22 de janeiro de 2015

Do pó viemos, ao pó dos móveis voltaremos

Perdemos um ente querido na semana passada. Eu tinha certeza de que já havia experienciado a morte antes, mas as últimas semanas me provaram que eu estava redondamente enganada. Não, eu nunca tive um contato real com morte até poucos dias atrás. Não é nada do que eu achava, e sim muito pior. Acompanhar os últimos momentos de uma pessoa – mesmo que esta tenha uma idade avançada e esteja muito fraca – não é um processo fácil de ser absorvido pelo consciente. Isso revira sentimentos que nem sabíamos existirem. Pois bem, passei grande parte da minha infância convivendo com o tal ente querido, e mesmo que não fizesse parte da minha família, eu a considerava bastante. Ou seja, foi um choque e tanto constatar que aquela pessoa estava indo embora, definitivamente. Para sempre.

Pela primeira vez, acompanhei desde o princípio a despedida de alguém que gostamos muito – a internação, o sofrimento, o corpo pedindo por descanso, a pessoa aos poucos deixando de ser o que foi e por fim o último desejo (“por favor, me dê uma Coca-Cola gelada e depois desligue os aparelhos”). Eu já perdi a minha avó paterna, mas era muito pequena e não me lembro de quase nada. Já perdi dois cachorros, mas acho que seria indelicadeza de minha parte comparar. Me encontrei crua diante de uma situação natural, que acontece todos os dias com todo mundo, e não soube o que fazer de mim. Não soube me cuidar, ou o que pensar a respeito. O jeito foi seguir em frente e oferecer o meu melhor; afinal, minha mãe precisava do meu apoio. Durante uma semana e poucos dias não podíamos ouvir o telefone tocar que ficávamos aflitas, o coração despencando dentro do peito. Até que, claro, o dia chegou: uma noite chuvosa, sem energia em casa, a notícia recebida à luz de velas. É sempre assim.

Então veio o enterro – o primeiro que, com certeza, minha memória conseguirá guardar integralmente. Eu tenho um sério problema com cemitérios, algo quase físico que me impede de visitá-los, mas tive de fazer um esforço porque sou adulta e isso, além da morte, também faz parte. Fui, e agora estou na terceira semana consecutiva de insônia. Vai passar. Outras coisas, no entanto, não tem remédio. E foi ali, no velório, que meu psicológico começou a sofrer. Não por estar, contra todos os meus instintos, em um cemitério, mas por causa das pessoas. A maioria dos convidados não olhou para o caixão, não “se despediu”, digamos assim. E, olha, se eu consegui, isso era o mínimo que um parente consanguíneo deveria fazer. Outros conversavam alto e riam alto e discutiam alto. Filhos se achavam no comando de um ato que, na verdade, independe deles para acontecer. Não estávamos em um espetáculo, mas eu esperava, ansiosa, pelos aplausos a qualquer instante. Era só o que faltava para encerrar o próprio encerramento de alguém querido com a total falta de vergonha na cara.

Não pensem que sou uma protetora da moral e dos bons costumes. As pessoas podem sorrir quando quiserem.
Mas é que vocês não viram o que eu vi.

Eu achei que aquela seria a pior parte, mas o que eu não sabia é que dá muito trabalho morrer e que a pessoa, dependendo das condições, às vezes leva meses para, finalmente, descansar em paz. De fato, nunca senti um funeral em todos os detalhes. Agora, um pós-funeral sim, está sendo uma imensa surpresa. Essa parte eu desconhecia por completo, sequer desconfiei que existia. Nunca parei para pensar o que era feito da vida material da pessoa que se foi. A casa, os objetos. Os lençóis da cama? Os utensílios de cozinha? Sei lá, achei que morressem junto. Não morrem, não. Pelo contrário, muito pelo contrário. O que estou vivenciando nesse momento pode ser chamado, tranquilamente, de Batalha.

A Purificação do Templo, de El Greco

O apartamento do ente querido passou para as mãos de seus filhos. Ficou a cargo deles, também, tudo o que sobrou. Sabe? Aquilo que a gente não leva. “Caixão não tem gaveta”. Quando minha mãe me contou que começaríamos a distribuir os pertences, pensei logo em algum objeto de valor sentimental. E para mim era isso. O resto, novamente, sei lá, morre junto. Mas aí, de repente, os empregados estavam apontando para uma televisão de última geração. Estavam pedindo o fogão. As roupas de marca. De repente, os empregados estavam com os olhos vidrados, fazendo compras. Sem tirar nem pôr: fazendo compras no apartamento da pessoa que enterraram há três dias atrás. E se não fossem os filhos para dar um basta, teria sobrado o tapete, que não dá para ser tirado porque está pregado no chão. Teria sobrado as paredes porque o prédio, como um todo, precisa delas. Então, um irmão se virou contra o outro. “Não, eu vi isso primeiro. Não, isso não vai para o bazar, vai para a minha igreja. Eu já separei isso para a minha esposa, não, isso vai para o meu filho”.

Eu não fui ao apartamento.

Não consegui. Aquelas pessoas, ou melhor, aqueles urubus me deram nojo. Minha mãe entrou, pegou os objetos que o ente querido lhe reservou ainda em vida, algumas lembranças materiais do passado, coisas inúteis que os parentes guardaram para ela só para desocupar espaço (e ao mesmo tempo mostrarem para si mesmos o quão generosos são). Está tudo amontoado na sala de casa. Coisas frias, sem o menor significado, que provavelmente jamais iremos usar. Coisas que eram de outra pessoa, que agora está morta, enterrada, apodrecendo, sozinha. As sementes que deixou aqui na Terra estão alvoroçadas, garimpando seu armário de roupas, levando o faqueiro de prata debaixo do braço, dando os quadros que seu filho pintou para desconhecidos, distribuindo mercadorias, fazendo do apartamento onde habitou nos derradeiros anos uma réplica moderna do Templo de Herodes. Só que o meu sofrimento é maior, pois não acredito em um Jesus que expulsará os vendilhões.

Mas eu acredito na minha paz espiritual ao cultuar a memória de uma pessoa que me foi importante, enquanto outros renovam suas casas à custa de uma perda irreparável. Acredito em enfrentar meus medos, entrar em um cemitério e lhe deixar uma rosa, enquanto outros procuram, insanamente, lhe tirar o respeito. Minha mãe saiu, pela última vez, daquele canto que lhe foi tão caro nos últimos anos, virando as costas para uma situação que não nos pertence. A jarra de vidro, o pano de prato bordado a mão, não nos trará de volta aquilo que mais nos falta: a presença dela. Se para uns funciona preencher o vazio com um vestido de uma falecida, para nós de coração quente, sobrou o agasalho da nostalgia. As pessoas podem ser muito feias. Às vezes, cruéis consigo mesmas. Eu entendo a ganância. Deixei de ser pura há muito tempo. O problema é...

O que aconteceu com a gente?

5 comentários:

Thay disse...

Del, sinto muito que tenha que passar por isso. Enfrentei a morte dos meus avós paternos, e não foi fácil. Não existe nenhum conselho que eu possa te dar, nem nada que eu possa te dizer para aliviar esse sentimento, mas o tempo faz ficar mais brando. Nunca some, mas aprendemos a conviver com a dor. Quanto a atitude da família... bem, infelizmente o ser humano não cansa de me surpreender. =/

Fica bem! ♥

Luciana Brito disse...

Nunca acompanhei todo esse processo de perto, mas tive uma experiência parecida e sei que tudo o que tu falou faz bastante sentido. É como dizem, enterro é o evento no qual a família toda se reencontra... ou seja, vira uma festa e eu acho tudo isso muito sem noção. É complicado.

Espero que você melhore logo!

livroseoutrasfelicidades disse...

"Agasalho da nostalgia" - o evento triste gerou dor na alma e uma metáfora bonita. Meus pêsames e que você volte a dormir.

Thaís Leocádio disse...

Sempre me emocionando...

Thaís Leocádio disse...

E força! Espero que você fique bem logo

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