6 de dezembro de 2015

O que nós dizemos ao deus da morte?

Eu não entro em nenhum hype. Quer dizer, eu não entro em quase nenhum hype. Alguns de vocês devem se lembrar do quanto reclamei de Crepúsculo (até hoje não acredito que caí nessa, mas serviu de lição). As chances, no entanto, de surfar nas ondas do momento são mínimas. Não foi diferente com As Crônicas de Gelo e Fogo, do escritor George R. R. Martin, que estouraram em 2011 com a estreia da série na HBO, apesar de o primeiro livro ter sido lançado em 1996. “Game of Thrones”, a obra adaptada para a televisão, não parava de pipocar em todas as timelines das minhas redes sociais e eu, muito bonita, fiz a egípcia.

Veja bem, desde 2011 estou ignorando solenemente aos apelos de amigos e conhecidos para conhecer o trabalho “genial” do “gordo desgraçado” George Martin (as aspas são um oferecimento especial de conhecidos eventualmente revoltados por alguma reviravolta da série). Para não dizer que sou uma frígida, cheguei a assistir três ou quatro episódios em 2012/2013 – incluindo o primeiro episódio da primeira temporada que foi uma iniciativa minha só para provar que não sou tão chata assim. Deu errado, obviamente. Logo de cara temos uma decapitação, uma loba morta e uma criança jogada pela janela.


Não era um seriado para mim e ponto final. Tenho o ímpeto de rejeitar violência mesmo quando ficcional. É um gênero que não me atrai e me dá gastura essas pessoas que não conseguem compreender isso. “Mas você tem que assistir porque é bom demais” foi o que mais escutei nos últimos quatro anos. Eu insiste, bravamente, porque não queria ver cavalos morrendo, pessoas agonizando, gargantas sendo explicitamente dilaceradas. Incesto não é um dos tópicos de meu interesse, na verdade. Por várias vezes argumentei: “por que assistir isso se a cada semana vocês perdem um personagem favorito? Está todo mundo morrendo nesse seriado, afinal. Por que me apegar se estou bem assim”? Entretanto, o encanto era tamanho que as pessoas pareciam gostar de sofrer com cada episódio.

Certo dia, baixei todos os livros d'As Crônicas de Gelo e Fogo pensando que um dia, talvez, eu leria um por um (assim como fiz com os outros 600 títulos que guardei para nunca mais). No fundo, hoje reconheço, a semente já estava plantada naquela época. Pois meses atrás, durante uma conversa no metrô, eu resolvi sem mais nem menos começar a ler o primeiro volume dos livros. Você pode achar que foi um insight, ou que os deuses antigos me chamaram ao dever, mas a verdade é que ouvi mais uma vez a frase que tantas vezes me disseram desde que a série começou: “você precisa conhecer”! Só isso – como se eu fosse uma camada de gelo que sofreu tantas marteladas que acabou quebrando (com o perdão do trocadalho).


O resultado não poderia ter sido mais assombroso (para mim). Em uma noite li as primeiras trezentas páginas. No dia seguinte deixei de fazer algumas coisas importantes para ler mais cem. Quando dei por mim estava secando uma lágrima que caiu em homenagem à Eddard Stark, pessoa que eu já considerava pacas. Percebi que estava perdida quando precisei – uma necessidade, eu diria, física – digitar muitos insultos para o gordo filho da puta George R. R. Martin em uma conversa no Whatsapp com amigos sobre os livros. Eu não acreditava no que ele havia escrito e no entanto o amava perdidamente por ter criado tudo aquilo.

Sim, As Crônicas de Gelo e Fogo são histórias de lutas, guerras e espadas, mas também de mulheres empoderadas e demais minorias retratadas fora dos estereótipos. Isso já bastaria para valorizar a obra e destacá-la das demais. Não satisfeito, George R. R. Martin cria um mundo complexo e rico em estratégias militares e conspirações. Suas crônicas, com algumas lutas inspiradas em guerras reais, são boas lições de história e criatividade. Ele tem, como poucos, a capacidade de trazer o leitor para o mundo que criou fazendo com que odeie e ame seus habitantes – e levando certas intrigas para o lado pessoal.

Terminei o primeiro livro com a sensação de que perdi muito tempo e deveria ter começado a leitura logo em 2011, assim como a série. Hoje, poucos meses depois daquela conversa no metrô, estou na metade do terceiro volume e baixando a primeira temporada pelo torrent (planejei uma maratona de Game of Thrones antes do lançamento da nova temporada). E para quem não queria nem ouvir falar em Stark e Lannister e Targaryen, até que estou bem agora, enquanto traço minhas próprias teorias a respeito de Jon Snow.

 
Moral da história: meus amigos e conhecidos, que estão sofrendo uma expectativa dilacerante enquanto esperam os próximos acontecimentos, são obrigados a me aguentar comemorando e praguejando cada momento que para eles já é passado. Talvez eu tenha sido esperta em adiar minha iniciação porque, pelo visto, George R. R. Martin não está disposto a ser misericordioso. Ele bem pode demorar mais dezesseis anos para lançar o próximo livro. Estou pensando seriamente em economizar as páginas a partir do quarto volume para não ficar na mão. Acho que não aguentaria tanta espera. Nem eu, nem quem está por perto, pois eu não falo de outra coisa.

Vocês criaram um monstro!

6 comentários:

Yuu disse...

Achei engraçadíssimo você ter postado esse texto minutos depois de eu concluir a leitura do primeiro livro (últimos capítulos os quais adiei por três dias pra não acabar, já que não tenho previsões de quando vou pegar o segundo emprestado), então, primeiro, me diga como entramos nessa sincronia inesperada?
Assim como você, sou propensa a fugir dos hypes, principalmente daqueles que tem aventuras épicas, violência e cenas de sexo explícita em demasia. Juro que não me faz bem ficar vendo essas coisas. Até que alguns meses atrás (claramente não tenho o mesmo ritmo de leitura que o seu) calhou de eu ser a mediadora da devolução de A Guerra dos Tronos de uma amiga para outra. E o que aconteceu quando eu estava voltando pra casa, já agendando um encontro pra devolver o tal livro? Comecei a lê-lo, claro. Tirando o epílogo maçante, fiquei surpresa quando percebi a leitura fluindo de POV em POV - alguns, claro, mais interessantes do que outros - e dei crédito ao George R. R. Martin por ter criado um universo que era muito mais do que as pessoas conseguiam expressar. Simpatizei por personagens que jamais imaginaria simpatizar, e me irritei com personagens que jamais imaginaria me irritar (lê-se Drogo e Sansa, respectivamente). Claro que tudo nesse livro tem suas justificativas, a gente só precisa colocar cada questão em perspectiva. O ponto é: outro monstro foi criado aqui. A diferença é que ainda não estou pronta para caçar o segundo livro (a amiga que tem os livros - por que ela teve que se mudar para outro continente?!) e não sei se vai rolar maratona até a próxima temporada, mas quando a gente se pega problematizando a série, a gente sabe que a semente foi plantada. Agora estou me sentindo como Jon Snow: eu não sei de nada.

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Ainda sobre Miranda: SIM! Também queria que ela tivesse ficado com o Michael no final, porque por mais que eu ame o Gary, ache ele um cara bacana e tudo o mais, ele foi tão covarde naquele final que todas as reviravoltas com ele me irritaram. Ele não pensou no que estava fazendo, ao contrário do Mike, só se jogou naquela proposta por competição. Mas, como quiseram exaltar o desfecho do relacionamento platônico de longo prazo, fazer o quê? Vida que segue. ¯\_(ツ)_/¯

Mals aí o textão.

Beijinhos. :*

Renata disse...

Del, quando eu vi o título do post já completei mentalmente a frase e vim correndo! hahahah
Eu passei pela mesma coisa, mas ainda não comecei a ler os livros por motivos de mestrado. Eu não costumo assistir nada com muita violência e afins e por isso também resisti por muito tempo, até que não deu e resolvi assistir por aceitação social. hahaha Agora já estou ansiosa para a próxima temporada *-*

Ana Jähne disse...

comecei pelas séries, é verdade. essa coisa meio idade média misturada com fantasia alimenta meu lado nerdinho. já depois da primeira temporada corri pros livros. fui lendo devagarzinho e acompanhando a série ao mesmo tempo (os livros primeiro que é pra näo perder a graça). até que acabei. todos os volumes e tô aqui no desespero porque parece que o "gordo desgraçado" tá bem de boa e levando todo tempo do mundo pra terminar o próximo livro. :/ entäo... faz issi aí mesmo. vai lendo de-va-gar que é pra num gastar.

Mariana Pereira disse...

Quando vi o título do post corri para ler o post! kkkk

Mas bem, quando me emprestaram o primeiro livro dessa saga maravilhosa, eu achava que seria um Senhor dos Anéis com muita violência e cenas quentes,mesmo sendo nerd e amando Idade Média,porém acabei por me surpreender e virei uma mega fã. Parei na metade da season 2,porque inventei de ler os livros antes de ver a série toda e até agora só li os dois primeiros.Tenho que voltar urgentemente a ver a série e ficar viciada novamente.

Beijos, Mariana.

P.S: Jon Snow é o meu personagem favorito <3

Thay disse...

Fujo de hype profissionalmente, sabe, HAHA, mas adoro que eu cheguei na onda das "Crônicas de Gelo e Fogo" só um tico antes de virar seriado e de repente, BOOM, era esse assunto em todo canto. Mas achei legal, era mais gente pra comentar, bolar teorias, surtar e chorar junto. Principalmente chorar junto, George Martin não perdoa nem lobo nem criança nem Stark nenhum. Acho rude, mas continuo lendo porque deve ser masoquista. Enquanto isso, em algum lugar dos EUA, George Martin ri da nossa cara enquanto enrola pra lançar o próximo livro. Sério, é bem possível eu já ter tido um filho até lá! D:

Um beijo! =)

Ricardo Monteiro disse...

Também fujo de hype, mas taí um que eu cair e não me arrependo. Também adoro os livros desse cara, mas meio que não me identifico com a serie. Toda vez que começo a assistir não tenho paciência pra continuar. Nunca tenho. hehe

Bjos,

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