2 de fevereiro de 2014

Crônicas de um bairro qualquer – Parte 4

A janela do meu quarto, no segundo andar da casa, fica bem em frente a um poste de luz. Ele nunca me incomodou apesar dos fios expostos a pouca distância da sacada, o que me assusta e acho mesmo que um dia morrerei eletrocutada. Tirando a paranoia infundada, tudo nos conformes – até que resolveram trocar a lâmpada comum por uma avermelhada. Uma semana quebrado depois, a prefeitura veio, consertou e a sensação falsa de segurança voltou à rua. Mais tarde naquela noite, porém, quando desliguei a luz do meu quarto para ir dormir me senti num episódio de Seinfeld. Passei mais de uma semana dormindo com o travesseiro na cara até que a prefeitura voltou para instalar uma lâmpada decente.


O supermercado do bairro é a minha segunda casa. Vou praticamente todos os dias já que minha mãe sempre se esquece de comprar alguma coisa. Fazer uma lista de compras está fora de cogitação para ela. Eu odeio a (des)organização das gôndolas, odeio os preços, odeio as caixas, odeio os carrinhos, odeio o estacionamento, odeio a subida íngreme para voltar para casa. Mas continua sendo o supermercado do bairro. Decidi parar na seção de comidas prontas só para ficar abismada com o preço do frango assado. Foi então que um sujeito se aproximou, olhou para as bandejas quentes de peru recém postas na bancada e sem a menor cerimônia, comigo de única testemunha, rasgou o plástico, pegou um pedaço de peru e saiu comendo. A bandeja de isopor ficou lá, aberta, com o puta pedaço de carne desfeito. O cerumano desapareceu atrás de uma gôndola. Eu olhei para um lado, olhei para o outro. “Esse povo não merece o país que tem”, falei para mim mesma.

Eu estava lendo no meu cafofo e a vida na rua fervilhava de crianças insanas. Tenho medo de cada uma delas, ainda mais quando estão com pipas e um rolo bem gordo de linha com cerol; eles fazem qualquer coisa por uma pipa, vocês não tem ideia. De repente, ouço uma batida feroz no portão: “ô, tia”! Não gosto de ser chamada assim nem pelos meus sobrinhos, então imaginem. Não precisei nem descer as escadas para saber que uma das pipas estava caída no meu quintal. Para o bacuri se jogar contra meu portão daquela forma desesperada, logicamente não era para vender Icegurt nem para transmitir a palavra do Senhor. Não atendê-lo foi minha primeira vontade. Mas depois pensei melhor. Coitada da criança, né? Nessa época inocente uma pipa é a única noção de valor que a molecada tem. Abri a porta disposta a salvar o dia do menino. “Desculpe, mas vou ter que cortar a linha, ficou presa na grade do vizinho”, eu disse cortando. Nem dei tempo do bichinho gritar “não precisa cortar, tia”! Que boa ação eu fiz. Que pessoa para frentex decidi me tornar ao dar a pipa para o garoto. Afinal, é só um a criança querendo sua pipa, seu tesouro, de volta. É sério, fiquei feliz com meu gesto de adulta compreensiva. Entreguei a pipa para ele e fiquei lá, esperando: ele vai agradecer e correr feliz rua acima.

— Pegou a pipa? – um coleguinha perguntou à ele.
— Peguei, mas a filha da puta cortou a linha – e foi embora sem olhar para trás.

8 comentários:

Nati disse...

Nossos bairros e suas histórias... Beijos

Fan Page Mundo de Nati
Mundo de Nati

Blank Space disse...

Viva a vida real! :s

Plum disse...

Cada bairro com sua história... Ri muito com essa situação da pipa, bem feito pra eles hahahaha Ah, também tem uns fios de eletricidade aqui, morro de medo de morrer eletrocutada também T.T

Bjs, viverserfeliz-renata.blogspot.com

Andreia disse...

Que bela educação que ele recebeu. Nem quero imaginar como será quando for grande. :S

Ah, as histórias do teu bairro são super engraçados. Eu vivo num bairro relativamente quieto, então... :X

Katy disse...

Que boca suja o menino haha Sua intenção foi boa, pelo menos.
Bjs.
doceilusao.com/

cronistaamadora disse...

Hahahha, que bairro peculiar o seu, hein. Aqui, o que mais tem é gente fofoqueira olhando para o quintal e a grama do vizinho - sempre mais verde. Incrível como o pessoal daqui não sabe ter vida própria.
Sim, luminosidade passa uma falsa sensação de segurança. No meu bairro é engraçado quando falta luz. Porque a luz vai embora em metade da rua (é uma rua larguíssima). A outra metade fica iluminada, então essa sensação de insegurança quando a luz vai embora não é muito forte.
Abraços.

Plum disse...

Indiquei seu blog, quando der olha lá <3

viverserfeliz-renata.blogspot.com

Douglas Gonçalves disse...

HAHAHAHAHA SENSACIONAL!
Assumo que tô visitando seu blog mais vezes simplesmente para ler essa crônicas. Continue!

Postar um comentário