9 de setembro de 2015

A arte dos journals (e como se inspirar)

Não me lembro com quantos anos ganhei meu primeiro diário – só sei que estava no ensino fundamental e a capa dele era azul com glitter, fechava a cadeado e as folhas tinham uma leve fragrância. Escrevi-o por completo, joguei fora e ganhei um outro parecido, mas rosa. Também o completei, guardei por um tempo e ganhei mais um da mesma linha, verde. Este foi o último, que não sobreviveu sequer à metade. Os cadeados foram os únicos que sobraram dessa história; usei como chaveiro na mochila do ensino médio e agora estão guardados em algum canto perdido.

Depois vieram as agendas com a falsa urgência que o 1º Colegial traz. Talvez fosse o caso de estar a semana inteira ocupada com trabalhos, provas e grupos de estudo em uma escola boa, mas não era o caso da minha, que nem professores tinha. A agenda, nova em folha em pleno agosto, se transformou numa latinha de lixo onde havia papel de Sonho de Valsa, figurinhas de balas, ingressos para os filmes que não assisti (pois meu pai não deixava), mas que encontrei jogados no chão do shopping e colei numa folha aleatória “para preencher, pelo menos, a vida da agenda”. Completei o colegial e ainda estava com a mesma agenda do início do primeiro (e mesmo assim comprei outras).

Eu nunca tive o que contar. Minha juventude e adolescência foram um livro cheio de páginas em branco. Como eu disse, coletava coisas interessantes da calçada para ter o que fazer com o espaço vazio. Todavia, sempre quis ter um diário aventureiro, daquele com cicatrizes e marcas de uma viagem intensa. Só não sabia como fazê-lo. Até que em 2009, antes de viajar, comprei um caderno e nele, durante a viagem, escrevi poemas e cartas para mim mesma. Foi um avanço, mas ainda o achei “sério demais” para o que eu realmente queria; para quem eu realmente era. Então, no início deste ano não sei o que me deu que comecei a exercitar mais o meu lado artístico: desenhos, zentangles, colagens. Acho que me libertei de um pouco mais da velha vergonha que insisto em sentir de mim mesma. O resultado? Um journal.


Nos meus primeiros diários eu escrevia a mesma coisa que todas as outras meninas da minha idade: nada com coisa alguma. Nas agendas frustradas do ensino médio eu preenchia o meu nada com coisas alheias. Neste journal agora, estou registrando quem eu sou e como sou. Às vezes me imponho limites (resquícios de uma garota que morreu), mas a evolução é visível: minha vida, finalmente, começou a viajar. Eu desenho, se quiser desenhar. Escrevo, se quiser escrever. Faço colagens, se quiser colar. Arrisco dizer que a única coisa que me faltava para ter um journal de verdade era a maturidade dos vinte e tantos anos. Obviamente, não é assim para todo mundo.

A internet me ajudou muito a encontrar o meu journal. Antes de procurar por inspiração eu não fazia ideia de por onde começar, tamanha a confusão dentro de mim mesma. “Quer saber?”, pensei com meus botões numa tarde de domingo, “eu tenho um caderno lindo de capa vermelha mofando na gaveta e uma vontade imensa de ser uma Nicole Oakley da vida”. Fui parar no Pinterest, essa terra de coisa boa, e saí de lá carregada de material. Depois, conheci o Seaweed kisses, A year to inspire e o excelente Journaling journeys. Sem contar que a autora Keri Smith (Destrua Este Diário) é uma fonte inesgotável de criatividade e terminou de me libertar das amarras.


Existe receita? Não. Fórmula secreta? Muito menos. Talvez seja inevitável “imitar” um estilo assim que começamos nosso journal, por outro lado, também é inevitável que nossa personalidade mais cedo, ou mais tarde, acabe se destacando até que um belo dia começamos a agir naturalmente com relação ao diário pessoal. É preciso dar tempo ao tempo, disso não tenho dúvida. Ter vontade é, obviamente, importantíssimo, mas não é tudo. Você precisa saber o que quer fazer do seu journal, o que deseja registrar e afins. Conheci pessoas que desenham as paisagens pelas quais passam, outras colam notas fiscais e etiquetas de chá, há ainda aquelas que escrevem “a seco”, são sisudas consigo mesmas e com as páginas em branco. Eu prefiro fazer de tudo um pouco, dando quase nenhuma atenção para a escrita (pois além do blog, já escrevo demais por aí).

Tenho muitas amigas e colegas que “sofrem” da mesma vontade que eu sofria antes. Eu não sabia como ajudá-las, tampouco sei agora mesmo tendo, finalmente, um journal só para mim. Não é exagero dizer que é um assunto complicado. Mas, por fim, eu gostaria de saber se algum leitor, ou alguma leitora, do Bonjour Circus faz, ou já fez, um journal. E se você fica apenas passando vontade, consegui te inspirar? Aceito indicações de sites/blogs sobre o assunto, caso conheçam algum que não citei. Acho que o journaling deveria ser mais divulgado no Brasil. É um hobbie que beira a arte!

10 comentários:

Magda Albuquerque disse...

Que ideia massa! Ando com umas vontades de guardar palavras e imagens (fotos, colagens, desenhos) em algum canto, e me vi fazendo esse caderno/diário/journal. Sempre acabo fazendo em espaços distintos cada coisa, e essa ideia de juntar tudo como um espaço sagrado só meu me encantou. Uma coisa que pensei seria usar caderno com páginas sem pauta, pra deixar tudo ainda mais livre.

Vou começar a fazer. Obrigada por compartilhar.

Beijos.

Ana Jähne disse...

lindo, lindo, lindo!
teu post é um bom pontapé pra mim. vou fuçar mais os links que tu deixou aqui, passear pelo pinterest e ahhhhh... quero começar o meu journal também :}

Manie disse...

sim, del, ce me inspirou bastante com esse post! me identifiquei com a sua adolescência e diários haha... quantos eu tenho guardados! essa ideia do journal parece mt legal. é como se fosse um blog, mas só seu, particular e com mais liberdade pra desenhar, talvez. curti a ideia :D

www.pe-dri-nha.blogspot.com

Tally disse...

Tenho mania de colar recortes nas agendas. Mas um journal na verdade nunca tinha ouvido falar desse termo rs

Larissa Fonseca disse...

Nossa, eu escrevi muitos diários uns anos atrás, mas depois começou a rolar uma preguicite aguda de escrevê-los simplesmente para "narrar minha própria vida" enquanto eu poderia estar vivendo-a mais um pouco. Então hoje, o que eu mantenho, é um diário despretensioso, do tipo "escrevo aqui só quando eu quiser ou precisar". Mas ainda quero montar um journal, pra valer (porque já comecei vários e não levei nenhum adiante). Venho montando um painel de inspiração no We Heart It, já tive um no Pinterest, mas journal pronto, que é bom, nada.

Gostei da sua arte e do fato de você ter me inspirado mais um pouco!

Patthy disse...

Acho que eu preciso fazer mais isso: deixar fluir. Eu comprei até um caderno sem pautas para não me limitar a escrever. Comecei a brincar com citações, letras de música, desenhos... Aí travei. Tem momentos em que bate a inspiração mas eu sempre que tenho que fazer outra coisa (devo frisar: nunca é caso de vida ou morte e eu postergo tanto os rabiscos do meu caderno quanto o que tinha para fazer). Às vezes eu tento recuperar a vontade que tive mais cedo, mas o momento passou e sinto como se estivesse me forçando. Por que eu complico algo tão simples? Eu hein.

Thay disse...

Acho que desde que eu aprendi a escrever tenho diários. Não necessariamente pra escrever sobre meu dia, mas pra deixar correr solta a imaginação. Só que ao mesmo tempo em que adoro criar essas coisas, sou muito perfeccionista e não consigo deixar a imaginação tão solta quanto deveria, haha! Se faço uma linha torta já fico muito doida de raiva, quero rasgar a página e começar de novo. Isso é uma coisa que tenho tentado mudar com meu journal atual: escrevo e desenho só quando dá vontade e tento não me preocupar (muito) com o que vai sair. Adorei as indicações de sites que você deu, ainda não os conhecia e acho que serão bem úteis nas minhas próximas tentativas! Um beijo, Del! ♥

Yuu disse...

Yay! Tive curiosidade de saber mais sobre o seu journal desde que você postou que aquele texto, mas tive vergonha de perguntar e pedir um post sobre, haha. Tenho te acompanhado no Instagram e adorado os seus desenhos. Só fico imaginando como deve ser terapêutico sentar e deixar a criatividade fluir. Ganhei meu primeiro diário logo que aprendi a escrever, e eu me sentia muito bem contando sobre os passeios para a casa da vó nos fins de semana naquelas páginas em formato de coração do caderno dos 101 Dálmatas. Hoje em dia sofro com perfeccionismo, e isso me bloqueia criativamente. Tenho medo de estragar os caderninhos tão bonitos, que eu demoro muito para escolher e investir, com um conteúdo que vai me frustrar depois. Seu post me inspirou, sim. Acho que vou apostar num caderno que não me deixe tão retraída a princípio, para superar essa paranoia materialista estética. :)

Beijinhos!

gostodecanela.net disse...

Geente por isso adoro vir aqui! Que sites mais lindos, visão mais linda sobre umdiario...eu quando pequena ganhei um, escrevi minhas coisas mas ai descobri que minha mae lia aí perdi total confiança. nunca mais tive um e somente hoje, aos 23 anos fui voltar a escrever minhas memorias. sinto tanta falta de algumas coisas q adoraria ter um lugarzinho pra revisitar, pra ver como era 'minha criatividade" quando mais nova, mas enfim... daqui pra gente vou manter um <3 valeu pelas dicas, mesmo sem querer <3

Carol disse...

Não fazia ideia de que isso fosse chamado "fazer um journal" e ainda não entendi muito bem a diferença entre isso e escrever um diário, porém curti como sempre curto a sua arte.

Escrevo diários desde pequena, mas os que resistiram foram três cadernos que uso como diário desde os 15 anos (estou com 24). São cadernos bobos de marcas comuns, como a Tilibra. Sempre procurei cadernos e agendas com temas florais e só percebi isso depois de muito tempo. O que comprei para quando o atual acabar tem pássaros como tema e isso deve significar alguma coisa que espero um dia descobrir.

Escrevo sobre meu cotidiano simples e minhas angústias, que são muitas. Tinha muita vergonha do fato de não ser uma pessoa profunda e estar há anos escrevendo sobre os mesmos temas (ansiedade, insegurança e estudos), mas agora nem ligo mais. Não faço desenhos e nem nada, só escrevo mesmo. E uso adesivos de Hora de Aventura porque sou madura.

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