25 de maio de 2015

Biografia de uma batata

Luna encontrou uma batata. Verdade seja dita, foi a batata que encontrou Luna. Eu não sei como isso aconteceu, pois guardamos todos os alimentos fora do alcance dela. Por isso prefiro pensar que a batata, um belo dia, cansou de ser batata e decidiu desbravar nossa cozinha. Digamos que ela era a ovelha negra da família, ou neste caso, do saco.

Ainda na horta, revolvida na terra irrigada, Batata – sim, letra maiúscula, pois agora temos uma personagem – sabia que nascera para o mundo. Na época da colheita ela seria levada para longe de sua terra natal, nunca mais veria suas companheiras, mas nada disso a inquietava: a vida era grande. Sabe-se lá quem a compraria, com quais outras batatas conviveria e para qual casa seria transportada. Por que ter medo disso? Olhe só quantas oportunidades! As probabilidades (uma batata não sabe o que é probabilidade, mas como todo ser vivo tem uma vaga ideia a respeito) eram infinitas, portanto, lhe restava relaxar. O instinto, ela já possuía.

Calhou que Batata veio parar na minha casa. O hortifruti do bairro estava com uma excelente promoção: cinco quilos de batata por um preço irresistível. Veja bem, eu sou de descendência alemã. Apesar de me opor a essa síndrome de vira-lata que assola 90% dos brasileiros, cujo principal sintoma é, com o perdão da expressão, dar o bumbum para os estrangeiros, fui criada sob a influência dos Fritz e não tenho por onde negar. Gosto de batata. Cinco quilos de batata, então, eu adoro. Ainda na fila, esperando minha vez, imaginei os purês, panquecas e sopas que faria. Salivei com a miragem de uma bacia de batatas fritas.

Pois bem. Batata não fazia ideia de que fritaria no óleo quente e teria uma morte rápida e violenta. Arrisco dizer que, me observando de dentro de seu saco, após sofrer uma terrível viagem e estar com dor nas costas (batata tem costas?), ela deve ter me achado simpática. Eu sou simpática, à primeira vista. No mínimo ela achou que eu era uma carnívora convicta e que jantaria um pedaço de picanha – jamais batatas. Fomos para casa.

Batata deve ter se achado o ser mais azarado na face da Terra já que uma semana havia se passado e ela ainda estava no mesmo lugar. Nenhuma aventura. O seu destino não acontecia nunca. Todas as suas colegas sumiram, saíram do saco e não voltaram mais. “Talvez”, Batata pensou, “aquela moça não seja tão carnívora assim”. Não sou. Será que, então, Batata decidiu fugir? Tecer sua própria sina? Não sei. Hoje de manhã, sem mais nem menos, talvez depois de muito batalhar para escapar e atingindo sabe-se lá que distância, ela me apareceu na boca da Luna.

Para você ver, Luna jogava essa batata para cima e para os lados, corria atrás, descascava aos poucos com a ponta de seus dentinhos de leite. Pareciam melhores amigas de infância. O Tony aproveitava e comia os pedaços soltos. Acontece que agora há pouco fui obrigada a abandonar o que estava fazendo porque Luna não parava de chorar e fungar por debaixo dos sofás. Ela perdeu a bendita batata.

Onde está Batata? Eu me perguntei. Levantei os sofás (sim, a que ponto...), arrastei os móveis, ergui tapetes, vasculhei o quintal. Nada. Como pode uma batata sumir desse jeito? Luna, os olhos azuis arregalados, girava a cabeça de um lado ao outro também sem entender. Não que ela tenha uma real consciência de batatas, ou qualquer outra coisa, mas ela tinha uma batata e depois não tinha mais – isso basta. Não achei. Procurei por todos os lugares possíveis, cheguei a cogitar a ideia da Batata ter sido comida. Improvável. Luna tem a boca pequena, Batata era de média para grande. Além do mais, minutos atrás ela estava entre nós. Evaporou.

Batata, nesse momento, deve estar pedindo carona na estrada. Ela quer voltar para a horta.
Aprendeu o que todos nós, um dia, aprendemos: a vida é uma vadia sem coração.

5 comentários:

Alessandra Rocha disse...

HAHAHAHAHAHAHA MAS GENTE! Que incrível! O cachorro que a gente meio adotou meio roubou do meu vizinho babaca tinha essa mania de pegar tudo o que se encontrava no "primeiro andar" da fruteira grande que a minha mãe tinha... Batatas, Cebolas, Mangas.. no caso acho que elas eram mais vítimas do que aventureiras! Mas chorei com esse texto Del! Incrível!

Uma vez em Dublin - eles são >a terra< das batatas, tem um dia da batata lá sabia? - compramos 3 sacos com 5kg de batatas por 25¢ você acredita? Foi lindo!

Beijo!

Vitor disse...

Cachorra danada hein?!
Mas a batata aventureira já ganhou essa. Essa batata já está mais preparada pra vida do que eu! hahaha

Tawani Cavalcanti disse...

Da até pra fazer desenho animado! Muito bom haha

Felipe Fagundes disse...

Hahahahahaahah

Que texto cômico! Vida longa para Batata :)

Monique Químbely disse...

hahaha, muito boa a história da batata! criatividade:10!

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