6 de agosto de 2015

A Política Sexual da Carne (Carol J. Adams)

Estou em guerra com o vegetarianismo. Não, não tenho nada contra o movimento, pelo contrário: apoio tanto os vegetarianos, que quero entrar para o grupo. O problema é que ainda não encontrei as razões certas, tenho várias dúvidas sobre o assunto e amo comer salmão. Sério, salmão é a melhor coisa do mundo. Então comecei a acompanhar sites que tratam do assunto, assim como blogueiros/blogueiras, para ver se saio de cima do muro. Recentemente, decidi buscar respostas na literatura também, e o primeiro livro escolhido foi A Política Sexual da Carne. Já que o feminismo está em voga, achei melhor otimizar meu tempo e ler sobre tudo ao mesmo tempo. Apesar de ter pinta de famoso, eu nunca tinha ouvido falar dele antes. Carol J. Adams gasta boas páginas interligando feminismo, vegetarianismo e pacifismo.




O que é “a política sexual da carne”? É uma atitude e uma ação que animaliza mulheres e sexualiza e efemina os animais. Em 2008, tivemos conhecimento de que o juiz presidente da Corte de Apelação da nona circunscrição judiciária dos Estados Unidos postou em um site da internet matérias que incluíam a foto de mulheres nuas, de quatro, pintadas de modo a parecerem vacas, e vídeo de um homem parcialmente vestido, interagindo com um animal excitado. A mulher, animalizada; o animal, sexualizado. Isso é política sexual da carne. (...) A política sexual da carne é também a presunção de que os homens precisam de carne e têm direito a ela, como também que o consumo de carne é uma atividade masculina associada à virilidade. (...) Onde existe uma virilidade (ansiosa) se encontrará o consumo de carne.

Confesso que esperei absolutamente nada da leitura. Já no terceiro prefácio (sim, há um monte de prefácios) percebi que eu e a autora não falávamos a mesma língua. Carol J. Adams é radical enquanto eu tento ser apenas sensata. Se de um lado ela defende o consumo de carne como um traço belicoso de violência masculina, deixando completamente de lado (propositadamente?) o consumo de peles por mulheres vaidosas, por outro lado seu livro, para mim, não passa de falácia sexista com argumentos há muito tempo ultrapassados pela ciência. Além do mais, que ideia foi essa de comparar a opressão patriarcal com a violência animal? Sou mulher, e posso sofrer preconceitos por causa disso, mas não sou nenhuma vaca no abate, querida.

Por trás de toda refeição com carne há uma ausência: a morte do animal cujo lugar é ocupado pela carne. O “referente ausente” é o que separa o carnívoro do animal e o animal do produto final. A função do referente ausente é manter a nossa “carne” separada de qualquer ideia de que ela ou ele já foi um animal, manter longe da refeição o “múuu” ou o “báaa”, evitar que algo seja visto como tendo sido um ser. Uma vez que a existência da carne é desligada da existência de um animal que foi morto para se tornar “carne”, esta fica desancorada do seu referente original (o animal), tornando-se, em vez disso, uma imagem que não está ligada a nada, imagem esta usada frequentemente para refletir o status feminino, assim como o dos animais. Os animais são o referente ausente no ato de comer carne; tornam-se também o referente ausente nas imagens de mulheres subjugadas, fragmentadas ou consumíveis.

Antes mesmo de terminar o livro eu já estava com raivinha da autora. O limite, porém, foi atingido com as “evidências” que ela trouxe. Não há referências bibliografias em grande parte e outras citações estão completamente fora de contexto. Carol usa como exemplo a ser seguido escritoras do século XIX, ou início do século XX, o que demonstra que, apesar de o livro ter trezentos prefácios, ninguém se preocupou em atualizar pesquisas, estatísticas e representantes vegetarianos. Faltou pouco para eu fechar o livro, produzindo um baque surdo, assim que o discurso dos “nossos ancestrais herbívoros” apareceu preenchendo as páginas. Pesquisadores evidenciam, sim, que há 3,5 milhões de anos comíamos grama. Todavia, não acho que por isso estejamos dispostos a pastar. Tampouco considero o vegetarianismo a solução para o fim das guerras.

Pessoas que concordam com isso andam comendo a planta errada.

Eu sou contra a violência aos animais, nunca quero me aproximar de um matadouro e acho o mundo injusto. Isso não quer dizer que eu concorde com Carol J. Adams. Essa mulher tem uma visão completamente distorcida e utópica de como as coisas funcionam. Trocando em miúdos: ela é louca. Louca ao comparar a indústria machista com matadouros norte-americanos. Louca por concluir que nossos dentes caninos, por serem menores do que os de um tigre, não foram feitos para rasgar pedaços de carne. Louca por afirmar, veladamente, que o vegetarianismo é uma causa unicamente feminista – desmerecendo, aliás, feministas que comem carne (haja coragem). Só mais louca do que ela são as pessoas que leram tudo isso sem a menor sensatez (uma das poucas coisas que nos separam de um bovino, por exemplo).

Conclusão: as mulheres são oprimidas na sociedade e o consumo excessivo de carne prejudica tanto a saúde quanto o meio ambiente. Por outro lado, não acho que Carol J. Adams vá ajudar animalizando mulheres e humanizando animais. Existem os seres humanos conscientes, com noções de moral e ética, e existem os animais sencientes, com sistema nervoso, indefesos, que precisam ser protegidos. Nossas semelhanças não nos aproximam a ponto de mulheres sofrerem como animais, ou de animais sofrerem como soldados em guerra. Somos separados por uma infinita cadeia evolutiva e não me venha você dizer que o salmão, meu almoço em potencial, tem uma forte opinião sobre os textos de Plutarco.

2 comentários:

gostodecanela.net disse...

depois dessa frase :" Só mais louca do que ela são as pessoas que leram tudo isso sem a menor sensatez (uma das poucas coisas que nos separam de um bovino, por exemplo)." me pergunto quando iremos marcar um almoço comendo umsalmão pra falarmos da vida.

nem tenho mais nada a adicionar sobre seu post. sensato, sensacional...

Júlio César Prava disse...

Sugiro que você leia Introdução aos Direitos Animais do Gary L. Francione. O autor aborda o por que não podemos tratar os animais como objetos com o princípio de igual consideração dos interesses semelhantes. Ele traçará analogias com a escravidão humana mostrando como sistemas híbridos não protegem o indivíduo. Ainda não li o livro aqui resenhado, e parece que ela cometeu algumas gafes, mas acredito que a autora usou tal analogia para demonstrar este ponto também.

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