25 de abril de 2014

Raízes

O dia raiou vazio. As ruas cheias de asfalto. Descobri que as árvores brigam assim: os galhos velhos não dão lugar aos novos. E o mundo seria tão diferente disso? Lembrei de você - boca fechada, mente aberta. Não sei se um dia lerá esta carta, mas saiba desde agora que as nuvens são uma só - a maior frustração do homem não é ser improvável voar, mas impossível lhes dar um nó. Nua de pele, é com pesar que lhe digo: meu coração não bate, chia como água fria em óleo quente.

Eu não sei como anda o tempo por aí. Só sei que aqui ele parou. Morro um pouco a cada dia com a falta do seu ar. Antes fosse morte de morrer, mas é morte de matar. A grama nasce contra a gravidade - é um jeito bonito de pensar. A grama nasce contra a gravidade... É, amor. A grama sabe que nunca terá tronco, galhos ou pétalas. Contudo, continua lá. Ela sabe que sempre será grama pisoteada, cortada, arrancada. Olhe pela janela. A grama estará lá.

Todas as minhas metáforas cabe a você completar.

Esta carta não serve para reviver o passado ou maldizer o presente. Eu lhe escrevo na esperança de que minhas palavras iluminem o futuro. Que ele a nós não pertence - é do mundo. Mundo este que moramos e nos esquecemos de habitar. É monótona a vida, eu sei. Paciência, vamos aguardar. Criamos raízes no pior de ambos. Quem há de nos podar? Não sei se você lerá esta carta, mas eu quero que saiba: o sol nasceu uma única vez.

3 comentários:

Aline Aimée disse...

Que lindo!

ancoragem disse...

Você não faz ideia do quanto eu chorei lendo isso.

Filipe Machado disse...

Inspirador. Adorei.

Postar um comentário