26 de setembro de 2014

Coração no pé



Caiu no sapateado uma moça com um par de brincos que diziam, desesperados: Oh não, leve-me para o outro lado do salão de festas e deixe-me lá sufocar! O salão, lotado de milhões de dizeres e risos e comédias, deu um giro e alavancou entre balões coloridos que mexiam e remexiam com o borbulhar das emoções e o borbulhar das saias. A moça caída com ombros rendidos e suor a mergulhar sua testa ensaiou e titubeou e pisoteou, mas não teve como, não teve por onde escapar.

Haviam centenas de alguéns que poderiam ser quem ela quisesse: o professor de artes que era viciado em remédios, a aluna da terceira carteira à direita, sempre encostada à parede, cujos pensamentos passavam pelos olhos vidrados em alguma coisa (menos em quantos habitantes morrem de fome na África). Poderia ser, Deus do céu, a mulher da biblioteca, aquela louca, tão louca quanto cachorros loucos pela bolinha que quica insistentemente no jardim! Mas, por outro lado, sapateando efusivamente, poderia ser também o solitário do laboratório de ciências que tinha nojo de catchup. Sapateando, ou quase isso, haveria de ser o cara sem gel no cabelo despenteado, que mergulhou a cabeça em uma piscina infantil de rum. Poderia ser sapateado amador, sapateado indeciso de socialistas revoltados contra a alegria, de gente triste, descontente.

Poderiam ser metades tão caídas de surpresa quanto ela.
Ou frigideiras sem tampa.

Passavam colares tímidos como freiras em frente ao papa, suplicando: Venha cá, me ame! Aqui, sou eu, não me abandone! Sapatos masculinos arfavam em uma guerra sem fim por um ou outro objetivo repleto de testosterona, e a moça lá, no meio da perdição de bailar nota sobre nota, gente sob gente, luxúria emaranhada em luxúria. O mundo estava perdido, era fato consumado, carimbado e oficializado. Se a noite parecia perdurar e esburacar os crepúsculos da vida, a moça – com toda certeza e pouco pé de valsa – não esperava senão por uma trégua de três minutos numa ida fugitiva ao banheiro, assim, como quem procura aos 35 anos um marido. Seu par de coxas de religião severa cochichavam, esmagadas: Nós precisamos ter uma séria conversa, mocinha! Ah, papo furado...

O banheiro de porta escancarada tentava, em vão, erguer as privadas e avisar: Caia fora! A moça entrou, não entrou, tentou entrar e esbarrou. A jaqueta preta contra a manga curta e cor de fruta do verão sussurrou, surpresa. Do lado de fora do sapateado a moça encontrava-se de frente a uma coisa que é singular, inevitável e estranhamente temida: o futuro. Gel no cabelo, uma espinha no queixo, chiclete, um quê de lobo e calças jeans novas em folha lhe disseram:

— Oi!

Eu que sou narrador de cores indefinidas lhes confidencio que, ah, ser coração não é uma tarefa simples! Eu bato rápido em sapateados misturados com o instinto juvenil de não querer fazer parte de qualquer que seja a socialização. Eu soco e esmurro quando quero me esconder de olhares inquisitivos. Mas, vá entender, eu paro por completo quando devo bater. Eu não digo “oi” muito menos “tchau”. Só me é dado o bom senso de pagar para ver.

1 comentários:

Fábio Alves disse...

Texto gostoso de ler! Parabéns!

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