22 de julho de 2014

Um exercício de tirar o fôlego

Será difícil escrever esse texto. Mas me propus a fazer um exercício que logo, com muito esforço, se tornará natural para mim. Essa é a consequência de quem se cansou: mudar. E eu estou exausta das minhas reclamações, do meu olhar negativo, das perspectivas baixas, do mau humor e sinto falta de ter esperança. Acredita? Eu estou com saudades da esperança. Nunca achei que diria isso, mas talvez os livros de Dalai Lama e Osho que ando lendo tenham algo a ver com isso. É preciso trocar a pele, na verdade. Aguentar os mesmos dogmas por uma vida inteira não é crença, é prisão.


Taí! Acabei me deparando com minha primeira gratidão sem querer: sou grata por aproveitar as oportunidades para me tornar alguém melhor. Eu não tenho medo de mudar, não me apego aos meus ideais, não me preocupo com o que os outros vão pensar. Se transformar em alguém diferente é uma das batalhas mais dolorosas da vida, dá frio na barriga, dúvidas, vontade de voltar atrás, mas eu encaro. Eu gosto de enfrentar os meus pesadelos. Eu gosto de desafiar meu ego. Estou muito bem (como todo mundo) na minha zona de conforto, mas digamos que de vez em quando dou uma reorganizada nos móveis. Sou grata por não temer o meu eu.

Falando em apego, também sou grata por cada vez mais me desapegar das coisas materiais. Antigamente, por exemplo, se eu entrasse numa loja de bolsas sentiria algo próximo a êxtase. Eu queria um monte de coisas para ontem e precisava delas quase que fisicamente. Era uma consumista do tipo “nunca serei feliz sem esse produto”. Hoje, meus olhos continuam brilhando com algumas novidades, mas me policio. Não sei mais o que é parar em frente a uma vitrine, não vejo necessidade em fazer compras exorbitantes nos shoppings, descobri o encanto de sebos e brechós, só compro quando tenho a certeza de que irei usar e que será realmente útil. Sou grata por precisar de pouco para sentir muito.

Para Buda, o sofrimento é causado pelo apego ao desejo e ao intenso ‘querer’ do ser humano, a sede de prazeres físicos, uma ânsia que nunca pode ser plenamente saciada e que, portanto, sempre irá provocar um sentimento de desprazer. O desejo deludido faz com que nos apeguemos à falsa idéia de um ‘eu’ ou ‘ego’, que possui grande apego por felicidade, ganhos, elogios e fama – e não consegue mantê-los – e uma aversão pela tristeza, perdas, críticas e difamação – e nem sempre consegue evitá-las.
Fonte

Nossa vida pode ser comparada a uma tarde num shopping center. Andamos pelas lojas, conduzidos por nossos desejos, pegando coisas das prateleiras e as jogando em nossas cestas. Passeamos de um lado para outro, olhando tudo, querendo e desejando. Vemos uma ou duas pessoas, talvez sorrimos, e seguimos adiante, sem nunca mais vê-las.

Impelidos pelo desejo, deixamos de apreciar e valorizar aquilo que já temos. Precisamos nos dar conta de que o tempo que temos com aqueles que nos são caros – nossos amigos, nossos parentes, nossos colegas de trabalho -, é muito curto. Mesmo se vivêssemos até cento e cinqüenta anos, isto seria muito pouco tempo para desfrutar da nossa oportunidade humana e fazermos uso dela.

A vida é difícil para todo mundo, isso não é novidade. A minha tem sido quase sufocante. Para ser sincera, não tem sido fácil ver o lado bom. Mas justo por isso, meu prêmio por me esforçar a descobrir o lado positivo das coisas é maior. Pelo menos eu penso assim. É gratificante apontar algo de bom no meio de tantos momentos ruins. É formidável ter sentimentos nobres mesmo que ao redor semeiem o ódio. Não foram uma nem duas vezes que consegui emergir para dar um rápido sorriso. Foi possível até mesmo agradecer pelas pessoas más, que ao menos me mostram o que não quero ser. Antigamente, eu achava esse o mais velho conto do mundo, mas é a pura verdade – a gente aprende em qualquer tipo de situação, basta querer. Sou grata por tornar possível.

Sou grata, enfim, por pensar duas vezes antes de julgar alguém, por ter mudado minha opinião a respeito de centenas de questões cabeludas, por procurar saber ao invés de simplesmente achar. Sou grata por não me acomodar comigo mesma, sempre buscar meu melhor tanto pessoalmente quanto socialmente. Eu tenho uma boa mãe, cachorros companheiros, amigos leais, uma consciência em pleno funcionamento, um coração turvo, mas em tratamento. Eu fiz escolhas erradas, hoje estou consertando uma por uma. Estou tentando. Estou me reerguendo. Brigo comigo mesma ao invés de esperar a bronca de terceiros. Esse texto foi difícil, está incompleto e acho que nunca conseguirei terminá-lo, pois sempre haverá um novo motivo para agradecer.

E sou grata por isso.

11 comentários:

Flaviele Leite disse...

Que texto gostoso de ler. Fiquei com sorriso no rosto por você. E por lembrar de mim. :)

Rick disse...

Na verdade, esse texto foi bonito. Nada melhor que saber reconhecer, no meio do caos, o lado bom da vida e continuar aprendendo. É bonito saber se aceitar e viver um pouco mais leve. No fim, nosso melhor tempo é perto de gente que nos faz feliz e nos da paz. Tudo, depois disso, é resto e detalhes.
Boa noite, bjos.

Jota Pimentel disse...

Certamente você está mais humana. E isso é bom :)

Ana Luísa disse...

Que texto lindo, Del. Me emocionei! :)

Gislei disse...

Texto tremendo, realmente as vezes nos apegamos tanto a coisas ou a pessoas!! Super curti a escrita bastante inspirador..
•• gislei.com

Vitor Costa disse...

Esse seu alentador texto me fez lembrar de um amigo meu que sempre tinha esse mesmo discurso e fazia questão de repeti-lo quantas vezes fossem necessárias. Basicamente, ele dizia que temos muito mais motivos para agradecer do que reclamar e que na vida sempre há pessoas em situações extremamente piores do que a nossa, por isso precisamos ser mais gratos e tentar enxergar o lado bom das coisas, mesmo que ele esteja escondido.

Sobre mudar, eu penso que precisamos mudar sempre, mas por nós mesmos, não por outras pessoas. É como diz aquela frase: "Seja você mesmo, mas não seja sempre o mesmo."

Boa sorte nesse seu processo otimista de mudança.

O Mundo Em Cenas

Ana Flávia Sousa disse...

Me emocionei tanto, porque preciso entrar nessa onda sabe? De mudar. De precisar de menos. De ter esperança.Ai.

Aline Aimée disse...

:)

Camila Faria disse...

Que alegria encontrar tantos motivos lindos para agradecer. Muito bonito MESMO esse texto! <3

http://naomemandeflores.com

Fábio Alves disse...

Belo texto! Sempre procure ver as coisas por outra perspectiva, mtas vezes não tão ruins qto parecem. Podem até ser boas.

Laura † disse...

Um belo texto, realmente. Pra que tanto reclamar, se temos com certeza tantos mais motivos para agradecer? Sejamos gratos por aquilo que temos, não é? E, sobre mudar, não devemos mesmo ter medo de mudar, mas sim ficarmos felizes por nos tornarmos o que queríamos.
Beijos || Unlocked Land ❤

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