25 de junho de 2014

A paz que eu mereço

Conheci muito filho da puta nessa vida. Muitas pessoas pisaram e cuspiram, se acharam no direito de me tratar feito lixo. E eu acreditei em cada uma delas. O desprezo foi a única religião que por muito tempo segui cegamente – por mim, pelos outros, por tudo. Apanhei bastante e, quando achei que eles não aguentariam mais me bater nem eu aguentaria mais a dor, apanhei de novo. E enquanto atrás das nuvens havia sol, me foi apresentada apenas a chuva. Eu chorei. E quando achei que não haveria mais pelo o que chorar, o coração parou.

Deus, sentado de costas para o mundo em sua infinita segurança, está ocupado calculando na balança quem merece mais, quem merece menos, quem não merece. Não é assim? Desde o início dos tempos o rebanho é separado: o joio, o trigo. Eu? O farelo. Transpasso por entre as lacunas da peneira. Mas tudo bem, a vida é assim mesmo – é dando de ombros que ela toma impulso. O problema? A inércia. Não fossem as leis da física, que maravilha o ar pesado. Que benção não respirar.

Dobrei meus joelhos sobre escadas, milho e brasas. Orei – um olho no peixe, outro no gato. Se eu estava esperando um milagre, respostas, bençãos, não sei. Se eu estava esperando qualquer coisa além de joelhos machucados, o desespero do ato não me permitiu ver que trilhava o caminho contrário. Foi orando para uma entidade invisível (de poder, pelo contrário, visivelmente falho), que eu senti. Não foi um encontro, uma luz, uma descoberta. Foi um sentimento.


O sentimento de que se eu permanecer ajoelhada aqui as coisas não se moverão sozinhas. O sentimento, a leve desconfiança, de que as pessoas – sim, os filhos da puta – não escutam minhas orações. Eles sequer tem ideia da magnitude de seus atos porque são só isso: pessoas. E cabe a mim interromper esse ciclo, criar barreiras. Dependo de mim mesma, e quer saber? Isso é muito bom. É ótimo, pois minha vida não está nas mãos de um destino do qual não tenho controle, sequer escolha. Estou aqui, nas minhas próprias mãos, dona do meu próprio eu.

Deus existe? Eu não dou a mínima. Pois quando se tem algo muito mais poderoso – o poder sobre si mesmo – o invisível não é notado. O caminho, meu caminho, é feito de dentro para fora sem intermediários. Sou a minha religião, acredito em mim, cuido do que é meu como a um templo. E me desculpe aos devotos, mas eu sou livre para me cultuar. Eu sou o milagre. Minhas forças, meus salmos. Eu sou, finalmente, o que tinha medo de ser. A minha paz não é a paz dos outros. Sinto muito, esta é bem mais preciosa porque eu mesma a construí. Eu a mereço!

9 comentários:

Camyli Alessandra disse...

Sou religiosa ... e acredito que cada um é um milagre mas a nossa paz nunca pode ser confundida com a paz do outros... Dane-se, sentir PAZ diante da guera fria por exemplo não podemos confundir a nossa paz com as dos outros isto é muito individual e temos todo o direito de sentir por completo!

Nicole Isoton disse...

Lembrei de uma aula de arte (ou foi filosofia?) sobre o desafio que um homem lançou pra dois pintores, era pra eles representarem a paz em um quadro. Um deles desenhou uma coisa que eu não lembro com o fundo branco, e o outro pintou o caos e um ninho de passarinho, com a mãe e os filhotes. Adivinha quem ganhou... Porque "a minha paz não é a paz do outros". Adorei!

gostodecanela disse...

não tenho mais nada pra elogiar, nem acrescentar, além de nunca mais esquecer dessa frase: "O caminho, meu caminho, é feito de dentro para fora sem intermediários". lindo lindo texto <3

Fábio Alves disse...

Paz, amor, felicidade... têm q ser sentidas de dentro pra fora, sempre. Senão, não há como enxergar isso no mundo exterior.

Mª Fernanda Probst disse...

O importante é se bastar, de alguma forma. Que a tua paz permaneça sempre.

Beijo meu.

Vitor Costa disse...

"Sou a minha religião" gostei dessa frase, assim como de todo o texto, escreve muito bem. Se a gente não acreditar em si mesmo, nada adianta vivermos no "paraíso" ou no "caos". As engrenagens imploram por movimento, antes que a vida se torne um fado.

http://omundoemcenas.blogspot.com.br/

Camila de Paula disse...

Eu não sigo nenhuma religião, acho todas limitantes demais para o livre arbítrio que tanto falam que temos. Eu acredito em Deus, acredito em carma e acredito que somos senhores do nosso destino, já dizia Henley.

Tem que ser muito forte para não acreditar em nada. Por outro lado, acreditar no incerto pode ser um tanto frustrante quando não conseguimos entender o porque de certas coisas. Que mundo louco é esse! rs

1001 julietas disse...

A paz que eu mereço, também acredito que cada um é um milagre diferenciado e tem o livre arbítrio para tomar suas próprias decisões sobre Deus, sobre a igreja, sobre o que acredita ou não. Não cabe a ninguém julgar, opinião é individual. Respeitar é o mínimo que a gente tem que fazer..

Aliás, amei o seu blog viu ? Super cheio de conteúdo e mega fofo. Parabéns <3 Você escreve super bem e é uma linda haha. Já estou seguindo aqui, vou voltar mais vezes com certeza :)
Parabéns novamente guria :))

http://www.1001julietas.blogspot.com.br/

Pamela Dal Alva disse...

Paz. É tudo que eu preciso, daqui para frente, apanhei muito e até uns dias atrás continuei sentindo dor de tanto apanhar, mas ai me entreguei mas ainda em Deus, acredito sim nele e em nossa Senhora também idai? Me ajudaram nos piiores momentos e quando disse chega e me levantei lá estavam eles para me ajudar, hoje mesmo abalada com que aconteceu, me sinto feliz, leve e com vontade de fazer tudo que não fiz..

Kisu
www.eraoutravez.com

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