24 de fevereiro de 2014

O papagaio da vizinha

(Ou: Crie você um título melhor)

Então, a minha vizinha. Ela fala alto, espirra alto, lava a roupa alto, varre alto. É o tipo de pessoa que não tem botão de volume, impossível de se estabilizar e conviver consigo mesma; precisa marcar presença mesmo que seja regando uma planta. Até aí, tudo bem. Sabe, ando numa vibe de seja você mesmo para que eu consiga ser eu mesma sem empecilhos. Não tem funcionado. Mesmo. Mas como todo o resto deu errado, me vejo sem alternativas. Até consigo achar graça no fato de, dentre centenas de pessoas no bairro, eu ser vizinha da mais espaçosa. É hilário. Bom, só que apareceu um problema: a mulher ganhou um papagaio.

Eu aguento os gritos dela, seus dramas mexicanos com a família, suas músicas favoritas do Padre Marcelo Rossi tocando no talo em pleno fim de semana e os espirros que toda vez me dão a impressão de que ela (finalmente) estourou os pulmões. Digo para minha mãe: “Calma, ela só está se expressando”. Esse “calma” é mais direcionado a mim do que ao interlocutor. Um dia, porém, ela chegou em casa mais eufórica do que de costume. Logo a rua inteira ficou sabendo que um papagaio havia aparecido na casa de sua mãe enquanto ela fazia uma visita. Assim, sem ninguém ter perguntado. E com todo mundo continuando sem se importar o mínimo que fosse, minha vizinha seguiu se lamentando com a má sorte de não ter conseguido abandonar o bichinho a própria sorte. Que remédio? Trouxe o infeliz para cá.

Continuando com minha nova visão de vida: tudo bem para mim as pessoas terem o bicho de estimação que for. Contanto que estejam felizes, eu estarei tranquila ao mesmo tempo em que tento (sem sucesso) ser feliz, já que estou deixando os outros livres. Quem sabe, um dia... Só que existe essa coisa. Qual seria o nome dela? Sina. Não, não. Acho que é karma. Talvez, simplesmente, a vida. Esse jogo sem regras o qual eu ainda não entendi. E enquanto eu estava ocupada mentalizando boas vibrações para o universo, a vizinha se ocupou em instalar o papagaio aonde? No muro que divide nossas humildes residências. A casa é enorme, espaçosa igual a ela, mas o lugar escolhido foi o muro compartilhado. Por quê? Porque eu acho que atraio esse tipo de situação. Quero dizer, explicando bem resumidamente.

O papagaio não fala. Deve ser um filhote. Num clímax de puro êxtase, a mulher encontrou um pupilo. Fazem, o quê?, duas eternas semanas que ela está o ensinando a falar. Para uma pessoa que pensa alto, ensinar um papagaio que por si só é barulhento a falar não pode terminar naquela paz espiritual que almejo. O repertório não ajuda. Se eu ouvir “Parabéns para Você” mais uma única vez que seja, não sei, mas é grande a chance de algo dar errado. Para o meu lado, é claro, pois me parece que o universo agora tem um lado só: o meu. A sociedade faz o que faz e tudo dá errado para quem? Para mim. Se uma completa desconhecida engravida acidentalmente, por exemplo. De alguma forma extraordinária quem vai se ferrar sou eu. Nem que seja daqui há uns anos com a criança atropelando meu calcanhar com o carrinho de supermercado.

Esse desgraçado ainda não tem nome e já é a primeira página do meu dia a dia. Eu acordo e durmo ouvindo a vizinha tentando ensiná-lo a falar. Dor de cabeça? Não. Dor de consciência porque só pode ser culpa minha. Na mesa, durante as refeições, eu e minha mãe não falamos de outra coisa. “Como vai ser daqui para frente? Por que ela não o coloca para dentro de casa? Como eu faço para me concentrar no trabalho? Será que ela não percebe que essa voz estridente mais intimida do que encoraja o animal? Eu tenho pena dele, ali, sem saída de emergência. Pois é, talvez eu não seja o ser mais azarado da cadeia universal”. Mas nossa principal pauta é: uma lista para ajudar a vizinha a sair do “Parabéns para Você”. Parece inevitável que daqui para frente tenhamos de conviver com isso, portanto, que seja produtivo – que haja uma finalidade, pelo amor de Deus. Que esse papagaio desande a falar de uma vez e piore a porra toda logo, que é para eu me convencer de que deu errado. DEU ERRADO.

A gente não sabe o dia de amanhã. É possível que a vizinha desista, do dia para noite, de ensinar o papagaio a falar. Não descarto a possibilidade dessa animação inicial evaporar e sumir pelo mesmo caminho de onde veio. Pode acontecer do marido, ou um dos filhos, darem um sumiço no papagaio (não consigo entender como eles aguentam isso). Se continuar assim, por outro lado, eu e minha mãe combinamos de, discretamente, colocar uma cartinha na caixa de correio deles com sugestões de diálogos viáveis para um animal fonoaudiologicamente evoluído, mas pouco competitivo mentalmente.

“Não se enrugue couro velho, que te quero pra tambor”.
“Imagine na Copa”.
“Hoje é dia de lixo. Todos pra calçada”!
“A mamãe escondeu um cara no armário”.
“Não Messi comigo”!
“Neymar, nem menos”.
“Coma você o alpiste, otário. Eu vou pro bar”.
“Calhorda”!

A lista, na verdade, é enorme. A cada dia incluímos duas ou três frases, rimos sozinhas de nossa astúcia e mergulhamos novamente na melancolia do “Parabéns para Você” como pano de fundo. É, o papagaio devia ser nosso. Concordo, só que não é um animal que me agrade, ainda mais com esse meu conceito bicho-grilo de que pássaros não deveriam viver em gaiolas, seja pelo motivo que for. Estando ele lá, do lado errado, só nos resta esperar uma brecha para enviar a lição de casa adequada. Enquanto isso não acontece, o mais provável é que o pobre coitado finalmente perceba estar preso e só aprenda a dizer “Socorro”!

3 comentários:

Brendha Cardoso disse...

Li o post todo imaginando na minha cabeça como seria viver nua situação dessas e, das duas uma: ou eu enlouqueceria de vez ou acostumaria. Tenho essa qualidade (posso chamar assim, será?) de me adaptar aos ambientes, por mais caóticos ou estranhos que sejam, desenvolvi isso com o tempo e você ainda tem uma esperança de ter algo assim, haha. No mais, desejo, do fundo do meu coração, que essa gritalhona encontre um botão de volume e baixe-o, por favor, porque eu fiquei com dor de cabeça só de pensar no que tu narrou, haha. Super apoio a ideia da carta e as sugestões foram as melhores hahahahaha. Deixo minha solidariedade e por mais que a situação seja péssima, pelo menos rende posts gostosos de ler tipo esse.

Beijo!

querido-diari1.blogspot.com

Sarah Braga disse...

Poderiam mesmo deixar a lista lá e ela só de sacanagem poderia levar a sério.
Seria maravilhoso então pra você passar a almoçar rindo das falas saindo do bico do papagaio e não só passeando na sua mente e de sua mãe rs.

Thay disse...

Poxa vida, hein, Del?! Não sei sinto mais pena de você ou do papagaio! Aguentar a mulher tentando ensiná-lo a falar o dia inteiro também não me parece tarefas das mais agradáveis. XD

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