9 de fevereiro de 2015

Sociologia das maçanetas

Bom, vejamos por onde começo.

Digamos que eu esteja planejando me mudar. Planejar não é bem a palavra, já que não existe um plano propriamente dito, tão pouco meios para realizá-lo (caso houvesse (aliás, não há porque não tenho meios de)). Eu quero me mudar, sair do ninho, largar a barra da saia, essas coisas. Não tenho renda fixa nem maturidade emocional, mas que outra coisa as pessoas fazem senão se jogarem sem paraquedas? Eu também quero. Então, comecei, ou melhor, começamos a procurar um apartamento. Casa, não. Já deu de casa para mim. Vamos procurar apartamento.

Veja bem...

A primeira e última vez em que morei em um condomínio eram os anos 90. Foram os apartamentos sólidos e sóbrios que estruturaram meu presente gosto para moradias. Eu não sei escolher, hoje em dia. Não é nada do que eu conhecia, muito menos do que eu esperava. Eu não preciso de academia, não preciso de sala de jogos. Se eu quiser malhar, ficar em forma, não vou gastar dinheiro com professor, com roupas caras, com tênis apropriados, para depois ter preguiça de descer ao térreo ou de correr o risco do professor não ir porque está chovendo. Eu faço exercícios em casa. Também não preciso de sala de jogos porque se eu quiser jogar (e eu nunca quero, pois tenho mais de 12 anos), posso comprar um tabuleiro ou um baralho. E jogar em casa. Quero dizer, dentro de casa, no conforto do lar, já que em qualquer uma dessas salas eu continuaria, tecnicamente, em casa.

Não preciso mencionar o cinema, a sala de massagens, videoteca, brinquedoteca (mas nunca encontrei uma biblioteca, por que será?), petplace, etc. Nada contra quem gosta dessa sensação de exclusivismo e acha que o futuro da nação é a individualidade, mas por outro lado, a tolerância não pode me obrigar a pagar por coisas que não quero no meu quintal. Eu procuro um apartamento, não um shopping. Não demorou muito para que eu descobrisse o óbvio: caso eu quisesse um lar, e não um hotel, deveria me dirigir aos condomínios antigos. Surgiu um outro problema: as pessoas não querem largar esse osso. Com toda a razão. Percebi que os moradores de prédios antigos só saem de lá mortos. É um grupo de seres esclarecidos que sabem muito bem o que estão fazendo. Espero ser inteligente assim quando crescer.

Voltemos aos prédios de drywall.

Então, domingo. Lançamento daquele condomínio lá, com nome de resort para a terceira idade norte-americana, como todos os outros, nada acontece feijoada. Ok. Tinha varanda grill, lógico, porque agora todo mundo virou sulista que adora comemorar o 4 de julho. Sala ampla para caber o ego: check. Decoração estéril imitando as casas de Caras, mas que na verdade parece banheiro público: check. Daí a corretora falou assim, olhando bem para a minha cara: “as portas de entrada são equipadas com maçanetas biométricas”. Enquanto todos os outros visitantes diziam oooooooh, acho que fiz cara de paisagem enquanto três perguntas surgiam:

  1. Por quê?
  2. Eu vou dormir em um cofre?
  3. E se o morador não tiver mãos?

1. Por quê?
Foi a única pergunta que tive coragem de fazer. A corretora não soube explicar muito bem, se agarrou na resposta “para maior segurança” e não largou de jeito nenhum. Fiquei sem saber como funciona se houver incêndio, ou caso eu perca o dedo e queira entrar em casa (adiantaria chamar um chaveiro?). Dá para arrombar uma porta dessas com grampos ou cartões de banco? E se uma criança de cinco anos não alcançar o visor? Minhas mãos, às vezes, ficam suadas, isso pode danificar o processo? Nós convivemos com leituras biométricas no trabalho, nos bancos, recentemente nas eleições. Nunca funciona. Então, por quê? Eu sei que na casa da pessoa que teve essa ideia não tem maçaneta biométrica. Na casa da presidente, a maçaneta não é assim. E se nem ela tem, por que eu teria? Essas pessoas sabem das coisas. Engenheiros, presidentes... Iluminatis não tem maçanetas biométricas. Maçons também não. O assunto da vistoria já era outro. Eu continuava intrigada. Algumas pessoas não gostaram muito da minha contrariedade. Mas não consegui encontrar sentido.

2. Eu vou dormir em um cofre?
Provavelmente, sim. Não que eu valha alguma coisa. As chances de me sentir claustrofóbica dentro daquele apartamento são gigantescas. É muito difícil depender do meu dedo para ir e vir, ao invés de uma chave, como sempre foi. Eu sinto segurança ao segurar uma chave na mão. O metal entre os dedos diz: “você conseguiu, chegou em casa”. Estão tentando tirar isso de mim. Querem que eu me tranque em um cofre. Ao pressionar meu dedo, a biometria dirá: “agora você me pertence”.

3. E se o morador não tiver mãos?
Estou arrependida. Eu deveria ter feito essa pergunta. Para os empreendedores, pessoas com cacife para comprar esse tipo de apartamento não são deficientes. Se a gente não tem mãos, eles pensam, moramos na AACC, não no condomínio deles. Deficientes não precisam se preocupar com maçanetas biométricas. Está tudo certo.

Foi uma tarde produtiva. Aprendi mais do que queria. 1) Estamos empregando trabalho e criatividade no lugar errado, e isso explica muita coisa; 2) O mínimo que a sociedade espera de mim é que eu fique impressionada com suas maçanetas biométricas. 3) Preciso esperar alguém morrer para comprar um apartamento de verdade e decorar minha sala de estar com flores de plástico. 4) Vou continuar morando no ninho enquanto o mundo não acaba.

2 comentários:

Thay disse...

Nossa, Del, você não sabe o quanto me incomoda essa história de brinquedoteca, salão gourmet - ODEIO coisas gourmet! -, academia e mais não sei quantas mil outras coisas que o pessoal tem enfiado nos "empreendimentos" imobiliários. Coloca-se tanta coisa do lado de fora dos apartamentos que os próprios ficam com as menores metragens possíveis. Sempre penso o seguinte: vou gastar meu tempo curtindo o meu canto, não quero ficar dividindo as coisas da área comum do prédio (é egoísmo isso? HAHA), então pra quê tudo isso? Quando eu morei em apartamento, quase ninguém usava esses espaços comuns, salvo os salões de festa para a comemoração dos aniversários e, ainda assim, era bem raro. Enfim, é triste ter que conviver com essa mania das empreiteiras e arquitetos, a gourmetização da vida tá enchendo o saco. =/

Fernanda Soares Machado disse...

hahaaha é a gouretização até da mudança

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