7 de março de 2015

Água parada não move moinho

Daí que tem esse episódio de Seinfeld, quando George esquece alguns livros na casa da ex namorada e não sabe o que fazer para pegá-los de volta. Talvez essa seja uma das piores consequências de emprestar livros, aliás: cortar relações com a pessoa. Jerry dá de ombros, deixa para lá, vida que segue, mas George insiste porque os livros são dele. Não importa se ele não reler nenhum deles, se servirem apenas para ficar na estante – “they're my books”! E eu entendo Costanza, de verdade. Quando eu estava viajando e emprestei um dos meus livros favoritos, fui ficando cada vez mais nervosa na medida em que a data de ir embora se aproximava e a pessoa não aparecia para devolvê-lo. Sim, eu pratico o desapego, mas ainda assim existem coisas materiais importantes para mim.

What is this obsession people have with books? They put them in their houses like they're trophies. What do you need it for after you read it?
Jerry Seinfeld

Tenho poucos livros. Minha estante consiste em favoritos e naqueles que ainda não li. Guardar algo que não vou ler novamente me incomoda, por isso fica difícil montar uma biblioteca de respeito. Eu sempre encontro uma razão para doar meus livros por mais que a história tenha me agradado. Claro que esse não é o caso de Markus Zusak, Mia Couto, Fitzgerald, Erico Verissimo e minha coleção de arte circense. Essas são as únicas obras que permanecem longe, bem longe, de uma agência dos Correios. Mas, por exemplo, o meu exemplar de A Culpa é das Estrelas já está com outro leitor há muito tempo. Conheço pessoas que teriam um faniquito só com a ideia de perdê-lo – e eu compreendo muitíssimo bem, pois cortaria meus pulsos com papel sulfite caso me desfizesse do meu A Menina que Roubava Livros. Só que, para mim, não foi um livro que deixou marcas, tão pouco existia a mínima possibilidade de relê-lo algum dia.

Faz muito tempo (muito tempo) que não faço compras em uma livraria de grande porte. Não deixou de ser meu habitat, um passeio obrigatório nos fins de semana, mas não me considero uma cliente. “Lá vem o papo bicho-grilo”, você revira os olhos. Pelo contrário, eu sinto saudades de formar uma pilha de livros e sair da Livraria Cultura carregando sacolas. O problema é que não tenho mais necessidade disso (e necessidade é coisa que não invento porque não sou louca). Encontrei outras formas de adquirir livros e, melhor, ao mesmo tempo passo para frente aqueles que não quero mais. Sou frequentadora assídua de sebos, que tem a vantagem de na maioria das vezes não venderem livros com capas de filmes, e sou membro do clube de trocas no Skoob (PLUS). Todo mundo nos Correios me conhece, vivo chegando com um pacote em mãos para enviar pelo registro módico, e a curiosidade é tanta que volte e meia alguém me pergunta de onde sai tanto livro.

As trocas mais sensacionais. Skoob, eu te amo!

Não vi o mesmo benefício, infelizmente, em sebos virtuais que cobram quase o preço de um livro inteiro no frete, então me contento apenas com trocas e sebos físicos. As trocas são de graça (a não ser que você considere muito quantias de até R$10). Já troquei por um mísero ponto títulos que estavam esgotados ou difíceis de encontrar em livrarias comuns. O máximo que paguei por um envio foram R$7, recebendo em troca um livro que custaria, em média, R$40 e tanto na Saraiava, por exemplo. Isso facilitou demais a minha vida financeira, se você quer saber. Como a cada dia que passa me importo menos com a estética da literatura (estou aprendendo a não fazer cara feia para capas), os obstáculos na hora de escolher vão diminuindo bruscamente e meu conhecimento literário aumentando.

E então, se como não bastasse, encontrei também o grupo Conhecimento Circulante, que é administrado por Daniela e Cuca Mundi através de uma página no Facebook. Você curte, confere a lista de livros doados pelos próprios membros e faz sua escolha. O livro chega na sua casa sem cerimônias. O legal é doar pelo menos um outro livro ao projeto para mantê-lo, afinal, é essa a graça. Fiz um teste semanas atrás e recebi o Passagem para Índia, de capa dura, bem conservado. Bastou mandar um email para a Daniela e, óbvio, o livro estar disponível para envio. Confesso que eu já havia esquecido da solicitação quando a encomenda finalmente chegou, só que vi pelo lado bom da surpresa.



O Conhecimento Circulante é bem organizado, até. Dúvidas e emails são sempre respondidos e, principalmente, a ideia é linda. Agora, falta cumprir a minha parte e mandar um exemplar que não quero mais para compor a lista de doações do grupo; coisa que farei o mais rápido possível porque com certeza terá alguém esperando pelo livro. Sempre tem. Eu estava esperando por Passagem para Índia, que nunca fica disponível no Skoob, e agradeço a quem doou e ao projeto da Daniela! Esses métodos tem me ajudado bastante na hora de praticar o desapego e não acumular o desnecessário. Ficou mais fácil controlar o consumismo ao compartilhar leituras com várias pessoas ao invés de deixar que os livros envelheçam na estante. Ler ficou tão barato, que só não é leitor quem não quer!

4 comentários:

Cecília Maria disse...

Eu cresci numa casa lotada de livros, porque minha mãe é professora de português para crianças, então o gosto pela leitura começou cedo. Eu só tenho uma prateleira no meu quarto que não está comportando todos os meus livros e olha que sou como você, só guardo os preferidos ou os que foram presentes de pessas muito especiais que geralmente colocam dedicatória. Depois que descobri a troca de livros no skoob comecei a desapegar, o que foi bem difícil pra mim porque eu sempre quis ter uma biblioteca que nem a do castelo de A Bela e a Fera hahaha. Mas como me falta espaço (e dinheiro) as trocas se tornaram um hábito frequente.
Vou agora mesmo procurar esse grupo no facebook, obrigada pela dica! :)
Beijo

www.blogrefugio.com

Luciana Brito disse...

Li o teu texto e me vi nele. Esses dias comecei a vender alguns livros (por estar precisando "fazer dinheiro") e me vi em uma crise por estar desapegando dos meus livros.
Mas no fim das contas, nem doeu tanto assim. Chega uma hora na vida em que a gente muda de comportamento e pensamento.
Adorei teu texto e vou dar uma olhada no grupo, pois me interessou bastante.

Beijo!

Manie disse...

achei que eu era a única que tava vivendo isso, Del.
a propósito, que saudade daqui ♥
eu também não venho fazendo questão de comprar livros. fui na Saraiva há duas semanas comprar o tal do Simplesmente Acontece e tô entrando em crise porque não consigo gostar... isso aconteceu com aquele famosinho "Se eu ficar" e eu acabei dando pra uma amiga, mesmo tendo uma capa maravilhosa.

tô julgando cada vez menos o livro pela capa e assim que tiver uns trocados vou até o sebo aqui perto de casa ver se acho "A Insustentável Leveza do Ser", com aquelas capas surradas e tal.

ps: emprestei meu A Menina que Roubava Livros (que é o meu favorito da vida pra sempre) e fiquei longe dele por seis meses, mas ele já voltou pro meu colinho ♥♥♥ é aquela versão antiga, da morte na capa. detalhe: EDIÇÃO DA AVON. mas eu amo demais e não trocaria ele pela capa do filme, só por ser bonita, até porque não imaginei a Liesel daquele jeito.

www.pe-dri-nha.blogspot.com

Gabriela O. disse...

Eu super concordo com você e tenho dito discussões internas sobre isso pq sou muito apegada aos meus livros, pelo menos aqueles que eu gosto mas tb sinto total desapego por outros. Acho que tá na hora de tomar uma atitude em relação a isso, rs. Bom post!
Beijos

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