8 de janeiro de 2015

Fantasma

Às vezes eu acho que já nasci com Síndrome do Pânico; tipo um resquício da vida passada, tão forte, que não conseguiu se dissipar durante a passagem para essa encarnação. Fui uma bebê quieta, quase muda, que não chorava nem para mamar ou para trocar a fralda. Na minha primeira memória de infância estou com medo. É engraçado porque registrei a sensação, mas não o motivo. A partir dos meus cinco anos as lembranças são mais recorrentes: o primeiro contato com a morte, viagens, o início da vida escolar, minha mãe pintando e até mesmo a primeira vez em que vi o Bicho Papão. Pois é, por alguma razão não me esqueço do animal de olhos brilhantes que meu medo inventou, e estava na sala de casa, no escuro, quando desci sozinha procurando por minha mãe. Também me lembro da noite de Dia das Bruxas, quando eu estava brincando no quarto (ao invés de dormir) e me apareceu o Lobisomem e um vampiro. Eu posso descrevê-los ainda hoje, apesar de ter acontecido há 22 anos atrás, e tudo não ter passado de pura imaginação.


Eu fui uma criança morta. Nunca fazia barulho, não dava risadas, me escondia das pessoas porque não queria incomodar. Era isso: eu tinha pavor da possibilidade de estar incomodando ou sendo inconveniente. Ninguém me ensinou isso. Eu nasci assim – um instinto. De alguma forma, eu sabia. Logo nos primeiros anos de vida, eu já sabia muitas coisas. Ainda não descobri a maioria delas. Mas o medo, este sempre esteve presente, e eu adoraria entendê-lo. Gostaria de compreender, afinal, o que tanto me assustava. O meu pai? A vida? Ou aprendi muito cedo que estava sozinha, que dependia de mim mesma e de mais ninguém? E em seguida percebi que não seria capaz de fazer isso, entrei em pânico, e nos primeiros meses desisti?! Será que, para mim, ter sobrevivido (pelo menos até agora) é um milagre tão inesperado, que não há alternativa senão temer o que está por vir? Passei a vida inteira sentindo medo, não do exterior, do mundo ao meu redor, mas de mim mesma?

Penso muito nisso. Tentei conversar sobre o assunto com minha terapeuta – a única que pode me ajudar a encontrar essas respostas –, mas travei. Levantei outros tópicos, desviei o propósito, fingi que não era comigo. É lógico que ela percebeu, que sabe o motivo exato de eu estar ali. Nós duas sabemos, aliás. Tenho plena consciência do que estava fazendo deitada naquele divã decorado por almofadas de estampa indiana. Em contrapartida, nos dias em que tinha consulta, jamais acordei preparada para rasgar o véu e observar no reflexo do espelho minha maior e invencível inimiga: eu. Em algum lugar aqui dentro, eu sei que tenho medo de mim. Eu sei que posso me infligir cicatrizes terríveis, talvez irreversíveis. Basta dar brecha. Eu tenho essa sensação, desde muito pequena, de que basta abrir uma fresta para que eu entre e destrua tudo o que levei anos para construir.

Apesar de não falar sobre isso na terapia, criei minhas próprias armaduras. Eu dei nome aos meus medos para que eles não consigam me derrotar. A minha avó dizia que não podíamos dar nomes às galinhas: “comida não tem nome”. O que ela queria dizer, é que para se manter certa distância entre a alma do bicho e a lâmina da faca, era imprescindível não se identificar. Quando nomeamos algo ou alguém, criamos um laço. Como poderíamos, por exemplo, almoçar Filomena, a galinha que adquiriu tanta personalidade com esse nome? E Camila, a cabra do sítio, que teve uma vida digna e é lembrada até hoje? Teria sido um jantar espetacular, meu pai não cansava de dizer, mas era a Camila.

Hoje em dia as coisas tem sido mais fáceis para mim. Se sinto medo, o chamo pelo nome. Converso com ele. “Calma, não precisa ser assim”. Eu lhe dou uma condição, é esse o segredo, e ele passa a ser imperfeito. Eu sei quem ele é, onde está e posso vencê-lo. Hoje, apesar de não sabê-lo e de não ter solucionado seus mistérios, eu o conheço. É possível que iremos conviver juntos por muitos anos, ou pela vida inteira, não sei. É provável que morra comigo, assim como nasceu. A diferença é que agora lhe coloquei correntes nos pés para ouvi-lo se aproximar e me preparar antecipadamente para recebê-lo da melhor forma possível.

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