5 de junho de 2014

Dezessete anos depois

“Quando eu tiver 27 anos, nossa, vou ser mãe de família, estarei casada, cuidando da minha casa, e não poderei mais me divertir e fazer o que gosto”. Esse era o pensamento da Del de 10 anos de idade. Eu acreditava que quanto mais perto estivesse dos 30 anos, mais séria eu seria, mais responsabilidades teria, a vida estaria completa e irrevogavelmente nas minhas mãos. A Del de 27 anos, para a Del de 10 anos, era uma moça formada, apaixonada, realizada e livre. Uma mulher de seios grandes, cabelo comprido, brincos brilhantes e batom vermelho. A Del de 10 anos foi a maior fã que a Del de 27 anos já teve.

Ontem, eu atingi minha meta. Bom, a mais natural delas. Por incrível que pareça, não estou velha demais para curtir a vida e não me sinto culpada por ainda gostar de coisas que só fazem sentido aos 10 anos. Naquela época, jamais passou pela minha cabeça que eu não chegaria nem perto de me formar – algo que parece ser uma consequência certa da vida. Nada poderia sair errado. O meu destino, o destino de todo mundo, estava traçado e organizado para melhor nos atender. Então, deu errado. Os planos saíram dos trilhos, não porque eu quis, mas por ter me esquecido do principal: nem tudo depende de mim.

Nunca usei capa, a calcinha por cima dos shorts, uma coroa dourada. Estou longe de ser capaz de salvar meu próprio dia a dia. Minha vida escorre por entre os dedos, não há muito que se possa fazer. Sinto fraqueza na maior parte do tempo, medo, preocupações. Tenho cabelos brancos. Odeio me sentir bonita. Afasto as pessoas de mim para poupá-las do pesadelo que me tornei. Não tenho orgulho de mim, faltam pedaços, os olhos não brilham. O que mais tenho é ódio. Conquistas? Poucas.

Aos 27 anos, cá estou, querendo voltar no tempo, fazer diferente. Eu me arrependo do que deixei de fazer e do que deixei fazerem de mim. Mas eu era só uma criança esperando, aflita, pela liberdade dos vinte e tantos anos. Quem terá coragem de me culpar? O mito da vida adulta foi se desfazendo aos poucos, mostrando sua carranca, me ensinando que não, não é por aí. Tive surpresas boas, soube aproveitar, cresci como pude. Não é nada do que imaginei, do que achei merecer, mas faz parte de mim. Mesmo perdida, fodida e amarga, nunca me arrependerei dos sonhos que tive aos 10 anos. Eu era um máximo! Sou a maior fã que essa garotinha jamais pensou um dia ter.

Del, aos 10 anos, não imaginava ter um blog quando fosse tão velha!

12 comentários:

Dayane Pereira disse...

texto sincero. sincero com você mesma. se você não é quem queria ser aos 27, ao menos você reconhece isso, sabe que nem tudo depende de vc, e isso fará a diferença para os próximos anos. espero que a meta seja chegar aos 37 um pouco mais satisfeita. a minha é :)

Cecília Maria disse...

Adorei a sinceridade e o sentimentalismo do texto, me lembrou um pouco o tema do Rotaroots que nos desafiou a escrever uma carta para nosso eu de dez anos atrás e que foi uma delícia de fazer. Acho super válido, voltar no tempo, reavaliar nossas ações e pensamentos, concretizar antigos sonhos e desejos.
Beijo

www.blogrefugio.wordpress.com

Douglas Rodrigues disse...

Não é falta de criatividade, nem falta de vontade de comentar... é que eu tô sem palavras com esse texto.

Monique Químbely disse...

Sério que vc tem 27? Eu pensava que vc fosse bem mais nova ~~ Não que seja uma decepção. Achei super legal o seu texto, até me identifiquei. O que a Monique de uns cinco anos atrás pensava mudou tanto... Crescer pra mim era se tornar algum tipo de ser superior. Inconscientemente eu achava que tudo iria conspirar p/ que eu virasse uma grande mulher. Mas aí os anos foram passando e o medo de que quase nada do que eu queria não acontecesse foi aumentando. Porque é muito mais difícil do que a gente pensava. Para uma criança de dez anos o futuro é um prato cheio.
sete-viidas.blogspot.com

Mariana Greyjoy disse...

Estou me identificando totalmente com o seu texto!Ontem,dia 04,fiz 18 anos e me peguei nessa sensação de será que a eu de 8 anos gostaria de mim agora?Acho que sim pra ser bem sincera!
E seu texto ficou lindo!Na verdade todos os seus textos são perfeitos!
Um beijo,Mariana.

Ana Flávia Sousa disse...

Uau Del! Não sei nem o que dizer!
Primeiro, a Del de 10 anos foi uma criança linda! Que cabelo lindo! rs
Segundo: as coisas as vezes não acontecem mesmo como a gente quis e a única alternativa é fazer do limão, uma caipirinha, acho.
As vezes a gente se desespera e não vê saída em nada, mas ela existe, em algum lugar ela existe;

Você, pelo que acompanho aqui, é uma pessoa incrível e tem sim, brilho nos olhos!

Se cuida e feliz 27 anos! :D

ancoragem disse...

Adorei o post e fico muito chateada com você sendo malvada consigo mesma! Tenho certeza que mesmo com o desenrolar dos fatos diferente do esperado, sua vida deve ter tido pontos maravilhosos desde os 10 anos. Mesmo que tenham terminado, acho sempre bom a gente lembrar das coisas boas!
Abraços!

Thay disse...

Para nossas pequenas pessoas de dez anos de idade, tudo era possível e, nem por isso, devemos nos sentir diminuídas por não termos chegado lá, no topo em que elas queriam que estivéssemos. A vida, essa bandida, acontece e nem sempre nos deixar seguir nossos sonhos tal e qual planejamos, mas nem por isso devemos nos desesperar. Os caminhos podem não ter sido aqueles que planejamos, mas certeza de que coisas boas vieram mesmo assim. Ah, e que fofinha a mini Del!! Te desejei felicidades no dia, e desejo novamente por aqui, pois você merece. Um beijo!

esther r lagos disse...

que expressão tão misteriosa!
chique pra caramba esse seu texto, vc escreve mto bem, quem dera tivesse mais pessoas assim nessa porcaria de net...

Vitor Costa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vitor Costa disse...

Muito interessante essa sua sincera visita ao passado, acho que todos deveríamos reservar um tempo para nos imaginar como a projeção do nosso "eu" mais novo, será que era isso que imaginávamos nos tornar? será que atendemos as expectativas daquela criança?

No meu caso, a resposta é simples: não!, o motivo é porque eu nunca fui de pensar ou me preocupar com o futuro quando era criança, nunca fiz muitos planos e odiava aquele tipo de pergunta: "Como você se imagina daqui há dez anos?" A resposta para isso era e continua sendo: "Não faço a mínima ideia e gosto de não saber." Sou fã daquele menino despreocupado que nem notava que a felicidade era uma constância, sinto falta dele.

Aliás, não só esse texto, mas o seu blog é interessante. Agrada-me o tom confessional e despojado que você incorpora na sua escrita, talvez falte um pouco disso para mim.

http://leigopoeta.blogspot.com.br/

Adoraria uma visita

Beijos

livroseoutrasfelicidades disse...

Del, se você não chegou aos 27 como planejava aos 10, pensou no que de bom você fez e não imaginava? Pensou em todas as possibilidades que surgiram agora que saiu um pouco da inocência e entrou um pouco de experiência? No mínimo te digo que a Del de 10 anos não imaginou que a de 27 escreveria lindamente e teria fãs virtuais ;-)

Postar um comentário