13 de fevereiro de 2015

Breve relato do pequeno infortúnio

Acabo de passar pela pior TPM de todos os tempos. Durou, mais ou menos, duas semanas e alguns quebrados. Eu olhava para as pessoas e o que via eram rostos cubistas, tipo aqueles do Picasso, sabe? Mas sem arte envolvida, apenas uma desconfiguração ocasionada por hormônios que, por sua vez, também estavam desnorteados, perdidos, levemente tresloucados. Eu não conseguia reconhecer meus queridos, diferenciar amigos de inimigos, era tudo um grande campo de guerra, todos unidos em um complô contra mim, que sou e sempre fui uma incompreendida.

Weeping Woman, de Pablo Picasso
Mais ou menos assim, só que pior

Nessa época – que agora passou sem deixar saudades –, inventei de fazer uma lista com motivos, vários, para não namorar comigo. Eu estava no meu melhor. Com o item número 115 se aproximando, eu decidi que não valia a pena, que era complicado mesmo, que quer saber? Farei um texto somente sobre minha TPM e não haverá necessidade de mencionar a perna torta, o dente torto, a sociopatia. A TPM basta. O “incômodo”, como diria uma velha amiga portuguesa, se explica por si só (mas Chico Buarque não explica o incômodo, o que é um importante ponto negativo).

Eu pretendia me matar, ou assassinar alguém próximo. Não exatamente um conhecido, mas qualquer transeunte desafortunado. Não exatamente me matar assim, para morrer, mas tomar Rivotril o suficiente para dormir até 2016. Porque, apesar de no meu lugar estar uma neandertal, minha parte racional sabia que aquilo iria passar; não sabia, infelizmente, que duraria duas semanas. Ninguém estava autorizado a me tocar, incluindo objetos inanimados. Se a cortina da sala, por exemplo, esvoaçasse (verbo no pretérito imperfeito, eu conferi), se ela fizesse isso, mesmo a culpa sendo do vento, mesmo sendo seu instinto primitivo de cortina, teria grandes problemas comigo. Aliás, teve. Eu passei pela janela, a cortina roçou meu braço. Eu parei, a cortina parou. A gente se encarou pelo o que pareceu ser a eternidade, até que a peguei de surpresa e comecei a torcê-la, e torcê-la, xingando, quase rasgando seu tecido fino e aos berros de “vai para fora, desgraça”, a joguei pela janela.

Não me orgulho disso.

Eu, e mais uma boa parte do hospício, estamos acostumados com meus períodos obscuros, nodosos, estranhos. Em determinada altura do mês, começo a discutir com o computador, com o esfregão, com o mundo que um belo dia acorda em câmera lenta e todo mundo resolve andar devagar na minha frente. Aí, a gente já sabe. Alguns dias demorarão um pouco mais para passar. Todo mundo se reunirá no Coliseu para, mais uma vez, assistirem de camarote aos leões saírem sem suas jubas e eu, triunfante, erguendo as mãos ensanguentadas. É uma metáfora de diversas camadas, eu sei, mas faça um esforço para permanecer na superfície.

The Christian Martyrs' Last Prayer, Jean-Léon Gérôme
O meu útero

Passou. Ficaram as lembranças de um passado remoto, que posso jurar de pés juntos que não me pertenceu, de tão longínquo e surreal. Não me lembro do que disse, do que fiz, do que li. Só sinto uma dor latente no corpo, mas tanto pode ter sido da tensão pré-menstrual quanto de uma noite mal dormida – daquelas que deixam hematomas de procedência desconhecida. Eu pedi desculpas sem saber do quê. Estou limpando cacos que não sei de onde surgiram. A caixa do mercadinho aqui da vizinhança não me cumprimenta mais. Encontrei um terço e um dente de alho debaixo do meu colchão. Não sei ao certo o que houve na minha ausência.

Naturalmente, essa não é a primeira vez (tão pouco a última). Porém, sem dúvidas, foi a mais intensa. Eu não sei o que aconteceu. Os últimos meses, talvez, consigam explicar. Algumas pessoas ao meu redor, quem sabe, tem sua parcela de causa e efeito. Ou tudo não passa de uma armação do universo, desse pedaço de tempo que chamamos 2015, que começou bem errado e fora da casinha. Ninguém sabe. A gente apenas sente – passamos as mãos pelo nosso corpo, agarramos a própria garganta, estamos vivos.

Espero que aquele arranhão no rosto da caixa do mercadinho não tenha sido minha culpa.

1 comentários:

Nathy Alcantara disse...

Nossa, nunca tinha visto TPM tão conturbada quanto a sua, rs' e provavelmente nem irei ver. A sua já me basta. O máximo que me acontece é aquela sensação de alguém cortando meu útero com uma faca de serrinha e aquela sensação de que Murphy irá conspirar para que durante meus 7 dias tudo de errado possa acontecer.
Beijo e melhoras.
http://asalvarmomentos.blogspot.com.br/

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