29 de março de 2015

Cinco fatos sobre o Transtorno de Ansiedade

Em 2004, na época em que me formei no ensino médio e comecei a prestar vestibular como se não houvesse o amanhã, acabei parando no médico. Eu me sentia mal, sem saber muito bem como descrever os sintomas, e então o médico me receitou um calmante natural e passou um encaminhamento para o psiquiatra. Na época, com 17 anos, psiquiatra para mim era loucura (com o perdão do trocadilho). Além de não ter tempo, era um exagero, afinal, quem nunca se sentiu fadigado uma vez ou outra? Bom, tomei o calmante por uma semana, ou menos, porque ele me deixava imprestável: não conseguia acordar no horário, parecia estar de ressaca o dia inteiro e, como consequência óbvia, não estudava nada.

Em 2010, logo depois de voltar de viagem, caí de cama. Meu corpo tremia, meu coração parecia querer sair pela boca, sentia tonturas, dores musculares e tinha certeza de que ia morrer. Não dormia. Fui exatas sete vezes parar na emergência do hospital sem que ninguém descobrisse o que diabos estava acontecendo comigo. Até que, na sétima vez, a médica nem precisou olhar na minha cara para saber: Transtorno de Ansiedade. Ou seja, psiquiatra, remédios e terapia. Engole o choro!

Eu nunca tinha ouvido falar disso apesar de, desde os 15 anos, saber que um dia acabaria morrendo dos nervos. Pois bem. Comecei o tratamento, mas só consegui sair da cama após seis meses. Todos os meus planos foram cancelados. Até hoje, cinco anos depois, ainda não consigo enfrentar aglomerações. Sim, porque além da ansiedade em si, o TA trouxe consigo a Síndrome do Pânico e a depressão. Fui apresentada a um mundo completamente desconhecido: aquele da sala de espera de um psiquiatra, cheio de pessoas sensíveis e estranhas; ao mundo dos remédios fortes. A maioria das pessoas pensa que isso não passa de frescura, e eu digo que elas só poderão saber o que é de fato se um dia passarem por isso.


1. Não dá para “controlar”.
Quando sofro uma crise e alguém me diz para me acalmar, para mim, é a mesma coisa de quando pedem, em crises de asma, para que eu respire. Veja bem, não faz sentido. Não respiramos quando temos crises asmáticas, pois este é o princípio da asma. Da mesma forma, não ficamos calmos quando sofremos uma crise de ansiedade. Também não podemos prever quando e em qual intesidade será essa crise. Às vezes, o motivo não é aparente. Eu demoro a descobrir porque passei mal. E quando o coração começa a disparar não tem caminho de volta. Se tentamos “controlar”, pioramos porque ficamos mais nervosos ao não conseguir. Eu quase desmaiei uma vez porque, sim, os sintomas físicos são reais. O melhor a fazer é deixar o corpo reagir e, no máximo, acariciar a mão da pessoa e demonstrar apoio. É nossa mente que está se rebelando, e quando se trata disso, existem muitas coisas incógnitas.


2. Remédios: ruim com eles, pior sem eles.
Faz cinco anos que estou tomando remédios controlados e há uns meses comecei a tentar parar. Foi o pior erro da minha vida. De 2010 para cá, engordei dez quilos. Tenho que tomar cuidado com meus movimentos, pois perdi consideravelmente meu equilíbrio e minhas vistas escurecem com mais facilidade. Sinto fome, muita fome, e tenho que comer assim que ela se apresenta. Se não faço uma boa refeição no café da manhã, quando tomo o remédio passo mal. O problema é que sou o tipo de pessoa que está acostumada a tomar um copo de leite com mel, ou uma vitamina, pela manhã e já se sentir satisfeita. Agora sou obrigada a comer quantias consideráveis de pão, yogurte, frutas, para quando engolir o medicamento não começar a enjoar e sentir forte sonolência. Isso, e mais outras coisas, me fizeram tentar parar sozinha com o tratamento. O resultado foi desastroso: tive fortes enxaquecas, fiquei de péssimo humor, irritadiça e é óbvio que os sintomas da doença se intensificaram.


3. Não sou antissocial, sou ansiosa.
Perdi a conta de vezes que fui obrigada a descer de um ônibus, no meio do caminho, porque estava muito cheio e comecei a me sentir mal. Não era pressão baixa nem “estômago vazio” como costumam dizer ao me verem branca feito papel. É a Síndrome do Pânico. Começa com um frio no estômago, até que toma todo o corpo, dispara o coração e dá a sensação de desmaio. Você acha que vai morrer ali mesmo, sem tempo para avisar aos desconhecidos que seu RG está no bolso da calça e que o telefone de casa está na agenda do celular. Sim, ansiosos pensam nisso “antes de morrer”. Não só aglomerações, como também qualquer outro motivo pode desencadear isso. Até mesmo com conhecidos corro perigo – não vou a festas, encontros, reuniões, se não estiver acompanhada por alguém do meu convívio, que saiba dessas limitações. O que se inicia com mãos geladas e respiração irregular pode muito bem se estender para um estado catastrófico, que além de me fazer passar vergonha, preocupará à toa os meus amigos e colegas porque, no fim, basta que eu controle a respiração e tome água com açúcar para que a morte iminente desapareça da mesma forma que surgiu.


4. Psiquiatra não é só para loucos.
Vou ao psiquiatra a cada dois meses. Não tenho nenhum distúrbio psicológico nem atestados que me impeçam de conviver em sociedade. Quem me conhece, sabe disso, mas não consigo convencer as pessoas que me olham torto quando me veem na sala de espera em frente à porta do médico. Fica difícil passar uma boa impressão quando se está rodeada de pacientes se balançando para frente e para trás, às vezes babando, dizendo que é a verdadeira Xuxa e que a usurpadora em seu lugar é um travesti. Alguns tem cara de bobos, são aéreos, a boca nunca se fecha. E eu lá bem vestida, penteada, por minha conta e responsabilidade, mexendo no celular, lendo um livro, suspirando. Ok, não posso negar que tenho “perna nervosa”. Daí você pensa “não deve ser nada agradável”. Não é! Eu me sinto um lixo toda vez que vou ao consultório. Não sou uma pessoa incapaz, mas é o que todos pensam ao me ver no meio daqueles pobres coitados. Como todo preconceito, este também humilha.


5. Medo.
Ansiosos tem medo de tudo. Eu, por exemplo, acho que tudo pode explodir a qualquer momento. Se o aspirador de pó começa a fazer um barulho incomum, vai explodir! Se o microondas não funciona direito, vai explodir! O posto de gasolina da esquina vai explodir! O celular, que deixei carregando no criado-mudo ao lado da cama enquanto tiro uma soneca, vai explodir! E o medo mais problemático: aviões e elevadores. Minha casa está debaixo de uma rota aérea. Toda vez que escuto as turbinas, prendo a respiração. Na verdade, isso acontece desde 1996. Quando entro em elevadores, acho que vão despencar. Consequentemente, tenho muitos pesadelos. A maioria das desgraças está na minha cabeça, o que não as torna menos assustadoras, pelo contrário – sou obrigada a lidar sozinha com elas. Esses medos tornam a expectativa do meu futuro numa cena de terror, o que é nocivo se aliado à depressão. Pessoas sem controle nem acompanhamento médico acabam tomando decisões erradas por não perceberam que é tudo fruto de uma doença e não da realidade.

O dia a dia é complexo. Escrevi somente sobre o que eu gostaria de ter ouvido assim que fui diagnosticada com TA. Com certeza eu teria ficado mais tranquila se alguém me dissesse que tudo bem, está tudo bem. Existem muitos obstáculos, sim, mas é possível seguir em frente. Todo dia tenho que aprender a me virar comigo mesma porque sempre aparece um sintoma, ou um medo, novos. A terapia é a maior ajuda que um ansioso pode ter, até melhor do que os remédios, que apenas abafam o problema. Às vezes, tenho a nítida sensação de que nunca mais serei a mesma, mas por outro lado isso pode ser bom para mim. O Transtorno de Ansiedade está fazendo com que eu busque uma vida melhor, mais ampla. Pode ser que meu estômago nunca mais esteja livre dos “frios e arrepios”, e que isso me incomode para o resto da vida, mas eu vejo como uma oportunidade de treinar meu auto controle. Aliás, viver com TA, no fim das contas, é viver buscando o lado bom da vida.

E isso não pode ser tão ruim!

11 comentários:

Sarah Kaeda disse...

na parte do preconceito tive de concordar facilmente, seria tão bom se as pessoas entendessem que se trata de qualquer outra coisa menos loucura, essa taxação me deixa nervosa. Confesso que fiquei empática por teu depoimento, obrigada por compartilhar, quanto mais pessoas entenderem que não se trata de frescura, melhor.
beijos

Allan Penteado disse...

Olá!
Deve mesmo ser uma barra, como você descreveu. O importante, acredito eu, é você estar trabalhando seu autoconhecimento, porque você está se conhecendo melhor e a medida que isso acontece você entende melhor as razões e motivos dos seus sentimentos.

Eu sempre fui ansioso, embora não tenha TA, mas as coisas que mais me ajudam a diminuir a ansiedade é não ver filmes de terror (onde as tragédias acontecem) e não assistir os telejornais, onde está o pior da sociedade, e nunca mais pesquisar sintomas de doenças no Google, essas medidas me ajudaram muito a não pensar no lado ruim que a vida tem!

Acredito que pra você isso não basta e sua ajuda com o Psiquiatra é fundamental, mas pra quem, assim como eu, é apenas ansioso essas dicas são preciosas.

Beijo, força e fé!

Manuela disse...

Meu Deus, sabe quando algo foi feito pra você?
Ano passado eu cheguei ao meu máximo com crise de ansiedade, fui diagnosticada com TAG, minha mãe achava que era crise de pânico e a coisa foi muito, muito, muito ruim. Quase perdi o semestre da faculdade, só consegui terminar por causa da medicação e ajuda da minha irmã. Os sintomas físicos foram tantos que minha mente não funcionada mais, não conseguia formular uma frase que fizesse sentido.
Minha mãe optou por me levar em uma médica especializada em problemas mentais, por medo que um psiquiatra só passasse medicação.
Mas tenho muita vergonha de contar isso pra alguém, sabe? Minhas amigas souberam que eu fiquei ruim, mas nunca tive coragem de contar o que é =( Besteira, eu sei, mas sei lá.
Outra coisa que foi recomendado é que, junto com a medicação, deveria ir a uma psicóloga. Ainda não consegui ir por questões financeiras, mas acho que a partir do mês que vem será possível.
Engordar, nem vamos falar sobre isso que meu deus.

Enfim, hoje estava sendo um dia difícil e foi muito bom encontrar esse post <3
Beijos!

ancoragem disse...

Me identifiquei horrores, abraça aqui!!!!
Fui diagnosticada ano passado com Ansiedade Social, por causa de crises frequentes de síndrome do pânico, pernas nervosas e muitos outros sintomas. Comecei com um remédio faz uns seis meses, no começo achei que ele ia me matar, agora sei que eu é que morro sem ele, mas tenho me esforçado bastante na terapia, pra tentar melhorar e ir diminuindo a quantidade do remédio. Ficar dependente de remédio me deixa ansiosa. Me vi em muitas das frases do seu texto e, bom, é ótimo saber que não estou sozinha nessa loucura de se sentir maluco. Ainda bem que na minha psiquiatra eu nunca vi loucos de verdade esperando, se não acho que a humilhação ia me fazer ficar nervosa demais pra aparecer lá de novo.
Força pra gente.
<3

Tawani Cavalcanti disse...

Tenho TA já faz dois anos e no começo tomava os remedios controlados, porém quando acabou não pude voltar ao médico, meus pais sempre acharam que fosse frescura minha e que eu apenas queria "aparecer". Ainda hoje eles não entendem e acham frescura. Quando chego aos meu picos sempre desmaio, porque a Asma não ajuda, só transforma tudo 3x pior. Meus pais insistem que é "má alimentação", mas eu me alimento bem, até porque sou obrigada por causa do meu estômago ruim de nascença... Enfim, o melhor de tudo pra ti é que teve quem ficasse do seu lado certo? Eu também tenho,meu namorado entende, tenho uma amiga que sofre do mesmo transtorno...
Vou começar a terapia agora em Abril, e estou ansiosa kkk pode ? Preciso dos meus remédios novamente (lê a viciada), com o calmante eu podia ter noites de sono, mas desde que parei (ha um ano) tenho pesadelos sem parar, toda noite e quando não tenho parece que nem dormi.

O medo realmente é bem constante e a impaciência também.

Então eu digamos que te entenda, e bastante. E é sempre legal procurar outros meios de acalmar o coração...

Lucí disse...

Obrigada.

Não tens noção de como isso foi esclarecedor para mim!

livroseoutrasfelicidades disse...

Poxa, que ruim que você tenha que enfrentar isso. Mas a vida nos dá certas cartas e a gente tem que fazer o melhor com elas, né? E o fato de você se cuidar e procurar o melhor que há por aí torna sua vida mais significativa do que muita gente que não sofre de TA.

Thay disse...

Nossa, Del, eu te acho é uma guerreira, isso sim. Não deve mesmo ser fácil lidar com transtorno de ansiedade. Por tudo o que você descreveu aqui, não sei se eu conseguiria. Sou ansiosa, mas não tenho TA - e agora não sei nem se deveria me caracterizar dessa forma, parece meio errado perto de tudo o que você passa. Eu consigo fazer as coisas parecerem maiores do que são por conta da ansiedade que sinto, crio cenários incríveis na minha cabeça onde tudo dá errado, mas não me parece nem perto do que você sente. De qualquer forma, te admiro ainda mais por estar compartilhando isso aqui no blog! Espero que seu tratamento possa te ajudar cada vez mais. (:
Um beijo!

Flaviele Leite disse...

Vem aqui, deixa eu te abraçar. <3

Beth disse...

eu tenho o mesmo problema! faz dois anos acho que comecei a tomar medicamento controlado e RIVOTRIL. lembro que quando comprei pela primeira vez esses remédios, eu fiquei olhando para eles, não acreditava que eu seria uma dessas pessoas, e claro, tive medo de tomar.
hoje em dia aceito numa boa! se falto na aula pq estou em crise e depois me perguntam pq não fui, eu digo: tive crise de pânico :) me aceitei. haha
cada dia é um dia! torço para que amanha eu não esteja naquela ansiedade horrivel, e muito menos em crise! mas se acontecer, tento não ficar brava comigo...pq eu ficava!
lembro até hoje a primeira crise que tive, eu nos eua, sozinha, cada dia ficando mais frequente, eu não dormia, só chorava....até que tive que voltar! eu, no avião, sentindo coisas loucas, texas, horas esperando, avião de novo, sp, psiquiatra, remedios, e cá estou. na luta. haha
força pra gente! :)


beijos.

♪ Vanessa disse...

Gostei muito de reler esse texto, e hoje quis comentar... Eu fui ao psiquiatra quando tinha 17 também, diagnostico Síndrome do Panico, tomei vários remédios, perdi um ano no ensino médio, passava o tempo todo meio dormindo, meio dormente. Eu esqueci a maioria das coisas que me aconteceram nessa fase. Também ia na emergência quando acontecia qualquer coisa, o médico do plantão já até me reconhecia, nem me examinava (me dava ódio isso), já aplicava um 'sossega-leão'. Parei de ir no psiquiatra quando ele sugeriu a internação, achava que eu podia me matar. Eu ri, porque eu tinha medo de morrer. Já estava deprimida, e com dificuldades de relacionamento. Daí fui a um psicologo, esse sim fez toda diferença. Ele percebeu que eu ficava pior porque eu expunha muito os meus problemas e crises para os outros (família e amigos), que se preocupavam comigo, e davam atenção ao que eu sentia. Isso fazia o tempo da crise aumentar, porque quanto mais eu falava sobre, mais hipóteses do que era apareciam, mais angustiada eu ficava, mais triste por ninguém entender. Ele me pediu: tenta cuidar de você sozinha, não ficava falando que tá tendo uma crise, nem querendo ir para o hospital, espera. Pára e espera uns 30 min, respira profundamente, vai passar. Se não passar pode chamar alguém ou correr pro hospital, provavelmente você está morrendo mesmo. (heheh, eu ri). Mas passava, e o fato de não falar diminuiu muito o tempo de crise. Depois de um tempo de terapia, ele disse que a síndrome do panico havia se transformado e eu tinha TAG, eu já conseguia fazer várias coisas. Ele sempre me falava que os problemas na minha casa, influenciavam muito no meu emocional. (muitas brigas, preocupações...), então ele me disse que seria muito bom se eu pensasse em morar só um tempo. Eu fui embora, mudei de cidade, estado. Claro que na viagem pro RS, tava procurando a saída de emergência do ônibus e era a unica com cinto de segurança, e olhava para os passageiros pensando se eram os últimos rostos que eu veria. Mas me sentia bem, apesar de tudo. E me sinto bem agora, alguns anos depois. Não sumiu, nunca vai sumir, mas aprendi a lidar, a aceitar... a me cuidar.
Espero que você esteja bem. Obrigada pelo texto, gosto muito do seu blog.

Postar um comentário