23 de fevereiro de 2015

Pequenas coisas, grandes incômodos

Eu não sou uma pessoa fácil. Quero dizer, numa escala de dificuldade que vai do azul para o preto, ainda que eu permaneça na parte azul, fico mais para o degradê cinza do que para o azul anil. Ou seja, dá para conviver numa boa. Joinha para mim. Daí que tem essas coisas do dia a dia, que chamamos de, sei lá, coisas, mas são recados do universo. E às vezes ele está afim de fanfarronar. Isso mesmo. Não há palavra melhor. Bela observadora que sou, não deixo nada passar em branco. Anotei os piores momentos minúsculos do meu dia, que nunca me deixarão em paz.


1. Não tem ninguém na linha
Eu estou sentada. Às vezes, trabalhando. Outras vezes, navegando na internet, lendo artigos interessantes, o fone de ouvido enrolado no pescoço, carregando um vídeo, comendo um sanduíche de dois andares. Tudo ao mesmo tempo. Aí o telefone toca e, vocês não sabem, mas me dá pânico ouvir telefone tocar. Nem precisa ser o meu, basta o vizinho demorar mais de quatro toques para atender, que eu já começo a balançar a perna e desejar que ele tenha um furúnculo na nádega. Então, se o meu telefone toca, ou eu atendo no segundo toque, ou faço o diabo para atendê-lo antes do terceiro e meio (são meus cálculos, deixa). Isso inclui: pisar no cachorro, empurrar pessoas, tropeçar nos tapetes, ralar o cotovelo na parede, bater o joelho nos móveis. Ou, no caso aqui ilustrado, cuspir um considerável pedaço de sanduíche de volta no prato, torcer a perna, fechar abas sem querer, se enforcar com o fone de ouvido e quase derrubar o notebook, cair para trás de volta na cadeira e sair rodando pelo quarto (porque a cadeira tem rodinhas). Então, pensemos: consigo atender no segundo toque e meio, ofegante, porém viva, mas a pessoa desligou. É preciso muito equilíbrio emocional, concorda?

2. Os sons mais (e menos) importantes
Começou a chover. Eu amo chuva. Como já disse, um dia bonito para mim é aquele nublado, chuvoso, frio. Então, quando chove (coisa rara, ultimamente) fico feliz. Abro a minha janela e deixo o vento entrar. As pessoas costumam me oferecer guarda-chuvas para percorrer pequenas distâncias, insistem quando recuso, perguntam se tenho certeza e sim, tenho certeza, eu gosto de chuva. Tem, sempre tem, o espírito de porco que fecha as janelas do ônibus, a espécie atormentada que é feita de açúcar, e os telespectadores. Estes últimos me atrapalham bem mais: aumentam o volume da televisão conforme a chuva cai lá fora. Chega num ponto que não consigo ouvir nada além dos programas televisos, gritos, sensacionalismos. Não consigo me ouvir pensar. Tapar os ouvidos não faz sentido, então o quê? A chuva amansa, o volume da televisão diminui. Sinto que perdi um momento da minha vida.

3. Ainda a respeito de sons...
Quando gosto ou me interesso por alguma coisa, é intenso. Só não mato um animal de porte pequeno e oferendo porque não é um costume encorajado pela minha espécie. Estou momentaneamente curiosa com determinado desfecho de uma cena da novela; preciso saber, ardentemente, qual será a resposta da mocinha para o mocinho no filme indiano mais esperado do ano; alguma guru aleatória do Youtube vai revelar seu segredo, ou o ponto X de um tutorial que demorei para encontrar. Darth Vader dirá: “Luke, I'm your...” BRÉÉÉÉÉÉÉÉ, uma moto sobe a rua. O telefone toca. O cachorro late. Alguém grita, aleatoriamente, porque em subúrbio funciona assim. O papagaio do vizinho começa a cantar Parabéns. Sua mãe te faz uma pergunta, tão sincronizada, que só pode ter sido obra de Mefistófeles. Mozart arranca numa Die Entführung aus dem Serail e não larga aquela batuta nem por um decreto. Mais um momento da minha vida se foi.

4. Surdez optativa
Eu, naturalmente, não gosto de repetir o que digo. Nasci assim, paciência. Portanto, falo clara e pausadamente, meu interlocutor sempre será um retardado tendo, ou não, diplomas de doutorado e o caramba a quatro. Eu faço a minha parte. Procuro não me incomodar. Não deixo brecha para maus entendidos, ou palavras cortadas, mal pronunciadas, não coloco vírgula onde não foi chamada. Mesmo assim, às vezes acontece. Tudo bem, eu repito. Uma vez, e já é muito. As minhas veias obstruem, mas o sangue nem chega a borbulhar. O problema é quando faço uma pergunta, por exemplo, “você prefere azul ou amarelo?”, certo. Calma, que eu preciso ilustrar. Então a pessoa pergunta: “o quê? Não entendi”. Ok, eu respiro fundo: “você prefere az...”

“Prefiro amarelo”.

A minha vista escurece.

6 comentários:

Tawani Cavalcanti disse...

É engraçado quando você lê o post de alguém e se vê nele, mesmo sabendo que a autora do post está falando de ninguém além dela mesma. Sei bem como irrita esses infortúnios diários, tem de ter uma paciência de Jó :P

Fábio Alves disse...

Td isso tb me irrita, mas não tanto... rs

Ricardo Monteiro disse...

Tudo isso também me irrita, e muito. Principalmente o fato da chuva.

Boa noite.

Denise Rodrigues disse...

Me identifico.

Belle ϟ disse...

Também sou uma pessoa bem irritada. Me irrito bem facilmente. Desse post, a coisa que mais me irrita é quando eu vou ver algo importante e alguém fala no meio disso. Na maior parte das vezes, é meu irmão. Enfim, as coisinhas mais pequenas são as que mais me irritam.
photo-and-coffee.blogspot.com

Beth disse...

ai que bom achar alguém assim. haha eu tenho a minha listinha de coisas que me irritam tbm.
a número 1 é pessoas mascando chiclete! eu tenho PAVOR! e quem masca chiclete? sempre a pessoa que está do meu lado.
a numero 2 é: pessoas comendo banana! me irrita pessoas saudaveis e que comem banana em público, aquele cheiro...ahh
numero 3: pessoas respiram alto!
a lista segue, mas vou parar. hahaha

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