26 de maio de 2015

Não seria eu

Não seria eu sem as asas costuradas, meio tortas, que não sabem mais voar. Não seria eu sem o coração gotejante, arrítmico, que bate na garganta. Se não fossem as palavras encardidas, os verbos esfarrapados, não seria eu. Há vagas lembranças, pequenas marcas, frágeis esperanças. E sem a decepção, não seria eu. Adormeço sob as estrelas, sobre a terra, sou nômade na minha estrada. Se não fosse a caravana dos pés descalços, se meu sangue não tingisse as pedras, definitivamente, não seria eu.

Se fosse uma simples afirmativa, escolhas a dedo, uma simplicidade descolorida, não seria eu. Eu sou o amor envelhecido, a vertigem, o medo do fogo, as mãos geladas. Sou os livros na estante, a cama desarrumada, cortinas fechadas, flores na janela. Não seria eu se não fossem os detalhes, o que ninguém notou, o sorriso arredio. Sou muitas milhas, migalhas, milagres. Se eu fizesse um discurso acalorado, não seria eu.

A música de uma nota só. Olhos acuados, de quem não tem para onde ir. O relógio quebrado, o pó nos móveis, lençóis balançando no varal, cheiro de grama cortada, a flor no asfalto. Muros velhos, portões abertos, luz acesa na janela. Um bilhete no espelho, um beijo na testa. A vida é um circo que leva o mundo na bagagem.

E isso sou eu.

A Thay me indicou para essa tag há um século atrás! Aproveitei a ocasião para, finalmente, participar.

3 comentários:

Jéssica Trabuco disse...

Estou voltando ao meu blog, à blogosfera, e você está na lista dos blogs que eu sempre li. E ainda bem! Texto tocante... e tem uma frase que vou levar comigo, me dê licença! "A vida é um circo que leva o mundo na bagagem."

Parabéns pelos escritos (:

Marcela Pedrosa disse...

Eu já tinha lido outras respostas a essa tag, mas a sua, realmente, superou todas. Muito bom.

Monique Químbely disse...

Que fofo <3 Valeu a pena você ter demorado pra responder essa tag :)

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