9 de junho de 2015

Livros indianos

Eu amo a Índia. Quero dizer, temos uma relação muito íntima, estou fascinada, mas há um obstáculo que impede nosso enlace definitivo: a cultura. Quanto mais leio sobre o país e a cada vlog de indianos que assisto mais confusa fico. Índia: ame-a, ou deixe-a. Os indianos sabem ser esquisitos. No entanto, não descartei a possibilidade de estar sendo vítima do estereotipo. Sim, nós brasileiros sabemos muito bem o que é isso – para os estrangeiros, “todo brasileiro” sai do útero da mãe quicando uma bola de futebol. Para mim, “todo indiano” tem as vacas como sagradas e toma banho no Ganges. Por mais que haja muçulmanos, siques e outras centenas de religiosos, para nós a maioria é hindu.

Bom, o que eu faço com esse amor todo? Assisto Bollywood, me acabo com os dramalhões de Shahrukh Khan, com certeza. É claro que o cinema não passa de mais um anestésico, ainda mais para um país que vive fervilhando. Mas eu me permito esse guilty pleasure. Além disso, cada vez mais procuro ler livros e escritores indianos, ou que contam alguma história que se passou na Índia, ou que tenha qualquer coisa a ver com o assunto. Eu sinto a necessidade de compreendê-los, tenho curiosidade de ir mais a fundo e tentar encontrar algumas respostas. Por enquanto minha carga literária é bem leve, e de livros teóricos não conheço nada; decidi começar devagar, me divertir primeiro, ser iniciada sem susto. Depois de ter conhecido estes cinco livros, acho que foi a escolha certa.


1. Paixão Índia (Javier Moro): encontrei este num sebo, bem na hora em que havia decidido a ler mais sobre o país. Eu não sabia por onde começar exatamente – como nunca sei –, e uma biografia romanceada talvez tenha sido arriscado. Entretanto, entre mortos e feridos todos se salvaram. Consegui me colocar na pele de Anita Delgado e isso já conta um ponto positivo para o autor. Já devo ter falado desse livro por aqui pelo menos duas vezes, mas que encanto é a memória curta! A história de Anita daria um Bollywood se os indianos não estivessem preocupados somente com os romances saídos de suas cabeças. O livro abrange a colonização inglesa e também o impacto da cultura indiana nos estrangeiros. Digamos que Anita passa por situações inusitadas desde que decidi aceitar o pedido de casamento do rajá de Kapurthala.


2. Os Filhos da Meia-noite (Salman Rushdie): para não correr o risco de ser repetitiva, aqui está a resenha que fiz no ano passado. Por outro lado, nunca é demais ressaltar o quão legal é ler Salman Rushdie descendo a lenha em Indira Ghandi. Pretendo relê-lo logo; é o tipo de história que ganha novas cores e interpretações a cada nova leitura.







3. As Aventuras de Pi (Yann Martel): quanto amor é possível sentir por Pi Patel? Não há cálculos. Também há uma resenha, mas muito aquém do que o livro significou para mim. Entrou para o meu seleto grupo de favoritos. Eu sei que a maioria de vocês assistiu o filme e me assusto com a mínima quantidade que leu o livro. Pi Patel é um menino indiano que viajará com sua família para o Canadá, levando alguns animais do zoológico de seu pai. Não deve ser novidade para ninguém que o navio naufrága e Pi fica sozinho em alto-mar com um tigre. O livro não é focado na cultura indiana, mas achei interessante a curiosidade do protagonista em relação às religiões.




4. A Extraordinária Viagem do Faquir que Ficou Preso num Armário da Ikea (Romain Puértolas): O PIOR LIVRO, em caixa alta mesmo, que eu li na minha vida inteira. Por que está na lista, então? Para sabermos o que não se deve dizer, ou escrever, sobre um indiano (ou qualquer outra cultura que não a nossa). Eu não sei se o autor estava tentando ser sarcástico e engraçado, ou se é completamente ignorante. Fato é que Ajatashatru Ahvaka Singh, o protagonista cujo sobrenome já indica ser um sique, trocou de religião uma dezena de vezes ao longo da história. Isso me irritou de um jeito, que vocês não fazem ideia! O livro tinha tudo para ser original se o escritor tivesse tido o trabalho de conhecer um indiano de verdade (eles são bons para comédia). Só que os franceses estão se saindo uns verdadeiros imbecis.


5. Passagem para a Índia (E.M. Forster): este sim, é um excelente livro para quem quiser conhecer um indiano (fica a dica, Romain). Trata bruta e simplesmente do domínio inglês e a convivência entre os povos. É um ótimo primeiro contato e me arrependo de não saber disso no dia em que comprei Paixão Índia. E.M. Forster deve ter sido um observador nato para ter construído Dr. Aziz, o protagonista. O que mais me encantou foram a fragilidade e superficialidade típicas do povo europeu caracterizadas nos personagens ingleses. Adela Quested é tão detestável que a vontade em mim de esbofeteá-la é quase física. Leiam Passagem para a Índia e odeiem senhorita Quested junto comigo.

2 comentários:

Alessandra Rocha disse...

Peguei raivinha de Pi por conta daquela história de ter sido "plágio" de um autor brasileiro e mimimi, gostei menos ainda quando vi o filme.. Achei a atuação do gurizinho lá fantástica, mas detestei - com todas as letras - o filme. Não tenho muita vontade de ler o livro não, mas me interessei pelo primeiro e pelo último, principalmente pelo último! Vou ver se acho pra ler, vai ser bom porque quero mesmo fugir um pouco do arroz-com-feijão norte-americano/europeu que sempre li! Adorei as dicas Del!

Beijo!

Belle ϟ disse...

De livros indianos não entendo muito bem não, mas já li um livro que fala, no máximo, 10% da Índia, o A Maldição do Tigre, mas não considerei muito dela quando o li porque a protagonista era uma americana que não sabia nada da Índia.
Já comecei a ler As Aventuras de Pi, li umas três páginas, mas acabei parando porque achei meio sem graça. Se eu conseguir vou ler de novo, mas ele é muito grosso, eu fico sem coragem de começar a lê-lo.

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