12 de março de 2014

Literatura sem graça

Já faz um tempo que quero escrever sobre isso, mas não consigo encontrar o tom certo. Com tantos blogs e vlogs literários por aí, é como entrar numa jaula cheia de leões. Afinal, quem não faria de tudo para receber livros gratuitos no conforto do lar? A premissa é simples: leitores querem livros. Eu, que fiz um voto de nunca mais reclamar de nada nem ninguém simplesmente por não ser da minha conta, senti uma cutucada tão violenta que me obrigou, timidamente, a levantar o dedo e contestar: leitores querem ler. Não sei como essa onda literária começou ou quem deu o tiro de largada, só sei que está por toda parte. O que era novidade há, sei lá, uns quatro anos atrás hoje se tornou indispensável – todo mundo fala sobre livros.

Mas a internet inteira estar debatendo sobre literatura não significa que temos opções na mesma proporção. Muito pelo contrário. De cinco vlogueiros ou blogueiros que publicam suas opiniões a respeito do que leram, na minha conta, apenas um vale a pena de ser ouvido ou lido. Não que eu espere um alto teor de intelectualismo. O mínimo que se pede dessas pessoas é uma opinião baseada de quem leu além do resumo enviado pela editora e que mantenha interesse no que está fazendo. Eu, como “consumidora” desse tipo de informação, espero ler ou assistir a opinião de um leitor falando do livro, e não de um marqueteiro ou de um consumista literário.

No começo, eu assinava vários blogs e vlogs “literários”. No calor do momento, finalmente encontrando um bom espaço para falar sobre literatura na internet, acompanhei a maioria. Então, chegaram as editoras oferecendo parcerias. Pareceu uma ótima ideia para todo mundo, por fim, receber livros em troca de nada. Até eu, que estava com uma lista de desejados bem gorda e a conta bem magra, tentei me inscrever nas minhas editoras favoritas (que tem um catálogo de acordo com meu gosto). Já pensou? Eu pensei. Num passe de mágica, eu teria uma pilha dos melhores títulos a minha espera e em seguida poderia escrever a respeito de cada um para quem quisesse ler.

Só que não.

Existe um preço. Aos poucos vão aparecendo relatos daqueles que se sentem desconfortáveis em dar notas negativas para os livros que receberam de parceria. É lógico. Além de muitas vezes não ser uma leitura agradável, um título enviado sem solicitação ou avaliação prévia do perfil do blogueiro ou vlogueiro, a propaganda está implícita. Se não, para que as editoras se dariam ao trabalho de mandá-los? De um lado os leitores mais ansiosos acham que estão se dando bem, enquanto do outro as editoras duplicam vendas, e essas sim, se dão bem sem muito esforço. Ou seja, o hobby acaba se tornando um grande negócio. A atualização de sites literários é uma tempestade de lançamentos e best-sellers de, praticamente, todas as editoras do mercado sem que o leitor justifique suas leituras ou ao menos demonstre simpatia pelo o que está lendo. Ele quer livros de graça, independente se irá gostar ou não. O importante é continuar na lista dourada da Intrínseca, por exemplo, e continuar acumulando exemplares na estante ao mesmo tempo em que acumula nada no intelecto e no prazer.

E então aparecem os consumistas – aquelas pessoas que entram numa livraria, compram quatro ou cinco livros, recebem mais seis ou sete de editoras parceiras e os empilha no criado-mudo, na mesa, na estante, na varanda, no forno. Não raro, assisto vídeos dos reclamões que gostariam de mais tempo para ler, não sabem por onde começar ou sofrem de “ressaca literária”. Pudera! Afogados em uma montanha de livros, cuja a maioria das sinopses sequer capta a atenção, é natural se sentir pressionado e desmotivado. Posso estar errada e até parecer prepotente, mas ao meu ver não são leitores, e sim pessoas com o único motivo de ostentar. Assim como os funkeiros balançam nos pescoços seus cordões de vários quilates, alguns (veja bem, eu disse alguns) blogueiros e vlogueiros exibem dia sim e dia não capas e mais capas de diferentes autores e gêneros, uma mais linda do que a outra, pois isso é importantíssimo, mas sem saberem o básico, o essencial sobre a obra.

É por isso que decidi dizer não às parcerias. Cada vez mais evito e cancelo blogs ou vlogs de parceiros (às vezes com sete, oito, nove editoras, meu Deus). Cada vez mais é notável a superficialidade das opiniões, o medo por trás do “não gostei muito, mas é um livro interessante (por favor, COMPRE-O)”, e os Book Hauls com vinte livros que ao longo do ano se concentram na resenha somente de dois deles. É uma pena ver transformarem algo tão gostoso como a literatura em um negócio frio e calculista. O consumismo é saciado, os livros são de graça...

Mas continuam sem graça.

9 comentários:

Ana Luísa disse...

Del, eu também tenho abuso com o mercado de literatura sendo explorado dessa maneira. Não só com a falta de ética das editoras em publicar obras duvidosas e mal acabadas apenas porque darão dinheiro (ex: livros da Bruna Vieira, que leva o que, 15 dias para escrever?), mas também com essas milhões de parcerias. Como você disse, 1 a cada 5 são interessantes. De resto? Blogs populares de quem tira foto de livro e escreve uma linha sobre ele, chama de resenha e tem parceria com todas as editoras só porque dá público. Na minha opinião, acho que editoras sérias deveriam se preocupar um pouco mais com sua imagem e procurar gente que realmente sabe do que está falando. Isso geraria algo muito melhor do que o que é a moda hoje em dia.
Beijo!

Hilza de Oliveira disse...

Muito se viu reclamar da quantidade de blogs de moda, mas essa nova tendência de parcerias com editoras criou uma explosão de blogs literários. Os livros viraram um objeto de consumo e não de deleite nessas mãos erradas! É como dizem: de graça, até injeção na testa!
Não pensei que o problema da indústria cultural iria atingir a literatura dessa forma.
Boas observações!

Thay disse...

Nem me fale, Del! Eu tenho horror desses blogs que fazem trinta e nove fotos do livro e publicam chamando de resenha, até levar o livro pra bosque pra tirar pra colocar na resenha eu já vi! E sim, ter livros, uma estante recheada, virou sinônimo de ostentação: a pessoa já não compra mais pela sinopse que leu e gostou, ou pelo autor que já fez bons trabalhos, leva um livro pra casa simplesmente para somar um número na estante e postar fotos no Instagram. É, nem só de coisas positivas vive o boom dos blogs literários. =/

Blank Space disse...

Eu acho que sou realmente muito preguiçosa na internet, porque quase não conheço blogs e vlogs sobre livros e literatura. E às vezes fico até pensando que seria tão bom se as pessoas na internet falassem mais sobre livros, porque eu estou sempre querendo discutir alguma história que eu li com alguém e não há ninguém que queira fazer isso.
Enfim, se as coisas estão como você fala, talvez seja melhor eu continuar a desconhecer esse tipo de blog.
Nem me fale dos "leitores de vitrine" (se é que esse termo que eu pensei agora faz algum sentido). É uma das coisas que mais me incomoda, e eles estão em todos os lugares. Um tanto de gente que vive reclamando não ter tempo de ler as dezenas de livros que comprou. Pra que comprou, então? Porque gostam desse status de intelectual, de leitores assíduos, mas concordo com você - não são leitores. Fico irritada com esse tipo de coisa porque toda vez que tento conversar com algum deles sobre algum livro, sempre me respondem que ainda não leram, e não conseguem citar nem meia dúzia de livros que tenham lido para que a gente possa discuti-los. Enfim, talvez pelo fato de que a leitura seja uma das minhas atividades preferidas, e por eu sempre querer compartilhá-la com alguém, eu me incomodo bastante com esse tipo de pessoa, porque no final fica a boba aqui falando sozinha.
Bjs

Renata disse...

Eu tinha percebido isso em alguns blogs literários que sigo. Alguns que só postavam as fotos de vários livros que haviam recebidos e faziam um mercham meio padronizado (aquela coisa de tirar as fotos e postar o resumo que tem na contra capa ou coisa do tipo) e também já estava meio cansada. Acho válido, já quis melhorar meu blog para merecer uma dessas parcerias, mas eu prefiro mesmo é ler porque quero e não porque tenho a obrigação porque recebi o livro. Imagine então essas blogueiras que têm váriaaaas parcerias, que loucura!
Enfim, ainda tem alguns blogs que compensam demais, mas outros nem me incomodo mais de procurar.
Beijo!

Camyli Alessandra disse...

Eu arrumei uma briga "catastrófica" pois parei de seguir o blog Literario... pois, respondi em um um post do tal blog sobre "as pessoas virarem consumistas por causa dos programas de TV..." esses leitores acham que precisam quebrar a TV para serem leitores... mas compram livros modinha pois viu que eles estão na lista dos mais desejados ou são lançamentos das editoras "queridinhas" continuam sendo consumistas que não leem (duvido!) mas enchem o seu guarda roupa para fotografar ou fazer vlogs com a desculpa "estou louco para ler mas ainda não tive oportunidade!" Ter livros virou modinha pois virou um mercado consumista não priorizando o intelecto das pessoas (A lista de livros para o vestibular das federais ninguém publica resenha ou pelo menos avisa que esta lendo...

Mima disse...

Ai gente... como isso é complicado.
Eu particularmente não gosto de blogs "diqueros" porque sei lá. Acho que as experiências são muito pessoais. E falar de livros é mais legal tete-a-tete.
Nunca vi vlog e os blogs literários que encontro são sempre tão simplistas que me irritam. Na verdade só vi um blog literário que super valeu a pena e volta e meia tento ver a opinião deles sobre um determinado livro.
Como eu prefiro blogs mais intimistas sou poupada dessa enxurrada, mas me irrita profundamente essa coisa da moda da leitura: fotos e frases de escritores que se leu pouco ou estão na moda. Arre, é sufocante!

lizce disse...

Ter livros sempre foi status, sempre, mas a maior parte da população não se apropriava disso. Agora sim, e as empresas se aproveitam, claro. Obviamente fica banal, vira modinha, perde o sentido, enfim, mas eu até acho que essa explosão de blogs literários tem um saldo positivo, porque toda ação tem reações boas e ruins e eu prefiro enxergar a galera que está de fato lendo mais por conta da sensação de pertencimento que esses blogs disseminam (assim como seus desafios e clubes). Eu trabalhei em uma biblioteca escolar de ens. fund. II e médio e pude perceber isso de perto - muito pouco com obras realmente relevantes, mas acho que é assim que começa mesmo, é muito difícil alguém iniciar no mundo da literatura lendo Machado de Assim ou Dostoiévski (talvez nunca leiam, não tem problema nenhum nisso).

Aline Aimée disse...

Tenho opinião parecida com a sua. Inclusive, cheguei a me inscrever para parcerias, mas depois vi a sorte que dei em não ser escolhida. Eu leio devagar e gosto de pensar nos livros, fazer conexões, ler artigos sobre eles. E se é pra falar com sinceridade deles no meu blog, quero a liberdade de criticá-los quando não agradam. Rola toda uma pressão dessas editores para os blogueiros/vlogueiros só falarem de lançamentos. E a blogosfera dos livros perdeu a espontaneidade. Todo mundo resenhas os mesmos livros sempre. Cadê a surpresa de ler uma resenha sobre um achado inusitado do blogueiro, ou a graça de saber suas preferências totalmente idiossincráticas? Não tem mais! Daí que resolvi continuar com minhas velharias, meu curso autodidata de cinema, minhas leiturinhas nem sempre interessantes para o mundo.
Fora que acho uma palhaçada esse excesso de feiras literárias que glamouriza os escritores e que parece não ter efeito nenhum sobre a rotina de leitura das pessoas.

Fazia tempo que não vinha aqui. Um pecado, porque seus textos são ótimos!

Beijo grande!

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