sendo muito forte e aguentando a dor com honra”. Viu? Com honra. A pessoa está na merda, sendo engolir a dor goela abaixo para não fazer escândalo, a única honra que sobrou. Está ruim? Podia ser pior. Ok. Não dei um gemido. Segurei, respirei fundo, e minha mãe lá sentindo as dores por mim: levantou os braços, se abanou, lacrimejou, esfregou o próprio cotovelo.

“Gente, essa garota está escrevendo um texto sobre bater o cotovelo”? Sim, ela está. Eu estou. Este é um texto sobre vibradores, filmes ruins, bullying, cotovelos e dor, muita dor. É também um texto sobre aguentar a dor e se lembrar de podólogas que acham seu nome a cabeleira de Sansão. Afinal, um texto sobre várias coisas e sobre nada. Quer dizer, se posso sofrer em silêncio uma dor atroz como a de um cotovelo sendo espancado por uma estante cheia de auto confiança, por que reclamar das dores menores como, por exemplo, a agonia de assistir um filme péssimo? E se posso aguentar calada a lancinante agressão de um ser inanimado, por que me incomodar com o sofrimento passageiro de uma vida fodida sem esperanças? Se está tudo tão ruim, mas assim, tudo mesmo e tão ruim de verdade, então acho que não preciso me preocupar.

2 comentários:

Dea Carvalho disse...

Tudo é uma merda, mas você é incrível.

Nick Soad disse...

A Del e sua incrível arte de compartilhar pedaços do seu dia, de maneira esplêndida e única. De verdade, sou sua fã. E se quiser, bato na estante por você!

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