8 de junho de 2014

Carta aberta ao anel de Zurique

Querido anel,

Lembra-se daquele dia em que nos encontramos numa lojinha simpática de Dornach? Você estava logo no topo do mostruário e eu, disposta a levá-lo para casa. Trocamos olhares, escolhi outros acessórios, até que finalmente o conquistei para mim. Você era feito de várias argolas de prata interligadas, bem finas, e se encaixou perfeitamente. Eu, feliz com minha primeira compra, gastando meu primeiro salário suado, te usaria nos momentos especiais.

Era primavera. Você não pôde desfrutá-la, pois estava guardado na gaveta ao lado da minha cama. Lá, as crianças não poderiam encontrá-lo, ninguém saberia de sua existência, éramos só nós dois. Sim, eu sei que comprei outros anéis, que você não foi o único, mas tente me entender: eu estava em um país novo, que provavelmente não voltarei a visitar, e quis aproveitar o máximo – comprei tudo o que era novidade, não deixei a oportunidade passar, não me arrependo disso.

Eu o usei quando, pela primeira vez, fui a um espetáculo circense gringo. Você sabe, conhecer uma companhia estrangeira na terra natal era importante para mim. Posso ter comprado muitos outros acessórios, mas escolhi você para ir comigo. E por mais que eu fique triste ao perceber que não saímos juntos em nenhuma foto daquele dia, continuo a saber que estávamos nós dois lá. Ao chegar em casa, a primeira coisa que fiz foi tirá-lo do meu dedo e guardá-lo. Você era muito especial para mim.

Então, o dia D. Como nos esquecer do inverno? Eu estava nervosa, afinal, com a neve veio minha partida. Não sabia que roupa escolher, como ficar bonita e confortável ao mesmo tempo para a viagem de doze horas. Eu só tinha certeza de uma coisa: você não iria na mala junto com os outros acessórios. Um bom casaco, eu e você. Muito bem, chegamos no aeroporto. Eu mal respirava e você deve ter percebido o motivo: odeio aviões.


Minhas mãos, você sabe, geladas. Até o inglês me esqueci de como se fala. Comecei a girá-lo no meu dedo, cada vez mais rápido, cada vez mais mergulhada em mim mesma, prestando atenção para não entrar no avião errado. Passei pela polícia federal, pelas placas, centenas delas, pelo trem, por muitos corredores, detectadores e cheguei. Nós dois, de frente para o portão de embarque, aliviados. Olhei para minhas mãos, orgulhosa. Sim, eu estava bonita.

Mas eu queria ficar um pouco mais bonita. Fui ao banheiro. Arrumei aqui, ajeitei ali, verifiquei se estava tudo na bolsa, tirei você do dedo para lavar as mãos e voltei para meu lugar em frente ao portão. Lá, eu fiquei mais de quatro horas esperando. O avião chegou, entrei, me sentei, suspirei, sorri. Abri a janela para dar um último adeus a Zurique. Decolamos, e aconteceu, no exato momento em que abri uma revista: você não estava comigo. Os meus dedos, vazios. Nada nos bolsos, nada na bolsa, nada no casaco. Por um instante me senti nua.

A imagem, de repente, ficou clara: você, sozinho na pia de mármore no banheiro do aeroporto de Zurique. Um anel lindo, talvez o mais lindo que eu tenha visto por lá, abandonado para que qualquer sortuda o encontre e o leve para casa. Ao invés de ter ido para o Brasil, só Deus sabe agora do seu destino final. Como eu pude? Não sei. Só sei que cheguei ao Brasil de mãos abanando e até hoje tenho essa sensação de falta, de algo errado, de que um pedaço meu ficou para trás. Sim, por puro descuido.

Onde quer que você esteja, anel querido, espero que esteja bem, abrilhantando festas, passeios, eventos e dias especiais. Que sua atual dona o trate bem. E que, sem desconfiar de sua procedência, tenha se sentido uma garota de sorte por tê-lo encontrado dando sopa em uma banheiro de aeroporto. A sorte, afinal, são os outros que nos proporcionam. No mais, só posso lhe desejar uma vida longa e feliz, longe de mim, mas ao mesmo tempo perto. Temos nossas lembranças, apesar do meu esquecimento.

Zurique continua linda?
Um beijo.

4 comentários:

Brendha Cardoso disse...

É incrível como você consegue pegar um evento cotidiano, que eu teria me xingando até morrer, mas nunca teria conseguido passar essa emoção prum texto tão sincero. Uma história de amor melhor que Crepúsculo, haha. Sinto por sua perda, mas como você própria disse, "A sorte, afinal, são os outros que nos proporcionam.", pode ser que era dele que a pessoa que o encontrou estava precisando...

macabea-contemporanea.blogspot.com

gostodecanela disse...

Preciso dizer que fiquei feliz demais por ver que estava entre os blogs ques estão na sua lista de links, logo ali na sidebar, bem no começo..Pensei em escrever um email agradecendo, dizendo o quanto lia teu blog quietinha sem comentar e que tinha você na minha página de links.

Enquanto ainda estava envolvida com trabalhos da faculdade, trabalho e blog recebi teu comentário sobre o texto do Moça com Brinco de Pérola. Um livro tão querido e que guardo com tanto carinho que acredito ser um dos poucos em que diria "não" se alguém me pedisse emprestado. Vi teu comentário e abri um sorriso por você elogiar tão bem meu texto, por ler meu texto (se você voltar lá vai ver que teve gente que comentou, mas eu sei que não leu) e por se sentir motivada a ler aquele livro após tanto tempo com ele na fila.

Voltando ao seu texto eu tenho que dizer o quanto você fez um crônica linda, que fala do turismo de um jeito bem interessante (fiz parcialmente faculdade de turismo e nao terminei) e eu - quase - que sinto o que você sente, quando ganhei um anel de presente do meu namorado, tirei da mão pra lavar o banheiro no bar e quando chegamos em casa eu vi que não estava na minha mão. Até hoje ele lembra do meu esquecimento e até hoje vejo meus aneis ficarem esverdeados, amarelados, ficarem descascados por conta da água e sabão, mas nao tiro mais.

Espero que volte mais vezes por lá! ;)

Fábio Alves disse...

Gosto mto desse tipo de texto, simples e gostoso de se ler.

Ana Flávia Sousa disse...

Ai gente! Até eu fiquei com 'saudade' e pesar pelo anel esquecido num banheiro de aeroporto. :/
O meu pesar de viagem é não ter comprado uma edição linda de O Pequeno Príncipe em Buenos Aires. Até hoje penso no bendito livro esquecido no fundo de uma banca do metrô. :/

Que o anel tenha vivido novas histórias! Beijo.

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