18 de junho de 2014

Alfred Hitchcock não imaginou isso

A minha perna dormiu e não consigo andar, o que me deixa um pouco nervosa. Na verdade, pessoas com Transtorno de Ansiedade estão sempre nervosas, então não tenho certeza se é por culpa da perna. Mas estou feliz, pelo menos uma parte do meu corpo conseguiu pegar no sono. Enfim, do que eu queria falar? Ah, do meu chuveiro. Eu fui tomar banho, e não sei muito bem porque isso deveria se transformar em post, mas eu fui tomar banho e encontrar a tempetura perfeita nunca é a mais simples dentre todas as outras tarefas. Levando em consideração o meu chuveiro, que já apareceu aqui uma ou duas vezes, não é de se estranhar que eu fique tensa. Então, a temperatura é apenas uma de tantas tarefas cruciais.


Mas eu fui tomar banho. Estava tudo bem, o que não é um bom sinal. Não gosto quando as coisas estão bem, acho melhor quando estão más porque tenho uma sensação maior de normalidade. Se não há problemas, fico insegura – eu sei que eles surgirão dos cantos mais sombrios e esquecidos, me pegarão de surpresa, de guarda baixa, portanto é melhor que estejam sempre presentes. É exatamente isso que estou dizendo: eu não estava gostando do fato de estar tudo certo. A temperatura boa, o chuveiro funcionando direito, o banheiro devidamente vedado para evitar a entrada de ar frio. Num dia bom, tenho de usar uma temperatura para lavar a cabeça e outra para o corpo; a cortina fica balançando e grudando na minha pele; o vento entra pelas frestras e começo a espirrar; tenho que tomar banho com pressa por N motivos.

Estava ruim porque estava bom e isso é péssimo (eu nunca mais vou escrever outra frase assim). Quero dizer, não que eu devesse curtir um banho merecido, ou agradecer aos céus por tudo ter dado certo. A questão é reclamar por tão pouco. E daí que há vento? E daí que a cortina balança? E daí que existem outros pormenores? Isso é realmente um problema? Ou o problema sou eu, que não consigo simplesmente tomar a merda de um banho e seguir em frente com coisas mais importantes? Estou tão ferrada, cansada, deprimida, que me apego aos mínimos contratempos. Não é uma comparação do tipo “tem gente passando fome, então é melhor não menosprezar meu chuveiro”. Isso é muito fácil. Está mais para não reclamar e ponto final.

É só um banho. Get over it!

Estava tudo bem, daí. Resolvi que não me faria mal aproveitar um pouco. Um banho bom, por que não? Até cantei, veja você. E de repente, vinda do centro do chuveiro, em meio a água quentinha, o quê? Gotas geladas. Um único furinho, não se sabe porquê, a ciência não quer explicar, começou a jogar água gelada. Fria, não. Gelada. Bem nas minhas costas. Um ping, ping, ping tão glacial, que queimava a pele.

Eu quase fiquei feliz.

15 comentários:

Fábio Alves disse...

Sempre tem uma gota gelada pra causar esse terror na gnt, hehehe... Adorei o texto sobre uma coisa tão simples como um banho, ficou ótimo!

Brendha Cardoso disse...

Seus títulos sempre me chamam a atenção e saber que você vai dissertar maravilhosamente bem sobre algo cotidiano anima mais ainda. Mesmo percebendo o cansaço, o desânimo (e mesmo também estando assim), gostei do texto e acho muito bom a gente colocar pra fora essas coisinhas que irritam.

macabea-contemporanea.blogspot.com

Plum disse...

Arrasou como sempre, seus textos são os melhores, nunca me canso de ler e rir atoa! E mais uma vez me identifiquei em certas passagens. Já estive naqueles dias depressivos em que me apego aos mínimos detalhes aleatórios e é horrível quando eles simplesmente resolvem se alterar.

Mariana Greyjoy disse...

Não consigo parar de rir!Seu texto ta demais!Quando eu vi a gif de Psicose eu tinha pensado que uma barata geneticamente mudada entra voando junto com uma largatixa,como aconteceu comigo uma vez hahahaha!
Um beijo!

Jennifer Dias disse...

Que demais!!! HAHAHA. Eu adorei.

cronistaamadora disse...

Já tive muitos problemas com chuveiros e nada é pior do que acordar de manhã e não ter água quente. Digo isso cinco da madrugada mesmo, sabendo que tem horário e que não pode atrasar. Minha "burguesisse" é só no banho quente. Prezo por isso. Gotinha gelada? Iso é fichinha. Cê não sabe pelo que eu passo, rs.
Beijão.

Dayane Pereira disse...

Também tomo banho com uma temperatura para o corpo e outra para o cabelo, e olha que nem sou vaidosa com essa coisa toda de cuidados. Bem, o texto é demais, este título por si só me chama atenção e a crônica de chuveiro foi mto divertida de ler!

Camila de Paula disse...

kkkkk eu já tava jurando que ia terminar tudo bem e por isso você estava hashtag chateada! Quase que literalmente um banho de água fria meio a tanta "calmaria".

Yuu disse...

Engraçado você postar sobre isso, porque hoje mesmo meu chuveiro deu problema. Eu estava lavando o rosto, a última etapa do meu ritual de banho, quando a energia cai, no apartamento todo. Acontece que meu prédio é antigo e meu pai ainda não trocou a fiação original, que hoje é demasiadamente fraca. Então o disjuntor desliga quando se sente sobrecarregado e claro que o chuveiro é o maior culpado no consumo. Enfim, não foi um problema difícil de resolver, mas o susto é genuíno, e a inconveniência é grande. Também sou dessas que estranha quando as coisas estão indo bem demais, e por isso prefiro ter um desconforto óbvio ali. Mas nunca, never, jamais na hora do banho, que é única hora do dia que eu (geralmente) me sinto livre das más energias.

Mª Fernanda Probst disse...

temperatura ideal é algo que nunca consegui. E pingos glaciais não são desse mundo. Acho que estragaria tudo se tivesse pingos glaciais no meu banho. A cortina, o vento, pouco importa. mas pingo gelado não dá. não mesmo.

(ficou engraçadinho teu post).

Mª Fernanda Probst disse...

temperatura ideal é algo que nunca consegui. E pingos glaciais não são desse mundo. Acho que estragaria tudo se tivesse pingos glaciais no meu banho. A cortina, o vento, pouco importa. mas pingo gelado não dá. não mesmo.

(ficou engraçadinho teu post).

Gabriela Freitas disse...

Estou morrendo de rir, eu também estranho quando tudo anda bom demais, não é normal, e nem legal, por mais louco que seja, as coisas complicadas são mais difíceis. Mas, ainda assim, eu odiaria as gotas frias: detesto banho gelado.

http://www.novaperspectiva.com/

Helen Araújo disse...

Puts, eu sei bem como é a sensação. Quando fico feliz demais num banho, o chuveiro queima ou a luz acaba. E muitas vezes acaba SÓ aqui em casa. E é um horror pra arrumar. Da última vez eu tava ensaboada e tive que terminar com banho gelado, me deu uma dor tão grande no ombro que só de falar posso senti-la. Um perigo.
Não se sinta só nessas desventuras chuveirísticas :(

gostodecanela disse...

que post bacana Del.. é uma das coisas que as vezes acontecem comigo..tudo indo tão bem que você sente falta dessa gota gelada nas costas para dar um toque de realidade e como se fosse um pé no chão que você deve manter pra vida não te dar uma rasteira tão dolorosa..

PS.: te segui no pinterest tb <3

Vitor Costa disse...

Muito bom, sem pretensão nenhuma você escreveu um texto muito agradável de se ler, que flui como as gotas de água do seu chuveiro haha. Isso já aconteceu comigo, mas, ao contrário de você, eu achei uma merda, pois atrapalhou o meu único momento de paz e esquecimento da vida que tenho no dia.

http://omundoemcenas.blogspot.com.br/

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