16 de fevereiro de 2015

As Aventuras de Pi (Yann Martel)

Ano retrasado, minha mãe chegou animadíssima em casa: “você precisa assistir As Aventuras de Pi”. Eu já tinha ouvido falar da adaptação para o cinema, mas não assito a nenhum filme antes de ler o livro. E como este não estava nem perto do topo da lista de leitura, pedi paciência a ela porque a coisa iria demorar. Eu não tinha a menor curiosidade de conhecer a história “extraordinária” de Pi Patel, apesar do que ouvia falar. O filme ganhou o Oscar, o livro virou best-seller, 2013 passou e 2014 também. Até que semana passada resolvi furar a fila, de tanto que minha mãe fala do filme – ela gosta de comparar a história com a vida que levamos. “Você vai se identificar muito, filha”.

Confesso que se Pi não fosse indiano, talvez eu tivesse demorado mais um ano para finalmente ler o que ele tinha para me contar. O que me chamou a atenção, também, foi sua sede por religiões. Ou esse garoto seria interessante, ou extremamente chato. No começo, nem uma coisa, nem outra. Tirando alguns ensinamentos enérgicos (para dizer o mínimo) de seu pai e alguns contratempos religiosos, eu diria que o início é morno demais para o meu gosto. Mas como eu sei que toda boa aventura precisa começar de algum jeito, e em algum lugar neutro, continuei.

Bom, a família de Pi resolve se mudar para o Canadá. Vai todo mundo de navio: ele, seu irmão, os pais e uma parte do zoológico de sua família. Como todo mundo sabe (mesmo quem não leu, ou não viu o filme), o navio afunda. O livro, para mim, começa efetivamente nessa parte. Pi, Suco de Laranja (uma orangotango), Richard Parker (o tigre), uma hiena e uma zebra são os únicos sobreviventes que convivem dias infindáveis dentro de um único bote. Daí para frente, sofri muitos momentos de tensão, quase desisti, achei ser demais para mim, que já nasci com os nervos abalados. Não é uma história bonita e por vezes tive a impressão de que o autor errou feio na mão. Havia trechos onde eu simplesmente fechava o livro, disposta a nunca mais abri-lo. As coisas que vi acontecerem dentro daquele bote estavam um nível acima da minha capacidade de compreender a crueldade da vida. O que eu não sabia, é que terminaria o livro trêmula, com as mãos geladas, à beira de uma crise de pânico.

Foi assim que fechei o livro, tomando um copo de água com açúcar. Eu estava em choque, nem um pouco preparada para o final. Foi estranho, pois estou acostumada a sacar a intenção do escritor lá pela metade, às vezes logo no primeiro capítulo, mas Yann Martel me atraiu para uma armadilha bem camuflada. Eu sentia confiança enquanto lia As Aventuras de Pi. Nada poderia me abalar. Quando me aproximei das últimas páginas, fiquei decepcionada: “mas era só isso?”, perguntei para mim mesma, sentindo raiva de minha mãe que alimentou tanto minhas expectativas. Achei que no finalzinho teria uma moral requentada, qualquer coisa sobre fé e sobrevivência, mais um enlatado para quem não tem muita bagagem literária e não leu isso milhões de vezes.

Só que aí eu tomei um soco.
No meio da cara.

As Aventuras de Pi é uma história sobre deus. A minha fé tem sido abalada por diversos motivos, ultimamente, e já há algum tempo que não acredito nessa entidade. Mas isso não me fez gostar menos do livro, pelo contrário. Acredito que alcançou distâncias muito mais profundas, lugares inóspitos, frios e escuros. Fui pega de surpresa e isso, acho, foi a melhor parte de tudo! Passei muitos dias tensa, ansiosa, para saber onde aquele livro me levaria. E sim, eu me vi na pele de Pi Patel muitas vezes após ter conhecido sua história de vida. Reli alguns trechos com olhos completamente diferentes e senti na pele a tristeza, a solidão, o perigo. Todos somos Pi Patel e Richard Parker, mesmo que só um pouquinho. O que nos diferencia é a escolha. E a minha me trouxe lágrimas aos olhos.

Eu escolhi acreditar no extraordinário!

3 comentários:

Dea Carvalho disse...

É com uma pontinha de vergonha que admito que não li o livro... mas o filme! Passei muita vergonha no cinema, viu? Altas ondas de choro.
Meu namorado todo tempo me cutucava, "ó, dedea, foi pra ti essa!" (depois de muito apanhar na vida, me tornei agnóstica)

Ainda não tive coragem de assistir de novo. Fim.

Nina Galdina disse...

Não li o livro, nem vi o filme. Inicialmente, foi uma história que não me interessou. Mas a tua resenha tá mesmo muito boa. E gosto de narrativas que se aliam a metáforas. Em sentido de literatura que envolve questões religiosas, estou em dívida com a Índia, pois achei meio sacana o que C.S. Lewis fez em As Crônicas de Nárnia, enfim.
Abraços.

http://ninagaldina.tumblr.com/tagged/blog

Vitor Costa disse...

Eu não li o livo, mas assisti ao filme. Devo dizer que o filme me surpreendeu positivamente, pois estava um pouco relutante para ver devido ao "oba oba" em cima dele. O final do filme me causou um efeito semelhante ao que o livro despertou em você, mas acredito que o efeito em você foi mais radical e intenso.
Achei genial o final ambíguo, e é possível se descobrir um pouco mais de acordo com o que escolhemos acreditar no final, a fé é uma opção, não é uma obrigação.
Eu também escolhi o extraordinário ^^ Excelente texto
Abraços

O Mundo Em Cenas

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