21 de abril de 2015

Budismo (agora de verdade)

Com espanto percebi que já faz mais de um ano que publiquei meu primeiro texto sobre budismo aqui no blog. De lá para cá, muita coisa mudou. Naquela época, outubro de 2013, eu estava começando a engatinhar e o texto (mais sarcástico do que explicativo) não foi interpretado da forma como eu esperava pela maioria dos leitores – ninguém raspa a cabeça para se tornar budista e se desfaz de todos os bens materiais para passar a viver usando togas alaranjadas. É preciso muito espírito esportivo para ler o Bonjour Circus.

(...) no Budismo cada um salva a si mesmo. Você não pode esperar que outra pessoa sinta o gosto de algum alimento por você: é você quem deve degustar tal coisa com o seu próprio paladar! Da mesma forma, não podemos esperar que outra pessoa mude o nosso interior: apenas nós temos acesso a ele.
Introdução ao Budismo (Sangha Online)

Como eu ia dizendo: muita coisa mudou. Eu li mais, pesquisei mais, abri mais a minha mente e, apesar de não ter sanado todas as minhas dúvidas, me joguei de cabeça para então emergir como uma boa e humilde flor de Lótus. Infelizmente, encontrei bastante resistência em casa e na família, cujos membros são, em 99% dos casos, cristãos. Fui obrigada a escutar que existe um único deus, infinitamente bom, que ama seus filhos (menos os budistas, aparentemente). Também ouvi dizerem que eu estava me afastando de Jesus por causa de minha revolta com a atual (porém, ao que tudo indica, permanente) situação. E enfim, “é só uma fase, você vai mudar de ideia, isso é inaceitável, mas e deus, onde fica deus nessa história”? Até que tive uma conversa séria com minha mãe (a única opinião que me importa é a dela). Ela me ouviu com atenção, sem julgamentos e por fim sentenciou: “desde que você cultue o amor, só quero que você seja feliz”.

É um processo longo e penoso, esse de se “converter” a outra religião (ou filosofia). Fui batizada e criada na igreja luterana mais por pretensão do meu pai do que por fé. Desde criança odiei o lugar, os cultos e, principalmente, as pessoas. Nunca achei o pastor da comunidade um homem de confiança, pois apoiava quem lhe convinha no momento. A gota d'água foi no dia da minha Confirmação (o equivalente à 1ª Comunhão no catolicismo), quando uma senhora de 70 e tantos anos chegou, me olhou de cima a baixo, e fez cara de nojo. Naquele instante, eu soube que jamais seria um deles – eu não me encaixaria em suas crenças tão pouco no status quo. Meu vestido branco modesto, em contraste com o figurino de grife dos outros adolescentes, destoou de tal forma que todos, sem exceção, fizeram com que eu me sentisse um lixo. Sem mais, nem menos: um lixo.

Foi mais ou menos logo após essa época (meus idos quatorze anos) que me encontrei sem rumo espiritual. Eu sabia que tinha uma alma e que precisava cuidar bem dela, mas não sabia como. Deus, aos poucos, começou a desbotar. Quanto mais eu sofria, mais rezava, mais castigos físicos me infligia. Nada. Às duras penas aprendi que existem humanos mais fortes e perversos do que o senhorzinho bonachão do segundo testamento. Ou, quiçá, que esse senhorzinho (se realmente existe) não está dando a mínima. Depois de ter tentado e não ter encontrado ninguém lá em cima – tive essa convicção por muitos outros motivos que não cabem aqui (#falseabilidade) –, aí sim, me vi com uma mão na frente e outra atrás.

Como eu já disse algumas vezes por aqui, tenho um paladar religioso bem eclético; ou pelo menos tinha. A partir do momento em que me vi sozinha no universo, comecei a experimentar o espiritismo, o catolicismo, me aventurei pelas bordas do judaísmo, do islamismo e até do hinduísmo. Tudo isso na calada da noite porque já sabia que minhas metamorfoses não seriam bem vindas. Ou seja, sempre acreditei na minha espiritualidade, só a parte da religiosidade não me convencia de jeito algum. Só que foi a partir do hinduísmo que eu acabei reencontrando o Budismo; uma escola que eu já havia explorado antes.


Então, chegamos ao meu primeiro texto sobre o assunto aqui no blog, retornamos ao início de tudo. Não parei minha pesquisa naqueles primeiros livros, fui me interessando cada vez mais e, o importantíssimo, fui me encontrando, me identificando. Pela primeira vez, me senti acolhida em um grupo de pessoas (quanto ao nicho religioso). Passei a frequentar o Sangha Online (e finalmente me senti segura para fazer o registro e começar a participar), o Sobre Budismo se tornou uma boa fonte de reflexões para mim e encontrei grande ajuda no Acesso ao Insight. Procurei consumir diariamente, de pouco em pouco, todas as informações que encontrava na minha frente.

A minha conduta mudou; da leitura passei à atitude e trouxe o Budismo para o meu dia a dia. Apliquei grande parte do meu tempo ao desapego porque notei que era um dos meus maiores defeitos. Iniciei um ciclo de meditação, e não vou dizer que foi perfeito porque, pelo menos para mim, por enquanto é difícil. Não desisti. Resolvi começar a fazer aulas de yoga na tentativa de melhorar minha disciplina e deixar de ser tão sedentária – o sendetarismo atrapalha qualquer prática. Sim, funcionou! Quero dizer, ainda é complicado meditar, mas além de ter perdido uns quilos, eu me sinto melhor e mais focada. Acho que agora é só uma questão de tempo e persistência.

Mas como decidi me tornar budista de uma vez por todas? Quando e aonde isso aconteceu? Olha, eu não sei responder. Aos poucos constatei que Buda era o tipo de pessoa (sim, de carne e osso!) que eu queria seguir. O Budismo, que eu prefiro chamar de filosofia e não de religião, conseguiu preencher lugares abandonados em mim, trouxe à tona a minha espiritualidade e o mais importante: despertou o melhor de mim. Gradativamente, abri portas, janelas, arrastei os móveis, enrolei os tapetes, coloquei algumas coisas para fora para “tomarem um sol”. É claro que ainda estou cheia de dúvidas, que não pratico à risca todos os ensinamentos, mas existe um início para tudo. Não estou com pressa. Eu poderia cair na armadilha de começar a comparar o meu deus de antes com sua ausência agora, insultando vários leitores e suas crenças pessoais, porém, prefiro aceitar as coisas como foram e como são. Pois sim, muita coisa mudou e mais coisas irão mudar. Estou pronta para tudo isso? Ah, é aí que está a melhor parte!

Namastê.

2 comentários:

Fernando disse...

Olá
Primeira vez que visito seu blog. Conheci através de um grupo no face e seu relato é bem interessante. Passamos a vida toda tentando nos encontrar e essa não é uma tarefa fácil. Principalmente no que diz respeito a religião (ou a uma filosofia) é mais difícil ainda, pois podemos esbarrar em pessoas que podem mudar nossa opinião a respeito de tudo. Sinto que isso aconteceu com você, pois procurou outros caminhos justamente por não se encontrar onde estava. Mas gostei demais da forma franca com que você fala sobre o assunto. E também gostei demais do seu blog. Espero voltar em breve. Se puder visite meu blog também. :) Grande abraço

www.fernufala.com

Douglas Rodrigues disse...

Ódio total!
Não pela sua escolha, mas porque eu tinha escrito um comentário enooorme aqui sobre o assunto e o Google Chrome travou e reiniciou.
Depois digo o que eu penso.
Só vou resumir meu comentário a: respeito totalmente sua decisão, admiro a forma como você a tomou (racionalmente), Deus (eu acredito nele - hehehe - e não é esse a quem essas pessoas que te fizeram mal seguem) é vivo e, se você estiver no caminho "errado", digamos, Ele mesmo vai te mostrar isso. Se não, um pouco mais de amor e equilíbrio não vão fazer mal a essa humanidade.

Andei sumido e o meu último Post do Blog explica o motivo.
Estava com saudade dos seus textos.
Espero voltar a frequentar aqui como antes.
Adoro seu Blog.

Beijos
=*

O Coração do Menino

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